Entrevista: Cesar Lacerda

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O amor é o fio condutor do segundo álbum do cantor e compositor César Lacerda, Paralelos & Infinitos. Nesse novo trabalho, que acabou de ser lançado pelo selo Joia Moderna e está disponível para download gratuito, o músico expõe a sua intimidade em oito belas canções. Com a alma e a sensibilidade de alguém que faz música não apenas por ofício, mas por prazer.

Prazer traduzido e movido por amor e paixão, presente em cada nota, em cada verso declamado por este mineiro, que carrega dentro de si todos os lugares por onde passa. Nascido em Diamantina (MG) e radicado por oito anos no Rio de Janeiro, o músico agora busca a solidez e a estabilidade da sua carreira em São Paulo, para onde se mudou recentemente.

Esse novo momento reflete em sua obra que sucede o elogiado Porquê da Voz. Esteticamente, Lacerda promoveu em Paralelos & Infinitos uma fusão de influências que passam por Milton Nascimento, Caetano Veloso, Grizzly Bear e, mais fortemente, DM Stith. Nele o cantor gravou a maioria dos instrumentos e contou com a parceria de músicos amigos como Cícero, Lucas Vasconcellos, Mahmundi, Uirá Bueno e o Conrado Kempers da banda carioca Dos Cafundós, do Rafael Mandacaru e do João Machala, da banda mineira Iconill, além da sua namorada, Victoria Vasconcelos, que divide os vocais de “Guarajuba”.

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Capa e contracapa por Igor Anjos e Clayton Leite

Como foi o processo de produção de Paralelos & Infinitos? Quais as diferenças deste segundo trabalho para o Porquê da Voz?

O processo de gravação e produção do “Paralelos & Infinitos” começou incerto e timidamente. Fui convidado pelo produtor do disco, meu grande amigo Pedro Carneiro, para testar uns equipamentos novos que ele tinha comprado. Quer dizer, eram uns microfones antigos, um órgão eletrônico e um piano elétrico wurlitzer, enfim, ótimos equipamentos do século passado. Nesses nossos primeiros encontros a gente não tinha entendido o processo como uma gravação de algo que futuramente pudesse virar um disco. Estávamos ali em clima de confraternização – algo, inclusive, que permaneceu durante toda a gravação. Com o tempo, o processo foi ganhando uma cara e eu percebi, e me convenci de que tudo caminhava para aquilo virar um disco.

Bom… Eu levei quase um ano gravando este trabalho novo. Foram muitas horas de solidão compartilhada no estúdio com o Pedro, testando sonoridades, arranjos, instrumentos. Buscando fazer um disco que se aproximasse de um formato estético que eu já desejava e admirava.

Uma das diferenças centrais deste disco novo para o “Porquê da Voz” diz respeito à maneira como o “Paralelos…” foi pensado. Num determinado momento, eu decidi que o disco teria apenas canções feitas a partir de vivências do meu relacionamento amoroso, e decidi que gostaria de gravar a maioria dos instrumentos. Essa decisão conduziu esteticamente todo o processo. Esse novo trabalho é recheado de silêncios, ambiências, respirações. Eu tentei traduzir em som a sensação de se estar apaixonado. E o disco é basicamente sobre isso; sobre essa sensação de estar com os pés suspensos no ar.

O disco anterior foi lançado de forma independente, já este sairá por uma gravadora (Joia Moderna). Muda alguma coisa ter a chancela de um selo?

O Zé Pedro é um sujeito que trouxe uma luz muito especial para essa configuração de selo/ gravadora no Brasil. A forma como ele faz essa negociação para chancelar o disco é bastante parecida com alguns gerenciamentos que acontecem no exterior, e que eu me identifico muito. E poxa! O Brasil, que é este celeiro de artistas maravilhosos, é muito carente dessas contribuições, dessas novas formas de entender a gestão da música no mercado. Essa operacionalidade de colocar um disco na rua, desde que as gravadoras perderam a sua força para um mercado mais transversal, ficou muito complexa. Afinal, os diferentes mercados convivem e o processo encareceu. O Zé defende algo que eu compactuo: não faz sentido que um disco custe tão caro. É necessário fazer com que o negócio por trás da arte seja possível, rentável, inteligente.

E sim! A Joia funcionou para mim como um elegante lustre na obra. Foi estendido um tapete vermelho e agora eu posso me deliciar com isso!

Como foi a escolha do repertório? Poderia falar um pouco sobre as faixas?

Eu me coloquei um desafio ao fazer este disco: construir um álbum exclusivamente com canções de amor. Enfim, chamo isso de desafio por entender que esta é uma temática reincidente. Mas… Se por um lado eu serei para sempre um defensor dessa tag, a “canção de amor”, por outro lado, eu queria contribuir neste processo. Achar uma fenda nesse paredão de grandes e maravilhosas canções e me instalar ali, viver ali. E para isso, fiz um disco com oito canções que falam da minha intimidade.

A explicação bastante simples, é que eu percebi que a única forma de vencer o desafio imposto por mim era justamente me usar para falar de algo que é do mundo. Essa exposição me garantiria um contato muito verdadeiro com o ouvinte. Eu tenho pra mim, que essas canções podem ser tomadas pelas pessoas como “suas”. Sabe aquela história de “essa canção foi feita pra mim”? Pois é! Eu acho que é o caso desse disco. Eu acho que esse conjunto de canções pode servir de conforto para um monte de corações por aí.

O álbum conta com algumas participações como do Cícero e Lucas Vasconcellos, Mahmundi. Como foram essas colaborações?

