De casa nova, Vento Festival celebra a música brasileira

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Depois de dois anos sendo realizado em Ilhabela, em 2017 o Vento Festival respirou novos ares. Distante apenas 2,4 quilômetros, São Sebastião abraçou o evento que pela primeira vez aconteceu no feriado, entre os dias 15 e 18 de junho.

Em uma grande praça, localizada no Centro Histórico da cidade, foram montados dois palcos: o principal Son Estrella Galícia, onde ocorreram os shows mais importantes e a OCA, que recebeu o Free Beats e os DJs convidados, além de outras apresentações.

A magia do festival totalmente gratuito, marcado pelo espírito livre e agregador, tomou conta de todos. Nem o frio espantou as pessoas. O extenso espaço virou uma grande confraternização, lá você encontrava gente de todas as idades e gêneros, até de outras nacionalidades. Tinha a galera do artesanato local, os índios vendendo os seus trabalhos, produtos do evento, local de massagem, exibição de filme e várias possibilidades de alimentação e bebida, para todos os gostos. Filas? Quase nada.

Se para alguns a mudança pode ter sido ruim, conversando com os moradores e observando o comércio cheio dava para notar o quão benéfico foi para a cidade, ainda mais se tratando de um período de baixa temporada.

Seguindo a linha do tema desta edição, “autoconhecimento e a empatia”, a abertura do festival valorizou a raiz da cidade com uma apresentação da tribo indígena da Aldeia do Rio Silveiras (que fica entre os municípios de Bertioga e São Sebastião, perto de Boracéia).

Apontado como um dos melhores shows do primeiro dia, Paula Cavalciuk foi a responsável por abrir o palco Son Estrella Galícia levantando a bandeira do feminismo com o seu “pop planetário”. A cantora e compositora de Sorocaba apresentou canções do primeiro disco Morte & Vida e do EP Mapeia, com muito bom-humor e descontração. Um dos destaques do show foi a participação de Juliana Strassacapa, da Francisco, el hombre, na faixa que da nome ao álbum. O ponto negativo, que se repetiu nos outros dias, ficou por conta do pouco público nessa faixa de horário, fato bem comum em festivais que iniciam cedo, ainda mais em uma cidade praiana com dias de muito sol.

Depois foi a vez dos cariocas da banda Do Amor, que após quatro anos sem lançar um material inédito veio com o Fodido Demais. E foi com a faixa do novo álbum que o quarteto abriu o seu show, marcado pela miscelânea de estilos. Além de músicas do recém-lançado CD, a banda incorporou ao seu repertório músicas dos discos Do Amor (2010) e Piracema (2013). Teve rock, axé, frevo e até uma versão de “Baby doll de nylon, de Caetano Veloso. Tudo em meio a gritos de Fora Temer e trocas com o público que aos poucos iam chegando.

Em turnê com o projeto “lo-fi”, o Mombojó subiu ao palco já de noite e revisitou as canções dos seus quatro álbuns que marcam os seus 15 anos de carreira, completados em 2017. Um presente para os fãs e admiradores dos pernambucanos. Mas apesar de percorrer sucessos o show teve momentos meio mornos, mas que foram quebrados com, mais uma vez, gritos de Fora Temer, agora mais intensos. Alias os dizeres estavam estampados na camisa de Chiquinho. A passagem pela história de Felipe S e companhia se encerrou em alto astral com a divertida “Papapá”.

O último e considerado o melhor show da noite, confirmou todas as expectativas. Com uma energia incrível, a Francisco, el hombre manteve o clima lá no alto do começo ao fim, levando o público, em grande número, ao delírio. Vale destacar, que foi o único do primeiro dia que teve gente agarrada na grade bem antes do começo. Voltando ao que interessa, a banda botou todo mundo para dançar com as canções do ótimo disco Soltasbruxa, pautadas por questões sociais, feministas e politicas embaladas por ritmos latinos. Os olhos brilhando e os sorrisos nos rostos dos integrantes, emocionados e ao mesmo tempo demostrando o prazer de estar ali, contagiavam ainda mais. Um dos pontos altos foi a apresentação da música “Triste, Louca ou Má”, que contou com a participação das meninas do Mulamba. A faixa – cujo clipe já tem mais de 1 milhão de visualizações – foi cantada em coro pelos presentes. Antes de encerrar com “Não Vou Descansar”, a banda ainda apresentou pela primeira vez a versão de “Mi Revolución”, dos uruguaios do Quatro Pesos de Propina.

Vencedora por voto popular do concurso Open Mic, que garantiu tocar no evento, a banda Mulamba chegou metendo o pé na porta e dando o seu recado para a mulherada e para os machistas de plantão. O sexteto curitibano abriu a sexta-feira desfilando as suas canções empoderadas que falam da luta pelos direitos, a opressão e a violência contra as mulheres. A curta apresentação teve inicio com “Mulamba”, seguidas por “Provável Canção de Amor para Estimada Natália” e “P.U.T.A”, com participação de Juliana Strassacapa, que virou uma  madrinha da banda. Carismáticas, competentíssimas e divertidas, Amanda Pacífico, Cacau de Sá, Caro Pisco, Fer Koppe, Naíra Debértolis e Nat Fragoso colocaram o público no bolso.

