Elis Regina: A Pimentinha e sua Esperança Equilibrista

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Elis-cóptero, Hélice Regina, Pimentinha, foram muitos os nomes criados para aquela que é, até os dias de hoje, uma das vozes mais emblemáticas de nossa música, Há exatos 35 anos, Elis Regina nos deixava, por ironia do destino, bem no dia em que a também saudosa cantora Nara Leão fazia aniversário.

A comparação com Nara pode até ser levada à frente, tendo em vista que as duas foram contemporâneas, gravaram quase que os mesmos compositores e compartilharam o amor e o ódio por Ronaldo Bôscoli. Mas as semelhanças paravam por aí. Nara tinha uma vez sussurrada e fugia dos rótulos, chegando a participar do Tropicalismo, gravado um disco dedicado a Jovem Guarda e ter dado voz à denúncia social e ao regime militar, embora tenha carregado o título de “musa da bossa nova” pelo resto de sua vida.

Já Elis, levantava o estandarte da Música Popular Brasileira, chegando a participar da boboca manifestação contra a guitarra elétrica, em 1967. Mas esse é um capítulo que passa batida, mediante a grandiosidade de sua obra e a grande desenvoltura vocal, além de um poder de interpretação capaz de deixar qualquer um sem palavras. Tentaram lhe transformar em uma concorrente da Celly Campelo (aquela do Estúpido Cupido), mas foi interpretando Arrastão (nome pra lá de apropriado) de Vinícios de Morais e Edu Lobo, no Festival da Música Popular Brasileira, que o Brasil conheceu o verdadeiro potencial de Elis Regina.

Grande intérprete, Elis deu voz às canções de Gilberto Gil, ainda um ilustre desconhecido, e mais tarde também revelaria Milton Nascimento ao mundo. Ivan Lins é outro que passa a ser reconhecido após a brilhante interpretação de Madalena, que podemos considerar como o primeiro grande sucesso de fato, da carreira de Elis Regina. Teve presença marcante na TV ao apresentar o programa O Fino da Bossa, ao lado do saudoso Jair Rodrigues, sendo sucesso absoluto, mas é interpretando Como os Nossos Pais que Elis se eterniza. Não existe um brasileira que não se arrepie ao ouvir Elis interpretar a canção do cearense Belchior, com toda a carga de emoção necessária, traduzindo toda a desesperança de uma geração condenada a viver sua juventude com o sinal fechado para si.

Não muito tempo depois, Elis dá voz a canção que seria considerada como o “hino da anistia”. “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc redimiu a carreira de Elis, que anos antes foi obrigada a interpretar o Hino Nacional em um estádio, provocando a fúria dos movimentos de resistência contra a ditadura. Mas sua celebração com a volta de Betinho, o famoso irmão do Henfil e sua solidariedade com o choro das Marias e Clarisses no solo do Brasil, lhe transformaram em ícone da luta pela volta da democracia, luta essa que infelizmente não pôde ver se concretizar.

Em 19 de janeiro de 1982, Elis Regina nos deixou precocemente, aos 36 anos. Embora seja um consenso geral que uma overdose de cocaína tenha sido a causa, o fato do diretor do IML ser Harry Shibata, envolvido no caso de assassinato do jornalista Vladimir Herzog, dão margem para muitas teorias da conspiração. Questionamentos a parte, Elis Regina deixou um grande legado na música popular brasileira, tanto em seus discos, como também em seu exemplo de artista que nunca fugiu do seu papel enquanto pessoa de influência dentro da sociedade, sendo ativa nas lutas de sua geração, não se intimidando perante a situação adversa, mantendo sempre viva a esperança equilibrista, sabendo que o show de todo artista tem que continuar.

ELIS VIVE!!!

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