Entrevista: IFÁ

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A Bahia é uma região com um alto grau de ancestralidade africana e isto se reflete em diversos aspectos da cultura do estado, sobretudo na música. Essa forte influência foi predominante na construção das suas tradições rítmicas e folclóricas.

Buscando reforçar essas singularidades e aproximações com o continente nasceu o super grupo IFÁ. Mesclando o afrobeat que ganhou o mundo com os timbres e o groove da Salvador negra, a banda formada por Fabricio Mota (Baixo), Jorge Dubman (Bateria), Vinicius Freitas (Sax Barítono), Normando Mendes (Trompete), Léo Couto (Sax Tenor), Alexandre Espinheira (Percussão), Átila Santtana (Guitarra), Prince Áddamo (Guitarra) e Juliano Oliveira (Teclados) vem construindo a sua história no universo da música instrumental contemporânea.

Com apenas três anos de  carreira e um EP lançado, a banda conquistou o Troféu de Revelação na Categoria Melhor Show no Prêmio Caymmi de Música, por “Atlântico Negro”. Projeto sobre o “pan-africanismo  implícito ou explícito na obra de Artistas como Bob Marley, Peter Tosh, Gilberto Gil, Fela Kuti, tony Allen e Angelique Kidjo”.

O IFÁ traz agora o seu primeiro disco Ijexá Funk Afrobeatcomposto por nove músicas inéditas – elaboradas a partir das memórias de uma luta social – que celebram e reverenciam a musicalidade afro-brasileira. O novo trabalho, contemplado pelo Edital Natura Musical 2015, conta com as participações do maestro Letieres Leite (Orquestra Rumpillez), na faixa composta pelo músico, “Quintessência, Gabi Guedes, Roberto Barreto (Baiana System),  Junix e do trompetista Guiga Scott.

O álbum de estreia, as raízes africanas, sonoridade, as questões sociais, preconceito musical e uma faixa gravada com o artista africano, Blitz, foram alguns dos temas da conversa que tivemos com dois fundadores da banda Fabricio Mota e Jorge Dubman. Confira!

Como vê a evolução da banda do EP para este primeiro disco cheio?

Fabrício Mota: Sentimos que há um processo de amadurecimento do grupo, de uma maneira geral. No EP estávamos diante de outro desafio: registrar o encontro da banda com Okwei Odili. Foi um encontro despretensioso movido pela emoção de conhece-la e pelo encantamento recíproco pelos nossos trabalhos. No disco a busca é diferente: registrar o grupo instrumental do modo como ele se apresenta nos shows; trazer as influências sonoras que fazem parte de nossa caminhada deixando as melodias e o groove como elementos centrais da canção. Enfim, interpretando questões e situações que vivemos do nosso mundo a partir das sonoridades.

E como foi processo de gravação de Ijexá Funk Afrobeat?

FM: O “Ijexá Funk Afrobeat” é um disco de celebração, de reverência e referência à musicalidade afro brasileira, do modo como a interpretamos neste porto Atlântico que é a Bahia. Vivemos numa cidade do Brasil onde há muitas tradições sonoras acontecendo ao mesmo tempo seja nos blocos afro, nos Afoxés, nos grupos de Samba de Roda, nas vitrolas dos Sound System de Reggae, Dancehall, Dubstep Afrobeat,  seja a partir dos terreiros de Candomblé. Todas essas trilhas sonoras fazem parte de nossas vidas. Além disso, certamente o disco reflete um um caminho de amadurecimento como banda, alicerçada em uma trajetória de pesquisa musical e Histórica sobre as conexões que a música negra proporcionou ao mundo contemporâneo. Cada música foi construída a partir das memórias de uma luta social. Pra nós esse é um dos grande  prazeres de fazer música instrumental: estimular a imaginação histórica a partir das sonoridades, das melodias, da polirritmia. Pode-se dizer que é também o resultado do encontro, seja entre nós como grupo – descobrindo afinidades sonoras, estéticas, pessoais – seja de cada um com as raízes e influências afro brasileiras”.

Você disse que cada música foi construída a partir das memórias de uma luta social..

FM: O IFÁ é fruto dessas lutas. Isso é muito presente, seja pelas diferentes formações pessoais. Lembro que compusemos Suffer no dia em que o Brasil parou para as manifestações contra a abusiva Copa do mundo (21 junho de 2013).  Outras músicas do repertório fazem referencia a nossa História de lutas: à luta indígena pelo respeito à sua diversidade; à luta dos blocos de índios saudando os caboclos e reverenciando tradições afro-brasileiras e ameríndias nas agremiações de Carnaval da Bahia (e eu outros cantos do Brasil). A presença do Reggae na nossa formação é outro exemplo dessa sintonia.  Enfim, a base do nosso trabalho são essas referencias de identificação com a luta social. Buscamos o tempo todo essa conexão com as identidades africanas, afro-brasileiras e ameríndias. A nossa música esta completamente sintonizada com esse propósito. Acreditamos que a música tem essa importância para o mundo: conectar as pessoas e proporcionar dias melhores!

A proximidade com a Africa se reflete bem na sonoridade da banda. Como se da essa mistura no som? O que escutam?

