De Trenchtown à Favela da Maré: Os Paralamas do Sucesso e sua Música Universal

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Dando continuidade à série de textos #MaratonaDiscográfica, onde eu faço a audição de toda a discografia de alguma banda específica, hoje é a vez de comentar sobre a obra d’Os Paralamas do Sucesso, o trio formado por Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone que está na estrada a mais de três décadas e que nos presentearam com inúmeros clássicos não apenas do rock nacional, mas da música popular brasileira.

Antes de mais nada, já vou avisando que discos como Titãs e Paralamas Ao vivo, lançado em 2008, ficaram de fora, por eu querer me atentar mais aos discos de estúdio e os ao vivos oficiais da banda, mas prometo que em um outro momento, também escreverei sobre os discos extra carreira dos Paralamas. Sem mais delongas, vamos ao que interessa.

Cartão de visitas do trio, Cinema Mudo foi lançado em 1983, num momento em que a cena BRock estava tentando se consolidar. Embora não seja um disco de muito agrado por parte da própria banda, por considera-lo muito manipulado pela gravadora, ele apresenta ótimas músicas como a clássica “Vital e sua Moto” (eu adoro essa música!), feita em homenagem ao ex-baterista do grupo, “Cinema Mudo”, “Patrulha Noturna” e a gravação de “Química”, música de Renato Russo que ele própria regravaria 4 anos depois no disco Que País é Este. Podemos ver em Cinema Mudo uma banda ainda procurando sua sonoridade. O melhor ainda estava por vir e veio já no ano seguinte.

Amigo, me responde. Teria como um disco que tem como primeira faixa, nada menos que “Óculos” e a segunda música ser “Meu Erro”, não fazer sucesso? Não, né? É o caso de O Passo do Lui, de 1984. Se o disco anterior foi manipulado pela gravadora, o segundo disco dos Paralamas ficou a cara que o trio queria. Além das duas músicas já citadas, talvez os dois maiores clássicos do grupo, ainda tivemos “Ska”, “Romance Ideal” e “Mensagem de Amor”, mas o disco inteiro merece destaque e está entre os grandes álbuns do rock nacional. Este disco credenciou a banda a tocar no primeiro Rock in Rio, que aconteceu cerca de dois meses após o lançamento do disco. Mesmo ainda não muito conhecida do grande público, a postura profissional no palco e a coragem de Herbert em dar uma bronca no headbangers que atiraram pedras nas bandas brasileiras no dia anterior, além da energia do show, tendo ainda apenas o trio, sem banda de apoio, fez a banda começar a circular pelo resto do país. Daí em diante, ninguém mais segurou o sucesso dos Paralamas.

Em 1986, o terceiro disco da banda explica o porquê eu sempre defendi que não se pode classificar Os Paralamas do Sucesso como APENAS uma banda de rock. A partir de Selvagem?, os elementos da música africana e latina passam ter presença forte na musicalidade do trio. Os riffs iniciais de “Alagados” lembram e muito as guitarradas da música da América Central. “Melô do Marinheiro” e “A Novidade”, parceria do trio com Gilberto Gil, demonstrando já o respeito que a banda passava a ter pelos medalhões da MPB, também são músicas de destaque do álbum. “Teerã”, a faixa-título e a regravação de “Você”, de Tim Maia, também merecem atenção. Um disco maravilhoso do início ao fim e que levou o trio a se apresentar no Festival de Montreux, na Suíça.

O show em Montreux acabou se transformando no primeiro registro ao vivo dos Paralamas. D, lançado 1987, além de trazer a inédita “Será Que Vai Chover” e a regravação de “Charles, Anjo 45”, música de Jorge Ben, o disco também traz uma novidade que é a presença de um quarto paralama, o tecladista João Fera, que a partir dali, passaria a ser presença fixa nas gravações e shows dos Paralamas do Sucesso, até os dias de hoje.

Creio que eu não estarei sendo leviano em dizer que é com Bora Bora, de 1988, que a sonoridade do Paralamas se define pra valer. Além da presença do tecladista João Fera, o naipe de metais passa a fazer parte na sonoridade do grupo. Quem se acostumou a ver apenas três pessoas no palco, passaria a ver sete. Mais dançante do que nunca, Bora Bora tem um lado A em clima de festa e um lado B bem pra baixo, reflexo do fim do relacionamento entre Herbert e Paula Toller, líder do Kid Abelha. “O Beco”, “Bora Bora” e “Um a Um”, música de Edgar Ferreira eternizada na voz de Jackson do Pandeiro, demonstrando a amplidão do universo musical dos Paralamas, são alguns dos destaques, além da triste “Quase um Segundo”, que Cazuza regravaria em seu derradeiro disco, Burguesia.

