Entrevista: Baltazar

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Fruto da nova cena musical carioca, Baltazar vem ganhando espaço e construindo a sua história através de canções diretas, fortes e ao mesmo tempo suaves. Não se preocupando com grandes hits, mas sim em fazer música, a banda – formada por Pedro Mib (guitarra e voz), Eric Camargo (guitarra), Jota Costa (baixo) e Pedro Tentilhão (bateria) – fez a sua estreia fonográfica no ano passado com o EP Pressa e no começo de 2017 lançou o compacto Coragem.

Como em time que tá ganhando não se mexe, o quarteto repetiu a dobradinha que deu certo no EP anterior e entregou a tarefa de produzir o novo trabalho a Daniel Carvalho no estúdio Maravilha 8. Mas diferente de Pressa, em Coragem foi deixado de lado o gravador analógico a fita, substituindo pelo digital, o que deu uma cara mais contemporânea ao som da Baltazar.

Encerrando um ciclo de composições, marcadas por canções de 2013 a 2016, a banda conversou com o Som do Som sobre os dois EP’s, inspirações, letras e a cena carioca.

No trabalho anterior vocês experimentaram diversas sonoridades. Já em “Coragem” nota-se um caminho mais definido. Pode-se dizer que vocês se encontraram ou foi questão de momento mesmo?

Pedro Tentilhão: O EP Pressa funcionou como um cartão de visitas nosso. Dentre todas as canções que tínhamos na época, elegemos as cinco que julgamos as mais propícias para compor o trabalho. Por ser um primeiro trabalho, não buscamos muito uma unidade estética, por mais que os instrumentos e equipamentos utilizados proporcionassem certa identidade comum. Já no Coragem, tínhamos uma experiência a mais e aproveitamos ela para chegar no resultado final. Não acho que tenhamos nos encontrado, na verdade. Acho que apenas tivemos uma perspectiva focada no EP como obra conjunta, mesmo que cada canção tenha a sua personalidade e sonoridade.

O primeiro EP foi gravado com equipamentos analógicos. Nesse segundo repetiram esse processo?

Pedro Tentilhão: Na gravação do Pressa foi utilizada um gravador analógico a fita, que deu uma textura vintage incrível para o álbum. O Coragem, que também possui produção do nosso companheiro Daniel Carvalho, foi gravado digitalmente. Inclusive, esse trabalho tem uma cara mais contemporânea, com efeitos de guitarra e baixa e utilização de sintetizadores em algumas canções. Isso somado com a utilização dessa instrumentalização resultou no corpo estético final do EP, sem dúvidas.

Apesar de jovens as letras carregam um tom maduro. De onde vem essa carga?

Jota responde: Não sei se concordo com a maturidade das letras. Acho que na verdade, somos muito sinceros nas letras, sem grandes recursos metafóricos e de imagem pra despistar o ouvinte. Somos bastante diretos: as músicas de amor tem destinatárias, as de luta pessoal, tem fatos geradores objetivos.

Essa sinceridade, pra mim, é a principal marca das nossas letras. E talvez seja um atributo que não estejamos mais acostumados a ver na música pop do nosso tempo.

E de onde veio a inspiração?

Eric: Nossas influências são muito diversas e estamos sempre explorando e descobrindo novas músicas e artistas, por isso é difícil traçar referências diretas para o Coragem. Mas tem aquilo que sempre ouvimos: como Novos Baianos, Beatles, Gilberto e Caetano, Clube da Esquina e Som Imaginário, Stevie Wonder, Deodato, Donato, João Gilberto… Já é umas lista gigantesca por si só.

Há muito de música brasileira que gostamos, através de diversos gêneros e épocas. Por exemplo: é muito natural aquecermos um ensaio brincando com a versão de “Cobra Criada” do disco ao vivo em Montreux da Elis Regina, assim como é comum evocarmos subitamente uma canção do Fagner.  Já há poucas semanas, dividimos o gosto por um disco que desconhecíamos “Carlos, Erasmo”, do Erasmo Carlos.

Quanto à música atual curtimos , mutuamente os quatro, o som de alguns grupos em destaque, como Snarky Puppy, Vufpeck, Tame Impala e aqui no Brasil, por consenso absoluto, O Terno. Infelizmente a quantidade de coisas não ditas é infinitamente maior do que as ditas.

O que os motivou a lançar mais um EP e não um disco cheio?

Mib: Além de considerar que o processo de gravação de um disco cheio deve levar mais tempo do que dispusemos, outro fator foi fundamental para que optássemos por gravar um EP: a quantidade de músicas que tínhamos arranjadas e já tocávamos em nossos shows. As onze músicas presentes nesses dois trabalhos (“Pressa” e “Coragem”) são as que consideramos mais “prontas”, ou seja, tudo que fez parte da nossa trajetória de uma forma mais relevante até aqui. Apesar de já termos muitas composições ainda por vir (minhas e sobretudo do Eric) ainda não selecionamos, tocamos nem arranjamos com o devido cuidado e carinho de costume. Ainda não sabemos quais serão as próximas que, de fato, vamos trabalhar. É um mistério até mesmo pra nós. Esses nossos dois EP’s encerram um primeiro momento de composições, uma leva que possui canções de 2013 a 2016.

Vocês são uma banda independente em uma cidade que tem uma fama de ter um público e mercado restritos para esse nicho. Como vocês veem isso? Realmente é difícil fazer música no Rio? 

Eric: Tendo nós quatro morado apenas no Rio, não temos nenhuma outra experiência pra usar como referência direta de comparação. Mas pelo que nossas impressões e experiências indicam, realmente a cidade poderia oferecer muito mais nesse sentido. Há muito poucos espaços para apresentações, e estes acabam ficando muito setorizados em diferentes regiões da cidade. Ainda falta intercâmbio dentro do próprio município. Talvez por isso, também, sentimos que não há tanto valor para música aqui no Rio como poderia haver. Acredito que falta curiosidade e disposição da população para conhecer, desfrutar e consumir seja material gravado, seja ao vivo. Ainda mais para bandas independentes, que naturalmente possuem mais dificuldade para atrais mais ouvidos, acaba realmente que público e mercado ficam limitados.

Que outros nomes do circuito vocês indicariam para quem quer conhecer a cena carioca?

Eric: Tem muita coisa legal rolando aqui no Rio. Listar alguns nomes é sempre injusto pois com isso deixamos de listar tantos outros, mas tentando apresentar a dita “novíssima cena”, na qual geracionalmente nós talvez melhor nos encaixemos, vale citar: Exército de Bebês, Chico Chico, Marcos Mesmo, Teresina 12 e suas ramificações, Dônica, Nitu, Amarelo Manga, Sinara, Felipe Ariani – entre muitos e muitos outros.

 

*Foto: Jorge Bispo

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