Entrevista: Bruno Cosentino

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O cantor e compositor Bruno Cosentino é pura poesia e amor. Em seu terceiro disco solo, que está sendo lançado hoje, Corpos São Feitos pra Encaixar e Depois Morrer, o amor áspero, real, cheio de tensão e os sentimentos profundos que os cerca voltam a ser os protagonistas das suas canções, assim como em sua estreia Amarelo (2015) e em Babies (2016).

“Todos os meus discos são e serão sempre um disco só. É claro que muda a sonoridade, a tônica de cada um, o gesto, mas são todos discos de amor”, revela Bruno.

A poesia presente nas experiências vividas pelo músico ou por outros compositores (o álbum traz versões de Caetano Veloso e Pablo do Arrocha) permeadas por desejos, impulsos, fragilidades e trocas é tão próxima, que da a sensação de sermos parte do que está sendo contado. A atmosfera intima muito se faz possível pelo canto macio, adocicado e sincero presente em cada nota, em cada verso das onze faixas. Esse espírito é refletido na sonoridade, marcada pela continuidade às suas experimentações de som pop repetindo a parceria com a banda Exército de Bebês.

Para falar sobre a produção do disco, amor, política, parcerias, Bruno Cosentino conversou com o Som do Som. Confira o bate papo !

Normalmente cada disco tem uma história. O que há por detrás deste terceiro?

Por detrás desse terceiro está o de sempre, o amor, o sexo, o filho, o nascimento, a morte, alguns sentimentos profundos; junto a isso, uma percepção das coisas ao redor em conflito comigo no mundo. Ultimamente tenho tido a impressão de que tenho que me blindar para poder existir, mas sempre sou afetado e tenho mesmo que ser afetado, e fico então me movendo nesse caos, nessa massa informe que sou eu entre as coisas, as pessoas e o mundo, os medos, tudo enfim. Tá uma desordem total.

Como disse, os seus álbuns têm um ponto que os une. O “Amarelo” é marcado pelo amor romântico, “Babies” pelo carnal e em “Corpos são feitos pra encaixar e depois morrer” o amor também está presente. De que forma ele aparece nesse novo disco?

Todos os meus discos são e serão sempre um disco só. É claro que muda a sonoridade, a tônica de cada um, o gesto, mas são todos discos de amor. Me coloco assim na vida e tudo que vejo é a partir desse equilíbrio tenso entre meu prazer egoísta e a minha relação com as pessoas que amo. O “Amarelo”, ele é mais íntimo e mais sereno. Mas é sempre um amor realista, no fundo não sou nada romântico, sou bem realista e objetivo. Gosto do amor realizado.

As capas refletem isso também…

Sim, as capas, não sei tanto falar sobre elas. Sei que desde que com a minha banda Isadora, com quem lancei meu primeiro disco, “A eletrônica e musical figuração das coisas”, e que tinha uma capa com imagens abstratas; e que quando resolvi fazer um disco solo, o “Amarelo”, foi um exercício de perder a vergonha, porque eu tinha banda antes porque não queria colocar meu nome na frente; e então, terapeuticamente, resolvi também me colocar de corpo inteiro nu na capa. Me coloco como personagem de mim mesmo, na verdade sou tímido e reservado. É por isso que nas capas me exponho mais, posso fazer o que eu quiser, porque ali é tudo mentira ou verdade inventada, é, como disse meu filho, meu outro eu.

A faixa “Anti-história” tem um toque político, mas romanceado. Foi uma forma leve de falar sobre o tema?

