A Engenharia Hawaiana pelas curvas da Highway

COMPARTILHAR:

Desde que eu me entendo por gente, ouço o nome da banda Engenheiros do Hawaii. Obviamente, eu já conhecia a famosa regravação de “Era Um Garoto que, Como Eu, Amava os Beatles e os Rolling Stones” e a conhecida expressão de dizer que o “Papa é Pop”, eternizada na música e álbum de mesmo nome, mas sempre que era questionado sobre gostar da banda, minha resposta costumava ser sempre a mesma: não posso dizer que sim nem dizer que não, pois nunca me detive a conhecer profundamente a obra da banda.

Entretanto, como existe tempo para tudo nessa vida, após conhecer diversas pessoas que possuem um amor incondicional pelos Engenheiros num curto espaço de tempo, entendi que poderia ser o universo me dizendo que era chegada a hora de me debruçar sobre os 18 discos da banda de Humberto Gessinger, lançados ao longo de pouco mais de 23 anos de carreira, uma quantidade bastante considerável de lançamentos para o tempo de atividade do grupo, sendo uma das mais produtivas da rock nacional, e saber afinal de contas o motivo de tanta devoção e de quebra, dar início a uma série de textos que passará a se chamar de #MaratonaDiscográfica, onde farei uma audição da discografia de uma banda específica e ao final, farei um relato pessoal do que achei da experiência.

Com o objetivo de observar a evolução da sonoridade da banda ao longo dos anos, optei por ouvir todos os discos pela ordem de seus lançamentos, começando por Longe Demais das Capitais, de 1986, disco este que completa 30 anos em 2016 e o único com a formação Humberto Gessinger na guitarra e voz, Marcelo Pitz no baixo e Carlos Maltz na bateria. O disco inclui músicas bastante conhecidas como “Toda Forma de Poder” e “Segurança”, mas meu destaque vai para a música “Crônica”, que possui a citação do escritor italiano Umberto Eco, que diz “Você, que tem ideias tão modernas, é o mesmo homem que vivia nas cavernas”.

Após a estreia de sucesso, Pitz sai de banda, fundando o Nenhum de Nós pouco tempo depois, e tem início o ciclo com a formação que ficaria marcada como a clássica dos Engenheiros do Hawaii com Humberto remanejado para o baixo e continuando nos vocais, o baterista Carlos Maltz e a entrada do guitarrista Augusto Licks, tendo como marco inicial dessa fase o lançamento de um dos discos mais importantes do rock nacional: A Revolta dos Dândis, de 1987.

“A Revolta dos Dândis 1 e 2”, “Infinita Highway” (inclusive, amo), “Terra de Gigantes” (“a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes” é simplesmente genial) e “Refrão de Bolero”, que só se tornaria uma canção preferida do público anos depois, são só alguns dos clássicos que o disco apresenta, mas todo o álbum merece ser apreciado. Inclusive, ele faz parte do meu Top5 Engenheiros do Hawaii que eu apresentarei ao final do texto.

Dando seguimento à nossa maratona (calma aí galera, faltam só mais 16 discos), chegamos em Ouça o que Eu Digo, Não Ouça Ninguém, de 1988. O primeiro disco a ter contribuições de Licks nas composições, tem “Somos Quem Podemos Ser” como a música mais conhecida, mas meu destaque vai para “Tribos e Tribunais” e a faixa-título. Da turnê do disco, saiu o primeiro álbum ao vivo dos Engenheiros, intitulado Alívio Imediato e lançado em 1989. Gravado no Canecão, o disco inclui os principais sucessos da banda até aquele momento e duas músicas inéditas gravadas em estúdio: “Nau à Deriva” e a música que dá título ao álbum, “Alívio Imediato”.

Abrindo os anos 90, temos o disco mais conhecido da banda: O Papa é Pop. Com cerca de 500 mil cópias vendidas, o disco deu ao grupo a alcunha de banda cult mais pop do Brasil. Além da música que dá nome ao disco, temos a famigerada “Era um Garoto que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones”, “O Exército e um Homem Só 1 e 2”, “Pra Ser Sincero”, além da brincadeira de usar a mesma melodia d’O Papa é Pop em “Perfeita Simetria”. Gostaria também de recomendar a canção “A Violência Travestida faz seu Trottoi”r. É ainda durante a turnê desse disco que a banda se apresenta no Rock in Rio 2, em janeiro de 1991 no Maracanã, recebendo elogios inclusive no New York Times. É importante destacar a incrível habilidade que Humberto Gessinger em tocar baixo (eu digo tocar de verdade, não ficar só fazendo marcação) e cantar ao mesmo tempo.

