Entrevista: Miêta

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‘O futuro é feminino. É sim, e o passado também! A diferença é que esses mecanismos que historicamente sucatearam nossa auto-estima, nos colocaram umas contra outras, nos delegaram “nosso lugar” e nos silenciaram não vão ser mais aceitos.’

Eu tive a feliz oportunidade de ir a uma apresentação da banda, em uma tradicionalíssima casa de shows em BH, A Obra, e lá me deparei com a força e potência dessas jovens mulheres que entendem seu momento e sabem muito bem o que querem falar.

A banda Miêta surgiu em 2016 depois de uma das integrantes fazer um post no Facebook a procura de pessoas para tocar. E de lá para cá, depois que se juntaram Célia Regina (guitarra), Marcela Lopes (baixo, vocais), Bruna Vilela (guitarra) e Luiz Ramos (bateria), não deixaram de estar no palco mandando seu recado ao seu estilo com um som pesado para todos os ouvidos do Brasil.

A banda que está com agenda cheia, passando pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e também pela capital do país, Brasília, apresenta em seus shows um repertório composto por músicas autorais de rock alternativo, com influências de dream pop, shoegaze e indie.

Forte e poderosa. Posso assim classificar a entrevista que a baixista e vocalista da banda belo Horizontina Miêta, Marcela Lopes, me concedeu.

 

Como surgiu a Miêta?

Então, a banda nasceu em 2015, a partir de um post da Célia no grupo Procuro Banda BH no facebook. Ela tava procurando pessoas pra tocar uns 90’s e a Marcela apareceu respondendo. A Célia catou a Bruna de uma outra banda em que tocavam repertório de covers, e formou-se então a Miêta, com as três. Entre o final de 2015 e o segundo semestre de 2016 a banda passou por algumas formações, tendo experimentado duas bateristas e duas baixistas antes do Luiz entrar e da Marcela assumir o baixo. Foi com essa formação que a banda estreou, em junho de 2016, e foi como quarteto que a coisa engrenou e a agenda de shows e produção do disco começou a caminhar efetivamente.

A banda que tem em sua formação a predominância de mulheres, a exceção apenas do baterista, Luiz Ramos, trata temas sobre feminismo e relacionamentos em suas composições. De onde surgem as inspirações para as letras?

As letras são meio que um diário. As minhas impressões das minhas vivências, minhas experiências, as filosofias e conflitos que permeiam minha vida; está tudo expurgado nessas letras.

Hoje a mulher ocupa o lugar que quer e se sente mais a vontade, mas ainda é uma luta diária e constante, então como é para vocês, as mulheres da banda, atuarem e se fortalecerem nesse lugar, o rock n’roll, que era muito masculino?

Assim como em qualquer âmbito da sociedade patriarcal em que estamos inseridas as cenas musicais de modo geral também são lugares de reprodução do machismo e de mecanismos silenciadores. Então é natural, nesse contexto, que as minas se sintam inseguras e desestimuladas a levar seus trampos pra frente. Precisamos provar algo o tempo inteiro.

A gente não tá tentando chamar atenção. Somos pessoas e tocamos instrumentos. É tão óbvio e ao mesmo tempo tão constante a necessidade de sermos didáticas nesse ponto… a cada final de show ter que ouvir que “tocamos bem para mulheres” ou ter que receber joinhas de aprovação e aplausos de outros músicos depois de ensaios, ouvir o clássico “não pára não” de caras que acreditam que mulher com instrumento é só hobbie, ou que realmente acham que a gente precisa do aval deles para nos sentir bem a respeito do nosso trabalho. E não percebem a carga nesses atos ou falas, a gente precisa falar “mano, se eu fosse um cara você faria esse comentário?” para despertar uma luzinha na cabeça dessas pessoas.

 

Já sofreram alguma situação de machismo no meio musical?

Enquanto mulheres vivendo em sociedade temos toda uma carga de preconceito e silenciamento, e não é diferente no meio da música, ainda majoritariamente masculino. Então constantemente aparece o tratamento pejorativo e preconceituoso que divide as mulheres que tocam dos “verdadeiros músicos” e nos colocam em posição de enfeite de palco ou em cota de festival.

O show de vocês é muito energético e inspirador, principalmente para o público feminino. Como é a recepção das mulheres ao som e performance de vocês?

Temos a felicidade de participar dessa criação de espaços de estímulo para outras mulheres. Brasil afora movimentações, projetos e espaços de vivência vêm surgindo com esse caráter de empoderar, fortalecer e evidenciar as produções feitas por mulheres, e no meio independente isso tá rolando também, vários projetos musicais encabeçados por mulheres, selos, casas de show, projetos no audiovisual… Costumo falar que as pessoas tem essa ideia de que “o futuro é feminino”. É sim, e o passado também! A diferença é que esses mecanismos que historicamente sucatearam nossa auto-estima, nos colocaram umas contra outras, nos delegaram “nosso lugar” e nos silenciaram não vão ser mais aceitos.

Com nossa presença a frente dos palcos sentimos que de algum modo podemos tocar outras mulheres, inspirá-las a pegar seus instrumentos e a desconstruir a ideia embutida socialmente de que não são tão boas, de que não são capazes, de que música é pra homem. No meio da música é comum acontecer de minas que dão rolê com caras de bandas se sentirem intimidadas. Esse é um ponto muito importante pra nós: poder de alguma forma inspirar ao invés de silenciar e oprimir. Acreditamos, por convicção e vivência, que a cena independente carece desse refresco, renovação mesmo, e as mulheres tem papel essencial nesse processo.

Luiz, como é atuar em uma banda predominantemente feminina?

Tocar numa banda predominantemente feminina não tem diferença nenhuma com tocar em qualquer banda. São excelentes musicistas e seres-humanas. Talvez a grande questão não seja “tocar” mas sim “vivenciar” um universo cheio de potência absurda, que não existe no universo masculino. Essas (e todas) as mulheres na música já estão fazendo uma nova revolução artística e que, em breve, vai dominar o mundo das artes e a sociedade no geral.

Quais os próximos passos da Miêta?

Vamos lançar nosso primeiro disco em junho, queremos tocar em mais festivais, conhecer mais desse Brasil brasileiro. Temos clipes sendo preparados pro segundo semestre, também!

Qual o recado da Miêta para o mundo?

RESPEITA AS MINA!

 

*Foto: Luciano Viana

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