E a Legião Urbana conseguiu vencer

COMPARTILHAR:

Vinda diretamente do centro do poder, Brasília, a Legião Urbana é até hoje uma das bandas mais amadas e idolatradas, sendo considerada por muitos como a mais representativa da geração BRock. De fato, mesmo após 20 anos de seu fim, após o falecimento de seu líder Renato Russo, a Legião continua sendo uma das mais preferidas, inclusive pela nova geração que não os viu em ação. O sucesso da turnê comemorativa dos 30 anos de lançamento do primeiro disco, com a participação dos seus ex-integrantes Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, prova isso.

Considerando toda a representatividade da Legião Urbana e a influência que ela exerceu na minha própria vida, nada melhor do que começar a edição 2017 da série #MaratonaDiscográfica com a Legião Urbana, a banda que mais emprega cantores de barzinho nesse país. Aviso de antemão que esse é o texto em que mais possui interferência da minha posição de fã da banda, mas procurei ser o mais racional possível. Seguindo a orientação que vinha nas capas dos discos da Legião Urbana, ouça no volume máximo.

Cartão de visitas da banda, Legião Urbana foi lançado em 1985 e é, para mim, uma das obras primas do rock nacional. A abertura já fica por conta de “Será” e no mesmo disco, encontraremos músicas como “Geração Coca-Cola”, dos tempos do “Aborto Elétrico”, “Ainda é Cedo”, “Baader-Meinhof Blues”, “Teorema”, regravada pela banda Ira! em 1999 e a versão original de “Por Enquanto”, que faria bastante sucesso da voz da cantora Cássia Eller. Extremamente politizado, o disco não foi tão bem nas paradas inicialmente, mas com o passar dos anos, ganharia o status de Clássico.

Projetado inicialmente para ser um disco duplo com o nome de Mitologia & Intuição, Dois, como o nome sugere, foi o segundo disco da banda, lançado em 1986. Nele iremos encontrar uma Legião Urbana mais romântica, sem deixar a crítica social de lado. Cheio de sucessos, nele temos “Quase Sem Querer”, a singela “Eduardo e Mônica”, a densa “Índios”, “Andrea Dória”, talvez uma das mais preferidas dos fãs da banda e o grande hit “Tempo Perdido” que, vamos combinar, Dado Villa-Lobos pode não ser um grande guitarrista, mas o cara criou um dos riffs mais conhecidos e marcantes do rock nacional e tá na história por isso.

Cobrado pela gravadora para lançar um novo disco, mas sem repertório para tal, pode-se dizer que Que País é Este é uma coletânea de músicas inéditas não tão inéditas assim. A música título do disco já era executada em shows, e as demais faziam parte do repertório do Aborto Elétrico e da fase Trovador Solitário de Renato Russo, além de “Química”, gravada pelo Paralamas do Sucesso em seu primeiro disco. É em Que País é Este que temos a saga de João do Santo Cristo, contada e cantada em “Faroeste Caboclo” e a belíssima “Eu Sei”. Inclusive, recomendo a todos ouvirem a versão do grupo vocal Boca Livre. Simplesmente maravilhosa.

Dando início a uma nova fase na sonoridade da banda, temos As Quatro Estações, lançado em 1989. Considerado por muitos o disco mais religioso da banda, foi o mais vendido e o que contém o maior número de hits. “Há Tempos”, “Pais e Filhos”, “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto”, a forte “1865 (Duas Tribos)”, “Monte Castelo” que reuni em sua letra o texto bíblico da primeira carta do apóstolo Paulo aos Coríntios e um poema de Camões, resultando numa das coisas mais lindas que já se viu, e “Meninos e Meninas”, fazendo desse disco uma verdadeira obra prima.

Já sob efeito da descoberta de sua condição de soropositivo, Renato Russo e Cia lançam em 1991, V, um dos mais melancólicos e mesmo tendo sido lançado a tanto tempo, serve como radiografia musical do Brasil atual. “Teatro dos Vampiros”, “Vento no Litoral” e “Sereníssima” são alguns dos exemplos. Também temos a romântica “O Mundo Anda Tão Complicado”, mas com toda certeza, “Metal Contra as Nuvens” seja a mais down do disco. Com 11 minutos de duração, ela traz ao final um sopro esperançoso em acreditar que nosso história não estará pelo avesso assim, sem final feliz.