Eu odeio a macropolítica institucional. Gosto de política e me sinto um homem político na acepção grega e da Hannah Arendt; sou atuante e me sinto impelido politicamente no nível da micropolítica, no meio musical, no meu bairro, por exemplo, tenho o impulso gregário de me juntar aos meus pares para mudar as coisas através do conflito de ideias etc. Na verdade não acho que a canção seja leve, ela é lírica, fala daquela tensão de que eu falava antes, de que às vezes eu me sinto em completo descompasso com o mundo, mas preciso sair na rua, eu gosto de sair na rua, preciso dançar para me harmonizar com o cosmos, preciso dançar mais na verdade, vai ser bom pra mim, porque me sinto em descompasso e às vezes com medo, não sei bem o porquê, mas também não me encolho, enfrento meus medos, mas o mundo reacionário tá uma merda. Eu nem tenho muito saco para discutir isso, porque a lógica da política institucional é completamente cínica; não acredito nela e não perco meu tempo com isso; a gente não viu na semana passada esse cretino do nosso presidente não eleito fazendo aquele discurso escroto? Eu gosto da argumentação, por isso sou grego, eu gosto da contraposição de ideias e acredito em consensos, mesmo que precários e parciais, mas a lógica do cinismo não, é estéril. Por isso “o riso que não reconcilia” — isso é o cinismo — essa frase se não me engano é do Adorno. Então foi uma forma de falar sobre o tema, me colocando dentro dele em radical oposição de ser e estar no mundo. O amor, o sexo, como um monumento, um momento de suspensão do tempo, a anti-história, uma fala pelo viés do que me interessa, de onde estou e me vejo, expondo a fratura entre mim e o que estou vendo e não estou gostando.

Em tempos de crise o amor é uma das tábuas de salvação?

Entre o amor e a política parece que têm alguma interseção, mas a política é uma luta contra nossos rivais, com aqueles com os quais discordamos, e é um lance coletivo, nos juntamos com os nossos contra outros grupos ou ideais; o amor, pelo menos o amor do núcleo mínimo, a dois ou a três, a quantos se queira — embora para mim eu só consiga pensar a dois — não há rivalidade, mas sim uma tensão fundamental na qual decidimos colocar em cheque nossa liberdade individual por causa da ou das outras pessoas. Mas a política em algum ponto tem a ver com aquele outro amor, fraternal, pela humanidade, alguma coisa.

Além de “Anti-história”, o álbum traz mais dez canções. Poderia falar um pouco sobre cada faixa?

Caramba, cada faixa é um mundo. Poderia ficar falando horas sobre cada uma. Eu não sei. Todas giram em torno de uma circularidade que vai desde o nascimento passa pelo sexo e a morte retorna ao nascimento. Esse ciclo é um sem fim difícil de entender. Envolve nossa mãe, nossos filhos, nossos amantes, envolve o profano do sexo com o sagrado da família, o que temos de animal ao que temos de social, tudo num todo indistinto que compõe pra mim a desrazão que é a nossa vida, ao mesmo tempo nada e tudo parecem fazer sentido, fico desorientado e gosto.

E quanto a sonoridade?

A sonoridade é obra do Chico Neves, esse super produtor, um homem muito especial, com quem passamos uma semana gravando; para além de uma experiência profissional, de gravação de disco, foi uma experiência afetiva e de aprendizado intensa. Toda a família do Chico, a Marcia, o Theo, a Andrea, tudo, os almoços, jantares, os vinhos, a canjica, os chás, tudo compõe o disco pra mim, estão lá quando ouço as canções. Eu disse a ele que só queria as sujeiras. Eu disse o que queria para o Chico — que queria os sons do ambiente, os ruídos, as respirações, o não HD, tudo que pudesse trazer as impurezas, porque tenho pavor da assepsia da alta definição —, porque a vida é áspera, arranha. Porque o que há de mais vital é sujo, o nascimento, o sexo; como disse Santo Agostinho, nascemos entre fezes e urina. Eu queria isso. O amor também é áspero se vivido plenamente. Se for assim, precisamos de mais amor, não do amor fofo do “mais amor, por favor,”, isso é coxice, recuso; disse isso tudo ao Chico, mas disse também para ele fazer o que quisesse o mais experimental que fosse. E eu amei o som. Acontece com ele uma coisa que aconteceu também na master do “Babies”, que foi ele quem fez, que quando chega o som eu nem sei o que dizer, se gostei ou se não, porque aquilo não estava dentro das possibilidades que poderia esperar, aí fico sem saber, mas vou ouvindo e preciso de um tempo para assimilar; se torna algo surpreendente, porque ele contribui para o seu trabalho com algo que você sequer supunha que poderia ser e que vem da sensibilidade dele e da maneira como ele ouviu o seu som. Esse disco foi também um trabalho de desapego meu em relação a isso. Não tive controle nenhum da gravação, edição, mix e master e normalmente tenho; dessa vez, com exceção dos arranjos, que fizemos eu e o Exército de Bebês (e os de orquestra o maestro Mário Ferraro), ficou tudo com o Chico. Eu amei a sonoridade, me sinto um sortudo por ter um disco produzido pelo Chico, pelo som e por tudo mais que disse.

