Entrevista: Chuva a Granel

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Minas Gerais, estado considerado um polo produtor de grandes artistas desde sempre, não perde a mão nem no pão de queijo, nem no plantio de novos nomes que prometem continuar honrando a fama musical da terrinha.

De reconhecidos músicos e bandas da terra das montanhas podemos citar alguns nomes como Milton Nascimento, Lô Borges, Skank, Pato Fu, Flávio Venturini, Clara Nunes, Vander Lee, Flávio Venturini, e por aí vai… Assim, vale muito a pena ficar atento ao que está surgindo por esses lados, pois já é comprovada a qualidade do material musical que o estado exporta para o mundo. E, atualmente, uma das grandes revelações local é a banda Chuva a Granel.

Com cinco anos de estrada a banda é reconhecida pela mistura inusitada e inovadora de blues e música brasileira, com pitadas de jazz e rock. O grupo lançou em 2014, seu primeiro EP intitulado No Ar Dentro da Caixa, desenvolvido via financiamento colaborativo. Também em 2014, lançaram o videoclipe da música ‘Achados & Perdidos’.

Atualmente, a banda está realizando shows pela capital mineira e, também em cidades do interior, divulgando o EP ‘No Ar, Dentro da Caixa’. Em maio foi classificada por votação popular para participação no Festival Dia da Música, evento que acontecerá no Rio de Janeiro, no dia 21 de junho.

Criada em um momento de plena expansão da internet, a banda tem feito bom uso das plataformas digitais para a divulgação de seu trabalho para o público em geral e para a imprensa.

A banda é formada por Karine Amorina (voz), Jardel Rodrim (violão e guitarra), Filipe Gaeta (gaita), Marcelo Ricardo (bateria), Igor Ribeiro (baixo) e Hugo Bizzotto (teclado).

Batemos um papo com a vocalista, Karine Amorina, que nos contou um pouco mais sobre o trabalho desenvolvido pelo grupo.

Como e quando surgiu a banda?

A banda surgiu por acaso, em 2008. Faríamos uma mostra de talentos dentro de um grupo, em que eu e o Jardel Rodrim (guitarrista) fazíamos parte, o Rosa dos Ventos, e nele surgiu a ideia de fazer uma apresentação musical. A apresentação nunca aconteceu, mas o encontro musical ficou… De 2008 a 2010 o Chuva a Granel foi um espaço de experimentação musical. Brincávamos de nos encontrar para criar, para compor, para arranjar, mas não havia muitas pretensões enquanto banda. Só começamos a pensar que isso poderia dar certo em 2010, e foi a partir de 2011 que a banda se estruturou, quando chegamos à nossa formação ideal (vocais, guitarra, gaita, teclado, baixo e batera) e o repertório ficou totalmente autoral. A partir daí, começamos a brincar sério, estruturamos a produção e começamos a colocar a cara no mundo.

No início, a Chuva a Granel era mais intimista em suas composições. Hoje os arranjos estão mais compostos e complexos. O que mudou?

A alteração da formação da banda foi o que influenciou no resultado final dos arranjos. Todo o repertório do primeiro disco foi composto nesse período de “experimentação”, de 2008 a 2010. Muitas das ideias de arranjos foram escritas naquela época pelo Jardel, mas ainda não tínhamos instrumentos para realizá-las. Com a chegada dos novos integrantes, foi que pudemos explorar novas possibilidades. A gaita foi fundamental nesse processo, já havíamos chamado o Filipe Gaeta (gaita) para algumas participações especiais em nosso show antes, porém a entrada efetiva dele em 2011 foi fundamental para estruturação da nossa linguagem. O que era feito em duas vozes passou a ser executado por voz e gaita. A entrada do Hugo Bizzotto (teclado) deu mais liberdade para o Jardel e mais corpo para as músicas. As ideias estavam lá, faltava só encontrar as pessoas certas, e elas foram chegando. E agora, com o Igor Ribeiro no baixo e o Marcelo Ricardo na bateria, acho que encontramos a formação perfeita.

“A Chuva a Granel faz uma mistura de blues, rock e musica brasileira…”

Em seu último show, no metrô de BH, as duas novas músicas apresentadas foram ainda mais ‘abertas e alegres’. A resposta do público foi bem perceptível quanto a isso. Podemos esperar que o segundo disco seja mais ‘pop’?