Previsto, a principio, para durar mais tempo, de acordo com a programação, o show do maranhense, radicado no Rio de Janeiro, Negro Leo foi encurtado, talvez por causa do seu problema na garganta, mas apesar disso não deixou de apresentar o seu som psicodélico. Depois de um extenso intervalo, Ava Rocha subiu ao palco já mandando duas de suas canções mais conhecidas “Transeunte Coração” e “Você não vai Passar” (ganhadora do Prêmio Multishow 2015, na categoria “Novo Hit”), ambas do seu primeiro disco Ava Patrya Yndia Yracema, que deu o tom da apresentação. A performática cantora ainda fez uma versão do clássico “Índia”.

No intervalo do palco Son Estrella Galicia, a OCA esquentou (olha que estava frio) com a dupla Craca e Dani Nega, misturando rap com música eletrônica em músicas com veia política e social, do disco Craca, Dani Nega e o Dispositivo Tralha. Conectada com o público, Dani foi literalmente para a galera, vestida a caráter mandou uma versão do funk “Baile de Favela”, renomeado “Baile de Panela”, criticando os moradores dos bairros nobres de São Paulo que foram as ruas com a camisa da CBF e os que bateram panelas pedindo o impeachment.

O mais aguardado show da noite foi envolvido por uma atmosfera especial, já que São Sebastião é a terra natal de Juçara Marçal, vocalista da Metá Metá. Por conta disso o show contou com a presença da sua família na plateia. Mas falando da apresentação em si, era o que se esperava de Juçara, Kiko Dinucci e Thiago França: um show intenso, pegado, agressivo e afiado, que foi absorvido pelo público de imediato. O repertório foi formado pelo elogiado e premiado disco MM3, além dos anteriores Metá Metá (2011) e MetaL MetaL (2012).

No sábado os shows no palco principal começaram mais cedo, às 15h30 o pernambucano Barro deu inicio ao seu show cantando canções do seu último disco Miocárdio, para um pequeno público. Logo depois veio o agora trio Tono.

O terceiro dia recebeu também a banda Macaco Bong que mostrou em alto e bom som um rock instrumental com grooves e riffs desconcertantes no palco principal deste festival a beira mar. Bruno Kayapy, guitarrista e linha de frente da banda, entre trocas de guitarras e reguladas no amplificador tocou ao lado de lado de Daniel Hortides (baixo) e Renato Pestana (bateria) sons do ultimo álbum Macaco bong, de 2016. Este ano a banda comemora 15 anos de carreira.

No encerramento de sua apresentação visceral e intensa no Vento Festival o Macaco Bong fizeram versões das conhecidas “In Bloom” e “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana e Bruno Kayapy, contou que em breve começam as gravações de versões de canções do álbum Nevermind. Antes de descer do palco, Bruno também agradeceu toda equipe do festival e falou também para o publico do Vento sobre a existência do Pico do Macaco, nome dado ao estúdio da banda que fica na Vila Mariana em São Paulo e que recebe shows diários de bandas independentes de todo brasil.

Enquanto na OCA o rapper Acauã Capucho, que comemorava aniversário no dia, na companhia de dois guitarristas apresentou suas músicas do disco Salve Paim em tom experimental, .

De volta ao palco principal, nos primeiros acordes e versos Anelis Assumpção (que presença e que voz, minha gente!) tomou conta do público, que já começava a dançar com “Cê tá com tempo?”, faixa do disco Anelis Assumpção e os Amigos Imaginários (2014), que dominou o setlist. A energia fluiu e a troca foi imediata, variando entre ritmos como jazz, ska, reggae e rap comandada por uma espetacular banda. Veio “Eu gosto Assim”, “Mau Juízo”, “Por Quê?”, “Declaração”, “Devaneios”, “Song to Rosa”, “Toc toc toc”, “Not Falling”, entre outras. A viagem sonora proporcionada por Anelis preparou o terreno para a última banda da noite.

Nem o intervalo e nem o tempo esfriou o público, assim que a Abayomy Afrobeat Orquestra começou a tocar o espaço virou uma pista de dança. Nascida como um tributo a Fela Kuti, a big band, formada por 13 integrantes, se apoiou no seu segundo álbum, intitulado Abra A Sua Cabeça, e mandou só pedrada. O show contou com a participação especial de Totonho. No final, toda a produção do Vento foi chamada ao palco como forma de agradecimento, virando uma grande festa.

No domingo ainda rolou no palco OCA o Bloco Tarado Ni Você, que fez sucesso no carnaval de São Paulo ao homenagear Caetano Veloso.

Depois de quatro dias de ótimos shows e trocas, o Vento Festival chegou ao fim. O fim que na verdade representa o recomeço de um evento que pelo visto encontrou o seu lar e veio para ficar. Que venha 2018!

 

Fotos: Fernando Banzi
Resenha Macaco Bong por Joao Ferreira Perrecasktone

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