Benjamim em Manifestações de sons e sentimentos

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Mineiro de nascença, mas um fluminense de coração, Benjamim (33) traz uma versatilidade musical apurada. Com cerca de uma década tocando na noite de Campos dos Goytacazes, interior do Rio de Janeiro, há cerca de 6 meses abandonou a carreira de Técnico da Informação para se jogar de cabeça na carreira musical e acaba de lançar seu primeiro álbum, ‘Manifestações’, nome bastante sugestivo para os dias atuais.

Batemos um papo muito legal sobre música, política e os desafios do fazer música independente em nosso país. Confira agora essa ótima entrevista.

 

Como se deu o início da sua caminhada musical?

Tudo começou com meu avô. Ele tocava violão e cavaquinho e organizava uma festa chamada Folia de Reis, numa cidade do interior chamada São Fidélis. Ele passou pros filhos e acabou chegando em mim. O violão acabou se tornando o instrumento que eu mais me especializei. Estudei violão clássico, violão popular e outras coisas por hobbie. Estudei música na igreja que eu ia com minha família desde pequeno até sair e ir pra uma escola mais profissional e venho estudando até hoje. Há 10 anos passei a tocar na noite profissionalmente e à 6 meses eu larguei minha área de formação que é Tecnologia da Informação para me dedicar inteiramente a música. Foi um passo importante e o disco é fruto disso.

Quais as suas principais influências?

Falar de influência é um barato porque na hora de compor a gente não pensa muito nisso. Só depois que o trabalho ficou pronto é que eu vi claramente as minhas influências musicais presentes no meu trabalho como Jorge Ben Jor, Tim Maia, Legião Urbana, Clube da Esquina que são as minhas principais.

Quando você começou a compor? Como se dá o processo criativo?

Eu sempre escrevi muito porque eu sempre gostei muito de ler. Sempre fui um aluno bom em português e péssimo em matemática. Até hoje tenho vários cadernos com escritos que eu fiz sem pensar que poderia se transformar em músicas. Quando fui fazer o ‘Manifestações’, resolvi revisitar esses escritos e percebi que vários deles poderiam ser boas músicas e isso me ajudou, porque pra mim a letra sempre vem primeiro.

 

Como se deu o processo de preparação do disco?

Foi um processo de concepção do disco foi muito gostoso. O primeiro passo foi decidir com quem eu iria fazer. Eu conhecia praticamente todos os estúdios da cidades e fui conversar com todos eles. Cogitei em fazer fora, mas o custo seria muito elevado então acabei encontrando um pessoal de confiança aqui mesmo. Depois definir a banda. Campo tem muitos músicos talentosos e eu já tinha algumas pessoas que eu tinha bastante afinidade e fui chamando elas. O passo seguinte foi a escolha do repertório. Primeiramente separei 20 canções, depois reduzi pra 10 até fechar em 8. Algumas me perguntaram do porquê apenas 8. Eu acho que para um primeiro disco, não é muito legal jogar 15 música em cima de alguém que ainda não me conhece. Acho que com menos músicas a pessoa consegue ter uma primeira impressão legal. É um cartão de visitas.

Por que ‘Manifestações’?

É uma história bem louca. Eu estava dormindo e sonhei que alguém vinha até a mim e dizia “você vai gravar e o nome do disco será Manifestações”. Eu acordei assustado e isso não saio da minha cabeça. Depois eu vi que o nome casava com a ideia de diversidade que eu queria trazer no disco. A proposta do disco é falar sobre as nossas diversas manifestações. A gente vem de um tempo recente de muitas manifestações, do povo indo pra ruim reivindicar uma porrada de coisas e falar das nossas manifestações, de tudo aquilo que a gente não consegue guardar e bota pra fora, seja amor, raiva, revolta ou o que quer que seja. A ideia era essa e depois eu vi que o nome acabava casando. A música pra mim é algo muito visceral, que precisa fazer barulho, ter impacto. Eu sempre tento levar atitude, nem que seja numa apresentação voz e violão. No final das contas, Manifestações tinha tudo a ver.

O álbum possui várias letras de cunho político. A atual conjuntura política mundial influenciou?

Certamente sim. Estava revendo uma entrevista da Nina Simone e ela fala que o artista precisa refletir o seu tempo. Pra mim não tem como separar, as menos que você seja um personagem e faça algo por encomenda, mas eu acho que a música é mais que isso.  Quando você está compondo, você está colocando um pedaço de você ali e não tem um brasileira hoje que não esteja com essas questões na cabeça e deseje manifestar. O bacana disso é que eu sempre sonhe em compor algo que as pessoas cantassem por identificação e eu vejo que a música “Delação Premiada” eu percebo isso claramente e isso meu deixou muito feliz.

 

No álbum encontramos black music, reggae, samba, folk, pop e rock. De onde vem esse ecleticismo?