Não penso que são mais alegres. Podemos até dizer que são mais pulsantes, mas se prestarem atenção nas letras verão que são bem irônicas, talvez até mais tensas que as do primeiro disco. O que mudou foi a pegada, que está mais forte. A única música que fiz pensando em ser mais dançante foi a ‘Luzes Rápidas’, justamente para criar um paradoxo com a letra, que é bem ‘deprê. A Chuva a Granel faz uma mistura de blues, rock e musica brasileira… Podemos dizer que o primeiro disco foi mais blues e o segundo caminha par ser mais rock.

E falando em segundo disco, como anda a produção e qual a previsão de lançamento?

A maior parte das músicas já está encaminhada e começaremos em julho o processo de captação com o público, como fizemos no primeiro disco. A ideia é iniciar a gravação em setembro e lançar em 2016. Mas em processos de financiamento coletivo os cronogramas podem mudar bastante, porque dependem da velocidade da captação.

Qual o processo de composição? Todos os membros da banda participam do nascimento até o fim de uma criação?

As composições são minhas, do Jardel Rodrim e de dois compositores parceiros, o Haroldo Leão e o Fabricio Belmiro. O primeiro disco teve mais a mão dos rapazes, o segundo disco terá mais canções minhas, principalmente com o Haroldo Leão (meu parceiro desde o começo do Chuva a Granel), e estreando uma parceria com o Jardel.

Já os arranjos são executados coletivamente. Os meninos escutam a canção e começam a propor ideias. Daí, vamos construindo e lapidando nos ensaios. Normalmente, antes de gravar o Jardel costuma dar uma finalizada. Limpando umas ideias que estão chocando, escrevendo algumas linhas complementares de instrumento, mas o grosso é feito no ensaio, por todos.

Com diversas influências pessoais musicais trazidas pelos integrantes, como se dá o processo de ‘ajuntamento’ de todos os estilos na hora da composição?

O processo de composição é bem individual e se dá fora da banda. Na hora dos arranjos é que as influências dos integrantes aparecem. Mas a junção é bem natural, e vai se lapidando em ensaios.

“Cenário independente é um monte de gente se apoiando e aprendendo junto”.

Vocês participam muito de festivais. Qual a diferença entre se apresentar em um festival e em um show próprio?

No show próprio temos o contato com o público fiel da banda, galera que canta junto. A troca é muito gostosa. Já o festival tem uma função diferente, ele é uma plataforma de divulgação. Coloca a banda em contato com um público bem diferente, normalmente um público bem grande, o que é maravilhoso. Além disso, em festivais entramos em contato com outras bandas e podemos trocar informações sobre tudo o que fazemos para balizarmos o que dá certo, o que pode ser melhor… Assim nascem muitas redes de parceria. Cenário independente é um monte de gente se apoiando e aprendendo junto.

Quais as maiores dificuldades ainda enfrentadas pelas bandas independentes?

A principal dificuldade é a falta de investimento. “Banda independente” é sinônimo de banda sem dinheiro e os investimentos em música são caros. Gravar, divulgar, turnê… Cada uma dessas fases precisa de investimento financeiro, que não temos.  No Chuva a Granel a solução que arrumamos para viabilizar as produções da banda  foi o financiamento colaborativo, através do público, e a “caixinha” (tudo o que ganhamos com shows é reinvestido na banda).

Outra dificuldade, ocasionada pela falta de ‘dindin’, é o acumulo de funções não musicais. Se não há dinheiro para pagar profissionais de produção, divulgação, design, assessoria, fotografia, etc., essas funções recaem sobre banda.  No Chuva, tais funções já deram muita briga, mas agora funcionam bem.  As ações de produção são centralizadas em mim (vendo show, escrevo projeto, faço produção executiva dos shows, etc.) e o Jardel e o Gaeta dão um apoio. Divido a divulgação online com o Jardel. Também faço a parte gráfica. Para a assessoria de comunicação contamos com a parceria da Luzza Comunicação, que já está com a gente há dois anos.  E, na hora da venda de ingressos, captação de recursos, carregar instrumento e até dar uma de motorista nas viagens, todo mundo trabalha.

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