FM: Há muitas Áfricas na cidade de Salvador e nós somos parte desse caleidoscópio. A música que fazemos é como um “ponto de vista” dos movimentos da música negra de acordo com nossas vivencias do lado de cá do atlântico. Além disso, escutamos muita música negra produzida no Brasil ao longo de todo século XX, muita música dos países africanos pós de movimentos de independência, a relação com os gêneros mundializados (como Funk, Reggae, Jazz), muito do que está sendo produzido neste momento na Etiópia, Gana, Senegal, Costa do Marfim, Benin, Egito, Moçambique e tantos outros cantos. Também pesquisamos muito o efeito sonoro que a diáspora africana provou nas “capitais”europeias e um novo fenômeno de (re) conhecimento das sonoridade de África nas pistas e bailes do mundo de hoje. Enfim, estamos mantendo uma tradição: “organizar o passado é uma evolução musical” (lembrando o mestre Science).

Essa ligação é bem forte, não por acaso vocês ganharam o prêmio de revelação pelo show, “Atlântico Negro”, que retratava essa relação…

FM: Quando o IFÁ surgiu, vivíamos num contexto em que era muito comum conversar bastante sobre as conexões africanas registradas na música. Descobrir singularidades e aproximações. Nos reuníamos pra tocar e acabávamos conversando sobre pan-africanismo implícito ou explícito na obra de Artistas como Bob Marley, Peter Tosh, Gilberto Gil, Fela Kuti, tony Allen, Angelique Kidjo etc. Montamos um show que representasse um passeio por essas referencias e isso acabou marcando o nosso caminho até os dias de hoje. Em um determinado momento fazíamos apresentações em uma casa de Shows de Salvador em que separávamos a banda em dois palcos pra simbolizar os continentes americano e africano (e o mar de gente dançando freneticamente na pista, representando o atlântico e suas misturas). Enfim, essa referencia de Diáspora é um tema constante, uma matéria prima inacabada, uma referência em plena construção e (re) invenção.

Falando em shows, vocês dividiram o palco com vários artistas africanos e chegaram a gravar com alguns deles também. De onde vem essas parcerias?

Jorge Dubman: A presença africana no trabalho do IFÁ está em constante movimento. Além de todas as referências sonoras, estéticas e políticas das últimas décadas que inspiram nossa criação, o contato com a produção artística da  diáspora negra contemporânea tem sido parte da trajetória do grupo. Nesse link, algumas parcerias já foram realizadas com artistas de países africanos e outros conectados pelo Atlântico, irmanados pelas origens e conectados pelo propósito de manter trocas: Okwei V. Odili, Lemy Gwariokwu, Mikill Pane, Ilê Aiyê, Lazzo, Blitz The Ambassador. Todas as parcerias já realizadas surgiram de forma espontânea, muito pela identificação com o nosso trabalho. Conhecemos a cantora e compositora nigeriana Okwei V. Odili durante uma residência artística em Salvador, e com ela gravamos um EP com 5 faixas. Além disso, tornou-se presença constante nos nossos shows, desde que retornou ao Brasil para o lançamento do EP. Lemy Gwariokwu, artista responsável por diversas capas de discos de Fela Kuti, colaborou com a arte da capa desse EP. A parceria com o rapper britânico Mikill Pane foi proposta pela BBC de Londres, fomos procurados para fazer esse trabalho com ele. Com Blitz, recebemos um convite para acompanhá-lo em um show realizado em Salvador, disso tivemos a ideia de gravar algo juntos.

Um dessas parcerias virou um single lançado recentemente, que não estará no novo trabalho. Como aconteceu essa colaboração com a Blitz The Ambassador?

JD: Foi tudo muito rápido. Nós tínhamos pensado em alguns temas para apresentar a Blitz, mas quando chegamos no estúdio, ele já estava com a letra pronta e com alguns arranjos na cabeça, entramos em estúdio e começamos a tocar, e foi uma experiência incrível, porque essa música foi totalmente “live”, sem overdubs de instrumentos, edições e etc.

Mudando um pouco de assunto. Por mais que isso já vem mudando, incomoda quando resumem a música baiana aos cantores de Axé?

FM: Sim, incomoda bastante pois revela uma visão ainda parcial do caldeirão sonoro e artístico que é a Bahia. Mais ainda se considerarmos esse uso deteriorado do termo “Axé”, sabe. Axé e uma palavra tão forte, tão bonita e tem um significado tão impactante. Compusemos um tema instrumental com o nome Axé (que também ganhou uma versão com letra na voz de Okwei odili gravada no EP) e nossa missão sonora é trazer essa referência da ancestralidade africana e do Axé como elemento fundamental de nossa cultura. Depois o advento deste movimento empresarial-musical (chamado Axé music) esse sentido se perdeu. Compreendo que é parte da caminhada pela superação dos preconceitos, refazer esse sentido ancestral.

E como quebrar as barreiras do preconceito? Fazer música instrumental é um desafio maior de se conectar com esse tipo público?

FM: Utilizar a música na luta contra preconceitos de todas as origens é uma de nossos propósitos. Dentro desse universo, fazer música instrumental proposta para pessoas as mais diferentes é um desafio muito gratificante. Apesar de todas as dificuldades, tem sido motivador perceber que pessoas as mais diversas estão dispostas a conhecer o nosso trabalho. De modo geral, fazer música pan-africana, de afirmação de negritude, defendendo a ancestralidade e num contexto onde a indústria da música destruiu muitos espaços públicos e de socialização já é também um grande obstáculo a ser superado. Tem sido revigorante trilhar cada passo e conquistar nossos olhares e a atenção

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Capa do álbum Ijexá Funk Afrobeat

Foto: Heder Novaes

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