Eu amo a música acima dos estilos. É como o futebol. Eu sou torcedor do Vasco (risadas estão liberadas nesse momento), mas se estiver passando em outro canal um jogo da terceira divisão e vejo que o jogo está melhor, irei para pra assistir esse jogo, porque eu gosto muito do esporte futebol, acho emocionante. Com a música é paralelo. Eu sou atraído por música boa e várias vezes sou atraído por coisas bem diferentes do que eu faço, mas eu gosto da música acima dos estilos. Sou fã de Cartola, acho belíssimo. O rock contribuiu muito pra minha formação, ouvi muito Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii, Cazuza. Lá em casa o rádio estava sempre ligado e pra mim a música precisa ser boa. Se ela for boa, o estilo fica em segundo plano. Pra um primeiro trabalho, foi bom mostrar um pouco de cada coisa que eu gosto de fazer.

Você também toca na noite. Qual a diferença desse trabalho musical de tocar na noite para algo voltado ao autoral?

Tem uma coisa que me angustia que é a falta de espaço para o trabalho autoral. Eu tenho amigos de até 50 anos de carreira e são 50 anos de sucesso aqui em Campos cantando a música dos outros. Eu sempre pensei que todo artista tem uma obrigação com a criação. Até quando eu pego uma música dos outros pra tocar, eu nunca faço do mesmo jeito. Se você é artista, você tem a obrigação de criar, senão você se tornar só um reprodutor de música. A proposta do disco foi justamente marcando esse tempo novo onde eu larguei minha profissão de formação pra viver inteiramente da música. Se eu quero viver da música, eu preciso ter o meu trabalho bem definido e o disco é a melhor ferramenta pra isso, onde a pessoa vai ouvir e saber exatamente quem eu sou. É uma mudança de patamar, tirando a cara de “músico de barzinho”, porque depois que as pessoas rotulam, corre-se o risco de você ficar com essa marca pro resto da vida e ter seu trabalho autoral ajuda nessa mudança. O próprio show de lançamento do disco será num teatro, pois irá marcar não só o lançamento do álbum, mas também o lançamento oficial de mim enquanto artista autoral. Creio que tanto aqui em Campos como em boa parte do Brasil não existe um espaço. Tem muita gente boa espalhada pelo Brasil que a gente vai descobrindo. Tem uns desinformados dizendo que a MPB morreu, muito pelo contrário. Tem muita gente fazendo coisas diferentes e eu quero fazer parte desse time. Muita gente nova como o 5 a Seco e outros que alguns tem chamados de Nova MPB. Pra mim é a mesma MPB boa de sempre renovando com novas pessoas e eu quero fazer parte disso. O ‘Manifestações’ é essencial pra isso.

 

É possível viver exclusivamente de um trabalho musical autoral?

Eu estou na esperança de um mundo que sim. Eu gosto de ver entrevistas dos artistas que eu gosto pra saber como tudo começou, de onde veio. Isso é uma grande motivação. Eu pretendo a partir do ano que vem lançar um single a cada 3 meses. Esse primeiro eu fiz em formato de disco porque é um cartão de visitar, mas o single pra quem é independente é um caminha bacana principalmente pra nós que somos independente. Eu sempre falei que meu objetivo com a música não é o Faustão. Não são os 15 minutos. Eu quero viver uma vida digno pra sustentar minha casa com a arte que eu faço. Se eu conseguir isso, estarei feliz pra caramba. Se acontecer uma visibilidade maior, será lucro.

Como tem sido a receptividade do público?

Aqui em Campos, se lançar num trabalho autoral é uma aventura. Quem já acompanha meu trabalho compra ideia fácil. A música título do disco tem tido uma boa receptividade, que é um folk e fala de uma história de amor que deu errado (uma história real, mas deixa ela pra um outro momento). Alguns colegas tem tocado elas em seus shows, muita gente pedindo cifra dela, já fui convidado para conceder algumas entrevistas em virtude do disco e uma canção minha está sendo usada na abertura de um programa de uma rádio daqui de Campos. A expectativa é que esse reconhecimento cresça e atinja as pessoas que ainda não conhecem meu trabalho.

Quais os próximos planos?

Tem o show em abril no Trianon. Nele vão estar as músicas de músicas do Manifestações e algumas autorais que não estão no disco. Inclusive, pretendo lançar elas em single nos quatro primeiros meses de 2018. No momento estou concentrando tudo na produção desse show. Também estamos preparando o clip de ‘Manifestações’. Já estamos vendo a locação. Vou fazendo as coisas devagar de acordo com os recursos e agora estou atrás de apoiadores para produzir um clip de qualidade pra lançar, se possível, antes do show de abril. Fora isso, estou começando a entrar em contato com contratantes para possibilitar oportunidades de shows de abertura para poder apresentar meu trabalho e ser visto por outros públicos. Ter essa visibilidade em outros centros é muito importante. No momentos, esses são os próximos passos.

 

Ouça ‘Manifestações’.

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