Eu tenho grande carinho por todas as participações que convidei para este disco. São participações pontuais mas que contribuíram imensamente para os arranjos das canções. Além do Cícero, do Lucas e da Mahmundi, eu tive o prazer de ter comigo o Uirá Bueno e o Conrado Kempers da banda carioca Dos Cafundós, do Rafael Mandacaru e do João Machala da banda mineira Iconilli, e do paulista Flavio Tris. Tive também a felicidade de ter a minha namorada, a Victoria Vasconcelos, cantando comigo. E a honra de ter esse processo todo conduzido e produzido pelo Pedro Carneiro. Por fim, o disco foi mixado pelo Elisio Freitas, que é o produtor do “Porquê da Voz”. E a masterização foi novamente feita pelo Bruno Giorgi. Ou seja, assim como no meu primeiro disco, aqui a história da amizade se repete. Gosto de estar entre as pessoas que gosto.

O primeiro disco teve uma repercussão super positiva. Rola uma expectativa de como irão receber este novo trabalho?

Eu estou super coruja com essa filha nova (já entendi que este disco novo é menina!). Tenho gostado de mostrar para as pessoas. Tenho gostado de ouvir a reação delas. E tem sido muito positivo o retorno. O “Porquê da Voz” foi maravilhoso para mim. Abriu portas, vislumbrou novos caminhos e trouxe um prestígio interessante para a minha obra, a minha carreira. Eu acredito muito nesse novo trabalho e acho realmente que as pessoas também gostarão. Falamos em breve sobre isso tudo.

Você nasceu em Minas, viveu oito anos no Rio e agora está morando em São Paulo. Essa transitoriedade influencia de alguma forma nas suas canções?

Engraçado pensar nesse meu trânsito, sobretudo agora que estou numa nova cidade. É certo que as cidades influenciam na minha obra, mas entendo o processo de uma outra forma. Eu penso que a obra é resultado da forma como eu estou no mundo, como ele se ocupa de mim. Que tipo de abertura eu tenho para compreender e aceitar a dinâmica do mundo, os códigos, o movimento de tudo. Parece que nesse meu trânsito eu estou correndo atrás disso; de me entender com os ponteiros do mundo.

A vida me parece maravilhosa, apesar de também muito cansativa – viver numa grande cidade é sempre uma mistura de frustração e deslumbramento. E estar em São Paulo é viver essa dicotomia a todo instante e com muita força. O Rio, por sua vez, foi durante muito o abrandamento disso: a cidade vive o tensionamento de todos os aspectos da vida com suavidade e preguiça. E Belo Horizonte, para mim, mistura cordialidade e casualidade com a inaptidão para o crescimento desordenado da cidade.

Essas impressões vazam para dentro da obra, é certo. Para forma como me relaciono com tudo. Mas, em geral, tudo são apenas expectativas sobre uma forma de enxergar a vida. Um palpite. E a arte não é apenas um reflexo da vida. Ela é a transfiguração desse reflexo. Ela é o desejo desse reflexo.

Eu me coloquei um desafio ao fazer este disco: construir um álbum exclusivamente com canções de amor.

Já da para notar a diferença do Cesar mineiro, “carioca” e “paulista”?

Creio que seja possível, sim! Creio que seja possível perceber o quanto viver nessas grandes cidades, afinal, eu sou do interior de Minas Gerais, de Diamantina, me transformou naquilo que busquei desde o princípio. Ou seja, acho que o percurso está me aproximando daquilo que busco desde que nasci. Talvez, a caminhada em diferentes territórios seja o meu exercício, o meu serviço. Nessa desventura que é viver, caminhar me parece uma forma maravilhosa de se praticar a vida.

A mudança para São Paulo foi pelo fato de ter uma visibilidade maior?

Sou e estou profundamente seduzido pela cidade. Sempre fui, na verdade. Mas estar aqui, agora, me faz enxergar tudo ardendo saborosamente. Tendo vindo de uma cidade cujo histórico de relacionamento com a arte passa pelo filtro da “vitrine”, a chegada aqui me faz estar ávido por outras experiências, outras formas de se relacionar. A impressão é que aqui a qualidade, nas suas diversas esferas de apreciação, direciona a experimentação das coisas. Gosto disso. É a imposição de um desafio: transformar a digressão subjetiva num atalho para a comunicação com mais gente.

O Rio vive a dor de ser uma cidade duramente assolada pelas mazelas de uma sociedade em declínio. E a ginástica de fazer parecer que tudo está maravilhoso o tempo inteiro ocupa muita energia da cidade. No entanto, é importante ressaltar que o esforço de grupos interessados e atuantes tem feito a cidade crescer culturalmente. E a cena de lá possui figuras que gozam de um reconhecimento nacional.

Em São Paulo, tem-se a noção de que o mercado está mais organizado – e sim, isso também expõe a face mais terrível e desigual da cidade. E essa organização nutre a possibilidade de uma carreira mais estável, e mais sólida a longo prazo.

Quais os próximos passos após o lançamento? Já tem shows marcados? Clipes?

Desta vez, mudei a estratégia. No primeiro disco, logo após o lançamento já fiz uma mini-tour pelo sudeste, seguida de shows pelo Brasil, Uruguai e Europa. Mas dessa vez estou pensando diferente. Quero mesmo que as pessoas ouçam esse disco. Antes de ir para o palco, tenho esse desejo da escuta. Não estou com pressa. E sobre clipes, já, já vem novidade! Mas por ora, fiquem com a audição deste

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