Entrevista: Kelton

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Dois anos depois do elogiado disco de estreia Distraído Concentrado, o brasiliense Kelton antecipa a chegada do seu novo trabalho, intitulado Lacunar, com o primeiro single “Dançando”. Fruto de uma bem-sucedida campanha de financiamento coletivo, o álbum virou um processo terapêutico para o músico.

No intervalo entre os discos, Kelton passou por problemas pessoais que o fizeram a pensar em desistir da música. “Por um certo tempo eu parei de ver propósito nisso tudo”, conta. Mas foi justamente através da música e dos amigos, como o Guilherme Cobelo, da Joe Silhueta, que ele tirou forças para sair dessa e se entregar as composições. Não é por acaso que Lacunar é o trabalho mais pessoal da sua carreira.

Com oito faixas, o álbum está previsto para ser lançado no dia 04 de agosto. Um dia antes da sua apresentação no novo festival de Brasília, a CoMA – Convenção de Música e Arte.

Paralelo a sua carreira solo, o guitarrista vem atuando também como produtor musical, apontado por ele como o seu futuro. Ele assina o elogiado Wahyoob, de Beto Mejía, além de trabalhos de outros músicos de Brasília, como Joe Silhueta, Rios Voadores, Stoyca e Disco Alto, entre outros.

Conversamos com Kelton sobre todo o processo do disco, a nova fase em sua carreira e o momento de redescobrimento da cena musical de Brasília. Confira abaixo o single “Dançando” e a entrevista

O primeiro single tem uma sonoridade diferente das canções do seu trabalho anterior, pendendo mais para o rock. As outras canções seguem essa mesma linha? O que te levou a essa mudança foi questão de fase ou influências de artistas que escutou depois de Distraído Concentrado?
 
O disco tem uma sonoridade diferente mesmo. O bom de ser artista independente é que você pode explorar várias possibilidades sonoras e foi isso que fiz nesse disco. Eu queria que ele fosse mais espontâneo no processo de criação e gravação. Queria também que ele fosse mais agressivo. Daí tive a ideia de gravá-lo com uma formação básica de rock: baixo, bateria, guitarras e voz. Não há praticamente nada além disso, apenas algumas percussões e sintetizadores pontuais. E é lógico que há o peso das coisas que tenho ouvido: ano passado a banda que mais ouvi foi Timber Timbre e certamente peguei umas coisas deles, sobretudo o uso que eles fazem de reverbs e delays.
 
 O disco anterior as letras eram pessoais e o Lacunar a inspiração vem de onde? 
 

O disco anterior era um disco de consolidação do meu trabalho como compositor. Mas não era um disco exatamente pessoal, não estava diretamente ligado à minha vida como o Lacunar está. Este disco é muito mais pessoal. As músicas falam de frustração, saudade, amor, obsessão, aquele monte de sentimentos que se misturam quando a nossa saúde emocional vai pro brejo.

O Distraído Concentrado teve as participações especiais da cantora Salma Jô (Carne Doce) e Beto Mejía (Móveis Coloniais de Acaju). Lacunar terá alguma?
 
Não. E isso também foi uma decisão consciente. Eu adoro ter participações nos meus trabalhos, mas nesse quis um pouco de insularidade. Por outro lado, foi o primeiro disco que produzi junto com os músicos que me acompanham ao vivo (Janary Gentil, Marcius Fabiani, Arthur Lobo e Rafa Cambraia). Nós arranjamos as músicas coletivamente, como uma banda.
 
Na fase pós Distraído Concentrado você chegou a perder a vontade de fazer música. O que te levou a chegar a pensar nessa possibilidade? Frustração com a música?
 
Acho que quando a gente tá ruim da cabeça nada tem graça ou faz sentido. Por um certo tempo eu parei de ver propósito nisso tudo. Pensei em focar no meu outro trabalho de servidor público e seguir uma vida mais convencional. Mas a música venceu mais uma vez. Ainda bem.
 
O título do disco tem alguma relação com esse momento?
 
A ideia de lacuna sempre me pareceu interessante. Eu me formei em direito e os professores frequentemente discutiam as “lacunas do sistema legal”. A lacuna, diferentemente do simples vazio, já denota uma possibilidade de preenchimento. Eu queria que esse disco fosse menos sobre a falta e mais sobre a possibilidade de se construir algo em cima dessa falta, uma nova vida, novas canções.

 

Viver de música em Brasília é tão complicado como no Rio em que o grande público tem certa preguiça com a música independente e carece de espaços?

Acho que é bem parecido… Em Brasília a gente tem de se virar nos 30 pra tocar. É difícil. Mas apesar disso Brasília vive um momento de efervescência na cena independente, com muitas bandas maravilhosas tocando seu trabalho, do jeito que dá. Ainda não dá pra dizer que tá bom, mas já esteve bem pior.

Ao mesmo tempo, olhando de fora me parece que Brasília vive uma fase musical de redescoberta com surgimento de festivais, inclusive você será uma das atrações da CoMA. É isso mesmo ou estou falando besteira? Como você vê esse momento da cena no estado?

Concordo, vide resposta anterior. Tem muita coisa legal rolando em Brasília e o número de artistas locais que estão no lineup da CoMA é um bom indicativo disso. E olha que ficou muita banda incrível de fora! Eu poderia citar pelo menos vinte bandas brasilienses hoje que poderiam tocar em festivais como a CoMA tranquilamente. Estamos numa boa safra.

O show no festival será baseado no novo álbum?

Sim, mas também tocaremos algumas antigas. O show será dentro do Planetário de Brasília, um lugar em que nunca imaginei tocar. Vai ser especial…

Mudando o foco. Paralelamente você faz parte da Joe Silhueta e essa não é a primeira vez que faz parte de uma banda…

A minha relação com o Joe Silhueta é um pouco diferente. O Guilherme Cobelo e eu somos amigos de longa data e eu produzi o primeiro EP do Joe sem grandes pretensões. Calhou que o som bombou e o Gui me chamou pra tocar baixo ao vivo. Foi justamente na época em que eu não estava me sentindo legal pra tocar a minha carreira solo, então foi uma forma boa de me manter ativo, com músicos talentosos e amigos. Agora que retornei com o meu projeto, deixei de tocar ao vivo com eles, mas ainda estou junto da banda na condição de produtor musical. Vamos produzir juntos o próximo disco da banda, Nas Trilhas do Sol.

Falando nisso, e em relação a produção musical? 

A produção musical é algo que está cada vez mais presente na minha vida. Espero conseguir trabalhar apenas com isso em muito breve.

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