Entrevista: Cachorro Grande

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Depois de  15 anos de estrada e seis álbuns de estúdio, a Cachorro Grande resolveu se reinventar e respirar novos ares. Para isso foi parar na África, onde encontrou o produtor “guru” Edu K, que mostrou uma nova possibilidade sonora aos cinco gaúchos. Misturando elementos experimentais, eletrônicos, psicodélicos sessentista e o rock surgiu o mais recente disco da banda Costa do Marfim.

O sucessor de Baixo Augusta (2010), senão o melhor, é um dos melhores trabalhos lançados por Beto Bruno (vocal), Marcelo Gross (guitarra), Rodolfo Krieger (baixo), Pedro Pelotas (teclados) e Gabriel Azambuja (bateria). Sem medo de arriscar, os guris ousaram não só em fazer uma viagem sonora, mas também na extensão das 11 faixas, algumas com 8, 10 e até 14 minutos. A principio pode dar uma entortada na cabeça, mas na segunda, terceira audição você acaba embarcando e entendendo a piração.

O sétimo álbum, essas experimentações e os shows foram alguns dos assunto que conversamos com o vocalista Beto Bruno. Um bate papo descontraído e que pode te ajudar se estiver perdido.

Poderia falar sobre o conceito do Costa do Marfim?

Nos outros discos chegávamos ao estúdio já com todos os arranjos concebidos pela banda, já com o conceito fechado. Nesse disco aconteceu o contrário a gente simplesmente fez umas demos caseiras e não fomos ensaiar, a gente entrou no estúdio e criamos os arranjos durante a gravação para ver o que acontecia e aconteceu um resultado interessante. Por isso que tem essas músicas maiores, mais “viajandonas”, porque foi tudo criado dentro do estúdio junto com o produtor Edu K, que foi o cara que nos ajudou a criar esse conceito que a gente não tinha usado antes. Nunca foi tão potencial a presença de um produtor como foi agora o Edu.

Então o EduK teve bastante influência nessa nova cara da Cachorro Grande?

Muita, desde o inicio. Na verdade eu queria gravar com ele já há muito tempo, mas nunca conseguimos, porque ou ele estava gravando outra coisa ou nós estávamos em turnê. Nós já conversávamos sobre isso faz tempo, de como iria ser se um dia gravássemos juntos. E ele sempre falou que queria mudar o nosso conceito de gravar, deixar acontecer as coisas dentro do estúdio. O Produtor normalmente vai lá e capta o som que a banda quer. Ele não, ele meteu a mão na massa mesmo, ajudou a arranjar. Foi o maior parceiro que a gente já teve.

E o nome do disco de onde veio?

De um papo muito bobo. Nas primeiras semanas de gravação alguém  falou nesse nome. Quando você está gravando o disco uma das diversões é você ficar inventando nomes para ele, um mais ridículo que o outro. Foi assim que saiu todos os títulos dos discos até hoje, de besteira. Só que falavam “Costa do Marfim”, acho que foi o Rodolfo que postou de brincadeira que a gente tava gravando na Costa de Marfim. Começou a crescer isso daí, de repente tava todo mundo achando que a gente estava na Costa do Marfim. A minha mãe me ligando, meu filho perguntando se eu estava na Costa do Marfim. A gente achou isso engraçado e deixamos rolar. Quando a gente viu, estávamos no meio desse bolo todo. As pessoas nos encontrando na rua “Ué vocês não estavam na Costa do Marfim?” e a gente “fica quietinho, que estamos sim”. Acabou que foi inevitável não por esse nome. Foi só por uma brincadeira.

Já que a sonoridade do Costa do Marfim é diferente dos outros álbuns. Como foi a recepção das pessoas?

Eu não sou o cara da internet, não acompanho. O que posso dizer que as pessoas mais próximas que ouviram, acham que é o nosso melhor trabalho. Acham que é um disco diferente, que a gente conseguiu recriar o som da banda de uma maneira boa. Só estou preocupado mesmo é nos shows. Eu quero ver a recepção nas apresentações, porque as músicas são mais difíceis de serem tocadas ao vivo. O disco não é nada Pop. Têm musicas de 14, 10 minutos e nós estamos preocupados com a recepção do público nos shows. Isso acontece em todos os discos, talvez nesse um pouco mais por ter dado um entortada na cabeça das pessoas.

Como vai ser o repertório dos shows?

Tá difícil, estamos vendo isso nos ensaios, porque tem que encaixar a trilha junto com bateria eletrônica e bateria normal, além de alguns overdubs de teclado também, porque o pianista nosso só tem dois braços, então vai ser bastante difícil. Nessa semana nós estamos no meio dos ensaios para levar esse show para o palco. Uma coisa que nós iremos fazer é separar o disco do antigo repertório. Nós vamos tocar o disco inteiro no começo do show, um pequeno intervalo e a gente volta a tocar as músicas mais antigas do jeito que era. Acho que daí começa a festinha. O primeiro show vai ser em Porto Alegre no dia 9 de outubro, depois tem em São Paulo nos dias 17 e 18, no Sesc Pompéia.

A escolha de “Como era Bom” como música de trabalho foi por ser uma das menores?

Teve mais a ver com o diretor do clipe. O cara que fez o clipe foi o Charly Coombes, do Supergrass. Ele está morando no Brasil e a gente estava decidindo qual seria o primeiro clipe, achamos que essa música seria mais interessante. Mas é bem provável que tenha mais uns três clipes, no mínimo, desse disco com esse mesmo diretor.

A faixa “Topor 2 & 5″ é meio doida e representa bem a experimentação adotada no disco…

Essa tem muito a mão do Edu K nos arranjos. São duas histórias que eu passei, não muito boas. Eu tinha escrito isso sem a intenção de transformar em música. De besteira mesmo, as vezes a gente escreve algumas coisas da vida para não esquecer depois. Deixei guardado na minha gaveta, aí um dia eu criei um riff, que é o da faixa, e eu precisava de uma letra para transformar esse riff em uma música. Eu fui mexer nessa gaveta e encontrei essas coisas que eu tinha escrito há algum tempo, só que eu vi que não daria para fazer uma melodia. Então peguei o microfone e fiquei falando em cima do riff. Não tinha todo esse arranjo absurdo. Era uma versão caseira minha. Depois eu mostrei para a banda e a galera achou muito louca e disseram que gostariam de por no disco. Eu fiquei super feliz, pois as coisas inusitadas sempre rolam bem. Estávamos pensando em chamar o Paulo Cesar Pereio, mas acabou que eu mesmo gravei.

Essa entra no show?

Talvez só essa não. É meio impossível reproduzir. Essa é uma música para disco mesmo.

Como estamos falando de disco. Tem algum que “vale a pena ouvir de novo”?

Se tem um disco que não enjoo, pois cada vez que eu escuto ele, eu vejo uma coisa diferente, mesmo tendo escutado ele desde pequeno, é o Abbey Road, dos Beatles, lançado em 1969 e o último gravado por eles. Por mais que você já tenha escutado a vida inteira, quando põe ele, você vai encontrar, ouvir alguma coisinha nova que não tinha reparado. Esse é um disco de cabeceira.

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