Os vídeos dos bastidores trazem uma atmosfera intimista, que segue a linha das suas canções…

Então, foi isso que eu falava. Ficamos uma semana na casa do Chico, perto de Belo Horizonte. O estúdio é na casa dele no meio do mato. A família dele é muito acolhedora. Ele também. Trabalhamos muito. Fomos eu, os músicos do Exército, Pedro Fonte, Guilherme Lirio, Iuri Brito e Thomás Jagodá, o Mário Ferraro, que ia reger o quarteto de cordas, a Ana Rovati para fazer as fotografias e filmar e o Felippe César Marins, da Lala Filmes, que registrou em vídeo o processo de gravação. Gravamos as bases em três dias, as cordas e sopros em dois. E na tarde de sexta eu gravei todas as vozes, ficando rouco no final. Ficávamos de manhã até meia noite no estúdio. Ouvíamos umas gravações que o Chico colocava antes de ir embora. Voltávamos para a pousada do Renato, ali pertinho, no breu da estrada de terra. Foi super astral. Melhor impossível. Graças a essas pessoas das quais me cerquei, tudo gente boa e fodões naquilo que fazem. Foi uma delícia!

Como mencionou, assim como em “Babies” você repete a parceria com a banda Exercito de Bebês…

A banda é a mesma do meu disco anterior. (Aliás, o Pedro Carneiro, produtor do “Babies”, foi ele quem fez essa ponte com o Chico. Ele ia com a gente pra BH, mas de última hora ficou com dor de ouvido e não pôde ir). O Exército de bebês faz o tipo de som que eu gosto, groovado no rápido e no lento. O Pedro Fonte é incrível, amo o som da bateria que ele tira e a estética dele, que é essa, sequinha, pouco prato (tenho pavor de prato estourando). E todos são muito talentosos, têm muito bom gosto e conhecem muito da linguagem da canção. Então nunca tenho que ficar resguardando o lugar da palavra. Eles pintam toda a cena pra ela. E mais, tocam juntos, o entrosamento é total, pessoal e de som. Fica muito fácil. Alguns arranjos saem de primeira.

Além desta, o disco traz outras participações?

No início percebi que algumas canções eu cantava no eu lírico feminino; pensei em chamar cantoras (porque adoro fazer dueto) para dividir comigo as vozes e criarmos um timbre híbrido e ficar aquela dúvida se era mulher ou homem e tal, pra realçar a confusão. Mas aí, contei minha ideia para a Pérola Mathias, crítica musical que admiro muito, e ela foi tão enfática, me disse “não, grava tudo só você”, que eu fui totalmente convencido sem nem precisar perguntar por quê. No fim, acho que o que ela quis dizer é que minha voz já está num registro tão “entre”, que chamar mulheres para criar esse timbre andrógino era desnecessário se eu já podia fazer isso sozinho. E assim foi.Não tem nenhuma participação. Sou só eu mesmo. Lembrei agora que tem não participação como solista, mas de solistas maravilhosos, que são um escândalo, a Juliana Linhares, do Pietá, o Caio Prado e a Michelle Leal, fazendo o backing luxuoso do disco comigo. Essa foi minha cota de esbanjamento.

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