Assim como Bora Bora, Big Bang, lançado em 1989, é um disco onde o rock mais tradicional passa longe. Na verdade, a sequência de discos Selvagem, Bora Bora e Big Bang é praticamente uma trilogia onde a banda faz um pesquisa profunda na música latina e africana. Considerando que nós brasileiros damos pouca atenção a nossa raiz latina, negando nossas semelhanças com os demais países que formam a América Latina, preferindo absorver apenas o que vem dos territórios Saxões, os Paralamas seguiram um caminho à margem, resultando numa sonoridade própria dentro do BRock. “Nebulosa do Amor” e a clássica “Lanterna dos Afogados” são algumas das pérolas que podemos encontra em Big Bang, encerrando uma produtiva década de 80.

O ano era 1991, e Os Paralamas do Sucesso lançavam no mercado, Os Grãos. Apresentando uma sonoridade diferente, com passagens eletrônicas e uma influência menor da música latina, o disco deu início a uma fase não muito boa, comercialmente falando, da banda, o que não quer dizer nenhum pouco que Herbert, Bi e Barone não tenham lançado bons trabalhos, muito pelo contrário. Os Grãos apresentam ótimas músicas como “Tribunal do Bar”, “Tendo a Lua”, “Vai Valer”, que é uma espécie de maracatu, “Ah Maria” e a excelente “Trac Trac”, do músico argentino Fito Paéz, reforçando a sintonia dos Paralamas com suas raízes latino-americanas. Embora sendo um ótimo disco, o álbum teve poucas vendas. A crítica considerou Os Grãos muito experimental para ser absorvido pelo grande público, mas eles nem imaginavam o que estava por vir três anos depois.

Perto de Severino, lançado em 1994, Os Grãos pode ser considerado um disco pop. Em Severino, os Paralamas resolveram experimentar mesmo. Influências da cultura nordestina estão presentes em todo o disco, a começar pela capa, simplesmente maravilhosa. Difícil destacar alguma coisa no disco, pois ele merece ser apreciado na íntegra, mas posso apontar “Não Me Estrague o Dia”, “Varal”, “Réquiem do Pequeno”, “Vamo Batê Lata”, “Dos Margaritas”, “Rio Severino”, “Cagaço” e a baladinha “O Amor Dorme” (se vocês prestarem atenção, eu falei o nome de quase todas as músicas do disco). O disco menos vendido da história dos Paralamas, sucesso na Argentina e temos em Severino, na minha opinião, a obra prima d’Os Paralamas do Sucesso.

Embora as vendas de disco estivessem em baixo, o mesmo não se podia dizer com relação aos shows, sempre lotados. Na verdade, sempre foi ao vivo que os Paralamas se saem melhor. E o que seria mais atrativo para uma volta do trio às paradas de sucesso no Brasil do que um registro ao vivo? É assim que surge Vamo Batê Lata, de 1995. Lançado em formato duplo, o disco 1 traz o registro ao vivo com clássicos como “Meu Erro” e “O Beco”, além de músicas da fase experimental da banda, sem falar de “Um a Um” e a regravação de “Gostava Tanto de Você”, de Tim Maia. O disco 2, era composto de quatro músicas inéditas. Normalmente, músicas inéditas em discos ao vivo costumam passar despercebidas, mas neste caso foi diferente. Dentre as quatro músicas, duas ganharam bastante destaque: “Uma Brasileira”, que acabou se tornando uma das canções mais conhecidas do grupo e a indigesta “Luís Inácio (300 Picaretas)” que causou alvoroço em Brasília, até com gente querendo proibir a banda de executa-la ao vivo. Era a volta dos Paralamas ao grande público.

Lançado em 1996, 9 Luas marca o retorno dos Paralamas às letras mais pop, mantendo o alto nível da pesquisa musical. Abrindo o disco, temos “apenas” “Loirinha Bombril”, mas minha favorita é a segunda faixa. “Outra Beleza” lembra um jongo, dança tradicional do interior do Rio de Janeiro que lembra os congados e conta com a participação do grupo As Gatas, numa beleza de coro que minha alma nordestina se emociona ao ouvir. “La Bella Luna”, “De Música Ligeira” e “Um Pequeno Imprevisto” também são ótimas músicas desse álbum.

Seguindo a linha pop de 9 Luas, Hey Na Na, de 1998, foi super bem recebido pelo público e já demonstra uma sonoridade onde o violão começa a se fazer mais presente, já apontando para o que viria depois. “O Trem da Juventude”, “Brasília”, o reggae “O Amor não sabe Esperar”, “Ela disse Adeus” e a última letra escrita por Chico Science, “Scream Poetry” são uma mostra da qualidade desse disco, embora alguns puristas não gostem dele, mas super recomendo.