Em 1991, enquanto o Nirvana lançava o Nevermid, o Engenheiros do Hawaii nos apresentava Várias Variáveis (como é eles conseguiam lançar um disco todo ano?). Esse disco foi o segundo de uma sequência de três discos, iniciada com O Papa é Pop no ano anterior, produzidos pela própria banda. Meus destaques vão para “O Sonho é Popular” que abre o disco, “Herdeiro da Pampa Pobre”, música de Gaúcho da Fronteira e “Piano Bar”, além de “Sampa no Walkman” (provavelmente, ela hoje se chamaria Sampa no Spotfy).

Considerando apenas os discos de estúdio, Gessinger, Licks e Maltz ou simplesmente GLM, lançado em 1992, é o melhor álbum da banda (na minha humilde opinião, é claro). Encerrando a trilogia de discos autoproduzidos pelo trio, é também o último trabalho de inéditas com a formação clássica do grupo. Com músicas como “Ninguém = Ninguém”, “Pampa no Walkman”, “Túnel do Tempo”, “Pose (Anos 90)” e a fofíssima “Parabólica”, composta em homenagem a Clara Gessinger, filha do Humberto nascida naquele ano, GLM merece ser ouvido com calma e bastante atenção.

Um dos primeiros acústicos realizados por uma banda de rock no Brasil, Filmes de Guerra, Canções de Amor (1993) é o trabalho mais sofisticado dos Engenheiros. Com a participação da Orquestra Sinfônica Brasileira, sob a batuta do maestro e pianista mineiro Wagner Tiso, o disco apresenta quatro músicas inéditas, sendo duas apresentadas ao vivo e as outras duas gravadas em estúdio. Embora ele esteja entre os discos menos vendidos da banda, considero ele uma obra prima não apenas do rock nacional, mas da música popular brasileira. Considerando discos de estúdio e ao vivo, o GLM cede seu primeiro lugar ao FGCA.

Após a saída do guitarrista Augusto Licks, a banda passa por uma reformulação e o trio torna-se um quinteto, com o ingresso dos guitarristas Ricardo Horn e Fernando Deluqui e do tecladista Paulo Casarin. O único registro em disco dessa formação é o Simples de Coração, lançado em 1995. Destaque para “O Castelo dos Destinos Cruzados” e “A Promessa”. Esse disco possui uma versão em inglês que nunca foi apresentada ao público, mas uma copia dele de baixa qualidade que circula pela internet e como diz o ditado: se tá na internet, então é verdade.

Embora tenha sido lançado incialmente como um projeto paralelo após a saída em massa de todos os integrantes do Engenheiros do Hawaii, o Humberto Gessinger Trio, de 1996, acabou sendo incorporando à discografia da banda anos depois. Juntamente com o guitarrista Luciano Granja e o baterista Adal Fonseca, o disco contém ótimas músicas como “A Onda”, “O Preço” e “Freud Flinstone”, embora tenha vendido apenas 25 mil cópias, devida a falta da marca Engenheiros do Hawaii.

Lançado no ano seguinte, pode-se dizer que Minuando é o disco menos inspirado no que diz respeito à letras. Embora possua ótimos arranjos de cordas e a regravação de “Alucinação”, do cantor cearense Belchior. Esse disco marca o ingresso do tecladista Lucio Dorfman na banda, que a partir daí passa a ser um quarteto. Mesmo não sendo o melhor disco do Engenheiros, “Banco”, “A Montanha e Nuvem” merecem destaque.

Encerrando a produtiva década de 90 para os Engenheiros do Hawaii, temos o disco ¡Tchau Radar!, de 1999. Após um Minuano não muito inspirado, Humberto Gessinger e Cia fazem um disco com a qualidade que é característica do grupo gaúcho. Poderia destacar praticamente o disco inteiro. Canções domo “Eu Que Não Amo Você” e “3×4” que são bastante conhecidas do grande público, além de “Concreto & Asfalto” e “10.000 Destinos”, mas meu destaque real vai para a belíssima regravação de “Cruzada”, música de Márcio Borges e Tavinho Moura, apresentada numa belíssima versão de voz e cordas. Talvez a melhor faixa de encerramento de todos os discos do Engenheiros do Hawaii.