Com o início do tratamento de Renato Russo contra o alcoolismo, a Legião Urbana lança em 1993 o disco O Descobrimento do Brasil. Com um clima mais positivo, o disco traz mais cores desde a capa, até os arranjos, mas podemos dizer que este disco é uma despedida antecipada, até por ser o último que conta com todas as forças de Renato Russo. Nele nós vamos encontrar músicas como “Vinte e Nove”, “Vamos Fazer um Filme” (eu amo essa música), “Os Anjos” e “Giz”, que Renato afirmava ser a melhor coisa que ele já tinha composto. Mas o grande destaque vai para “Perfeição”, uma das letras mais pesadas da banda. É interessante observar também os primeiros versos de “Love in the Afternoon”, que diz “é tão estranho, os bons morrem jovens”.

Com Renato já bastante debilitado pela Aids, a Legião Urbana entra em estúdio para gravar aquele que seria o último trabalho da banda, lançado com Renato ainda em vida. O nome é bem sugestivo, A Tempestade, lançado em 1996, poucas semanas antes de Renato falecer. Talvez a tristeza maior desse disco não seja nem as letras, mas sim, a voz de Renato, visivelmente enfraquecida. Nele temos “Dezesseis” e “Mil Pedaços” como suas músicas mais conhecidas. Além de “1º de Julho”, que tinha sido gravada por Cássia Eller dois anos antes.

Um ano após Renato nos dar adeus e, consequentemente, a Legião Urbana oficializar o fim de suas atividades, foi lançado o álbum Uma Outra Estação, contendo sobras de estúdio e sendo um bom resumo do que foi a Legião Urbana. Uma vez, ouvi o Bonfá dizendo que via esse disco como um filme e de fato, é um disco bem cinematográfico, onde o início lembra os primórdios do grupo e o final exemplifica bem os últimos atos. Tem duas músicas nesse disco em especial que eu gosto muito, “Marcianos Invadem a Terra” e a belíssima “Antes das Seis” que, se tivesse sido lançada ainda com Renato em vida, com toda certeza teria se tornado um dos grandes sucessos da banda.

Em 1992, a Legião lançou uma coletânea ao vivo chamada Música para Acampamento, reunindo gravações de diversos shows e a inédita “A Canção do Senhor da Guerra”. Após o fim da banda, não foram poucas as coletâneas e registros em geral que chegaram ao público como o Acústico MTV (1999), e os ao vivos Como é que Se Diz: Eu Te Amo (2001) e As Quatro Estações Ao Vivo (2004), além do relançamento do primeiro disco contendo diversas gravações caseiras e sobras de estúdio, em 2016. Um verdadeiro tesouro inesgotável que podem vir ao nosso conhecimento com o passar dos anos e que são um verdadeiro presente para todos os admiradores da obra da Legião Urbana.

Não sei se vocês já fizeram o exercício de ouvir as músicas da Legião Urbana na atual conjuntura política. É meio assustador ver que as músicas parecem ter sido escritas ontem. Essa atemporalidade talvez explique o porquê de mesmo após 20 anos do término do grupo, seu público continua se renovando de forma surpreendente. Creio que não seja exagero afirmar que Renato Russo tenha sido um dos maiores intelectuais não só do rock nacional, como da música brasileira e isso era perceptível não apenas nas letras de suas músicas, mas nas entrevistas e depoimentos que dava.

Denunciou fascistas, machistas e homofóbicos, usando palavras que se encaixam perfeita em muitas situações que temos visto nos últimos dias em nosso país e pelo mundo à fora. Sua presença física faz falta por carecermos de referências artísticas que se posicionem com veemência contra os preconceitos e as injustiças que vem sendo propagadas e ganhando cada vez mais adeptos. Mas a perpetuação das ideias contidas em cada letra e que permanecem reverberando nas mentes de tantos até os dias de hoje, me fez lembrar da frase em latim Urban Legio Ommia Vincit, contida na capa de todos os discos da banda, que em português quer dizer Legião Urbana à Tudo Vence.

De fato, a Legião Urbana conseguiu vencer.

Top 5

1 – O Descobrimento do Brasil (1993)

2 – Legião Urbana (1985)

3 – Dois (1986)

4 – As Quatro Estações (1989)

5 – Uma Outra Estação (1997)

 

Discografia

Legião Urbana (1985)

Dois (1986)

Que País é Este (1987)

As Quatro Estações (1989)

V (1991)

Música para Acampamento (1992)

O Descobrimento do Brasil (1993)

A Tempestade (1996)

Uma Outra Estação (1997)

 

*Lançamentos posteriores

Mais do Mesmo (1998)

Acústico MTV (1999)

Como é que Se Diz: Eu Te Amo (2001)

As Quatro Estações Ao Vivo (2004)

Renato Russo – Uma Celebração (2006)

Legião Urbana e Paralamas Juntos (2009)

Perfil (2011)

Legião Urbana Edição Comemorativa XXX Anos (2016)

COMPARTILHAR:

Comentários no Facebook