Diferente de outros lançamentos da série Acústico MTV, os desplugado d’Os Paralamas do Sucesso é pra afastar os móveis de sala e se jogar no baile. Apresentando praticamente um repertório composto basicamente de Lados B, com destaque para a gravação de músicas de outros cantores como “Manguetown”, de Chico Science. Aliás, o espírito de muita gente esteve presente nesse álbum, como o de Tim Maia, James Brown, que na época ainda era vivo e até mesmo o poeta mineiro Fernando Brant, parceiro de Beto Guedes em “Feira Moderna”, registrado pelo Paralamas neste acústico e falecido em maio do ano passado. Vale destacar a participação especial de Zizi Possi em “Meu Erro”, numa versão completamente diferente da que todo o público conhecia e o ex-forever-legionário Dado Villa-Lobos nos violões tocando em todo o show. Com toda certeza, um dos melhores acústicos lançados pela MTV.

Lançado após o acidente que deixou Herbert Viana preso a uma cadeira de Rodas, Longo Caminho, de 2002, já estava com suas composições prontas antes do ocorrido. Considero este o disco mais Rock ‘n’ Roll dos Paralamas, com pouquíssimas participações da banda de apoio. “O Calibre” e “Cuide Bem do Seu Amor” foram as músicas que mais se destacaram desse disco e é dessa turnês que foi lançado o ao vivo Uns Dias, praticamente uma celebração, com um apanhando de músicas das diversas fases da banda e com diversas participações especiais, mostrando que a energia dos shows, marca registrada do trio, ainda estava bem viva.

Embora tenha tido uma turnê de sucesso, mostrando que a banda teria condições de continuar na estrada tocando, a prova de que os Paralamas continuariam a ser produtivos no que diz respeito a escrever coisas novas, tendo em visto que as músicas do Longo Caminho haviam sido compostas antes do acidente, e essa prova vem com Hoje, de 2005. Menos pesado que o anterior, ele apresenta músicas mais densas, como a belíssima “Pétalas”, “Passo Lento” e “De Perto”. O disco também inclui um cover de Chico Buarque, com “Deus Lhe Pague”.

Último álbum de inéditas dos Paralamas, até o momento, Brasil Afora é um disco que, como o nome sugere, traz a brasilidade presente em suas canções. Gravado na Bahia, o disco conta com participações de Carlinhos Brown, em “Sem Mais Adeus”, e Zé Ramalho em “Mormaço”. “Meu Sonho” e “Taubaté ou Santos” são outras ótimas músicas do disco, mas Brasil Afora é, assim como Severino, um álbum que merece ser apreciado na íntegra. É desse disco que vem o Multishow Ao Vivo: Os Paralamas do Sucesso Brasil Afora, lançado em 2011 e é ótimo registro da turnê, com participações novamente de Zé Ramalho e de Pitty em “Tendo a Lua”. Brasil Afora pode ser uma ótima síntese da musicalidade diversa d’Os Paralamas do Sucesso.

Considerado por mim o testamento definitivo dos Paralamas, Multishow Ao vivo: Os Paralamas do Sucesso 30 Anos é o passeio por toda a obra da banda. De Cinema Mudo á Brasil Afora, está tudo aí. O disco ideal para se apresentar à garotada da nova geração que está conhecendo as grandes bandas do BRock, por ser aquele famoso Greatest Hits. Um show enérgico, como um show dos Paralamas tem que ser, sem falar que esse disco conta com o primeiros registro ao vivo de Vital e Sua Moto, primeiro sucesso da banda. Um disco de cabeceira para as próximas gerações.

Paralamas é isso, é rock, é reggae, é ska, é dub, é merengue, música africana, é música latina, é música brasileira, é world music como dizem os gringos e talvez eles tenha melhor classificado Os Paralamas do Sucesso. Dizer que eles são uma banda de rock é limitar demais. A música deles para todos os públicos. É música do mundo e quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.

Top 5

1 – Selvagem (1986)

2 – Severino (1994)

3 – O Passoo do Lui (1984)

4 – 9 Luas (1996)

5 – Longo Caminho (2002)

Discografia

Cinema Mudo (1983)

O Passo do Lui (1984)

Selvagem? (1986)

D (1987)

Bora Bora (1988)

Big Bang (1989)

Os Grãos (1991)

Severino (1994)

Vamo Batê Lata (1995)

9 Luas (1996)

Hey Na Na (1998)

Acústico MTV (1999)

Longo Caminho (2002)

Uns Dias (2004)

Hoje (2005)

Brasil Afora (2009)

MultiShow Ao Vivo: Os Paralamas do Sucesso Brasil Afora (2011)

MultiShow Ao Vivo: Os Paralamas do Sucesso 30 Anos (2014)

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