10.000 Destinos (2000) e 10.001 Destinos (2001) são meio que um disco só lançado em dois momentos. O primeiro, um ótimo registro ao vivo, incluindo duas músicas inéditas gravadas em estúdio, “Números” e “Novos Horizontes”, e as regravações de “Rádio Pirata”, do RPM, com a participação de Paulo Ricardo e “Quando o Carnaval Chegar”, de Chico Buarque, ambas também gravadas em estúdio. Esse disco também marca o fim dessa formação. O segundo, além de ser o relançamento do primeiro em formato duplo, apresenta os novos integrantes da banda, que são Paulinho Galvão na guitarra, Glácio Ayala na bateria e Bernardo Fonseca no baixo, trazendo Humberto Gessinger de volta a guitarra depois de 14 anos. No 10.001 Destinos, a nova formação apresenta apenas regravações de músicas da banda feitas em estúdio. Achei esse segundo disco um tanto desnecessário, mas serviu para mostrar quais os caminhos que a sonoridade que a banda passaria a seguir nos dois álbuns seguintes.

Surfando Karmas e DNA (2002) e Dançando no Campo Minado (2003) são os discos mais pesados dos Engenheiros do Hawaii. O álbum de 2002 marca a volta da parceria entre Gessinger e o ex-baterista da banda, Carlos Maltz, na música E-stória. Também merecem destaque as músicas “Nunca Mais”, a faixa-título e “Sei Não”. Seguindo a linha do anterior, Dançando no Campo Minado é o disco mais curto dos Engenheiros, durando cerca de 32 minutos e entre esses dois, é o meu favorito. “Dançado no Campo Minado”, “Segunda-feira Blues 1” e “Até o Fim”, além da conhecidíssima “Dom Quixote” são meus destaques.

De longe o disco mais pop do Engenheiros do Hawaii, Acústico MTV com toda certeza é o lançamento que até quem não gosta de Humberto Gessinger e Cia já ouviu, nem que seja de relance. Basicamente um Greatest Hits em versões radiofônicas, o Acústico MTV serviu para que o grande público que ainda não tinha tido conhecimento das músicas da banda, pudesse ter contato com elas. Há quem não goste, mas eu particularmente adoro ver a popularização da arte, pois se ela não fala para as massas, não à vejo com muito sentido, mas isso é assunto para outro texto. Se eu fosse recomendar algum disco do Engenheiros do Hawaii para alguém que esteja querendo conhecer algo da banda, com certeza o Acústico MTV é uma boa opção.

Encerrando, até o momento, a gloriosa discografia do Engenheiros do Hawaii (UFA!!!), temos mais um acústico: Novos Horizontes, de 2007. Assim como Filmes de Guerra, Canções de Amor (1993), Novos Horizontes merece destaque entre as grande pérolas da música popular brasileira. Mais sofisticado que o acústico anterior, o NH apresenta nove músicas inéditas, com destaque para “Vertical” e “Quebra-Cabeça”, além da versão em conjunto de “Toda Forma de Poder” e “Chuva de Containers”, que abre o disco. Um belíssimo registro que fecha de forma digna e honrosa a discografia de uma das mais produtivas bandas do rock nacional.

Me recomendaram ouvir também os projetos do Humberto Gessinger, mas eles irão ficar para uma outra oportunidade. Neste momento eu quis realmente me ater a discografia dos Engenheiros do Hawaii. Algo que chama atenção na obra da banda é a profundidade das letras de Humberto, algo que a crítica da época caiu muito em cima, pois consideravam os Engenheiros do Hawaii uma banda elitista por citar filósofos e pensadores em suas músicas. Já os Engenheiros consideravam que ser elitista é deixar de citar pensadores e filósofos por achar que o grande público não vai entender. Creio que a perpetuação da obra dos Engenheiros do Hawaii ao longo dos anos e o grande número de fãs e admiradores seja a melhor prova de que eles estavam completamente certos.

TOP 5

1 – Gessinger, Licks e Maltz (1992)

2 –  ¡Tchau Radar! (1999)

3 – A Revolta dos Dândis (1987)

4 – O Papa é Pop (1990)

5 – Ouça o Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém (1988)

DISCOGRAFIA:

Longe Demais das Capitais (1986)

A Revolta dos Dândis (1987)

Ouça o que Eu Digo, Não Ouça Ninguém (1988)

Alívio Imediato (1989)

O Papa é Pop (1990)

Várias Variáveis (1991)

Gessinger, Licks e Maltz (1992)

Filmes de Guerra, Canções de Amor (1993)

Simples de Coração (1995)

Humberto Gessinger Trio (1996)

Minuano (1997)

¡Tchau Radar! (1999)

10.000 Destinos (2000)

10.001 Destinos (2001)

Surfando Karmas e DNA (2002)

Dançando no Campo Minado (2003)

Acústico MTV (2004)

Novos Horizontes (2007)

 

COMPARTILHAR:

Comentários no Facebook