Entrevista: Mulamba

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Mulamba

Com canções  poéticas, contundentes e impactantes sobre questões sociais e pautas importantes do universo feminino, embaladas pela mistura de Rock com MPB, a Mulamba vem se destacando no cenário musical brasileiro.

O sexteto curitibano, formado por Amanda Pacífico (voz), Cacau de Sá (voz), Caro Pisco (bateria), Fer Koppe (violoncelo), Naira Debértolis (baixo) e Nat Fragoso (guitarra), foi criado, em 2015, a principio para um tributo a Cassia Eller, mas a harmonia sonora e os pensamentos em comum as fizeram seguir juntas.

A aposta deu tão certo que cerca de um ano depois a banda já estava bombando na internet com o clipe de “P.U.T.A.”, que já tem mais de um milhão de visualizações. Era questão de tempo para que elas circulassem pelos palcos do país. Isso teve inicio em 2017, a banda levou a sua performance forte e irreverente a festivais como Vento Festival (SP), WebFestivalda (RJ), Morrostock (RS) e Estopim (PR). 

A trajetória ascendente foi reconhecida com a indicação ao primeiro Prêmio SIM SP na categoria “Novo Talento”, ao lado de outras grandes revelações de 2017. Agora a banda se prepara para entrar em estúdio e gravar o seu primeiro disco, que poderá ser lançado ainda em 2018 (torcemos!).

Fizemos uma retrospectiva do ano da Mulamba com a Cacau de Sá, que em entrevista  ao Som do Som falou ainda do inicio da banda, os próximos passos, os retrocessos no país e os avanços na produção musical feminina. Leia!

A banda a principio foi formada para um tributo a Cassia Eller. Quando vocês notaram que o trabalho dava liga e podiam fazer algo autoral? Quando surgiu o “agora nós somos a Mulamba”?

Eu a Amanda já éramos compositoras de longa data em nossas carreiras. Somar os instrumentos das manas, juntar um acorde a uma palavra, fosse ela de agonia ou alegria, foi uma questão que se deu por si só. Falamos de questões nossas pra outras pessoas como nós. Já o nome demandou certo tempo, muitas opções, risadas e discussões sérias sobre o porquê do nome e o quanto ele representaria o projeto. Então nasce nossa heroína, essa figura chamada Mulamba, que cansou da nulidade e da opressão sofrida pelas minorias. O trabalho autoral foi acontecendo espontaneamente e, quando nos demos conta, estávamos rodando a estrada mostrando nossa música.

Dois mil e dezessete pode-se dizer que foi uma resposta a essa aposta de seguirem juntas. A Mulamba acabou acontecendo, tocando em diversos festivais pelo país e sendo indicada a prêmio também. Como foram essas experiências? Imaginavam um ano tão produtivo em apenas dois anos de carreira?

As vivências foram e estão sendo transformadoras, interna e externamente. Tanto coletiva quanto individualmente, tudo muda o tempo todo. Nessa jornada temos a cada dia mais a certeza da importância de sentir. Sabemos de fato, o quão importante é toda forma de expressão artística e o quanto todxs deveriam e devem ter o direto a expandir a alma e as ideias através de todas as linguagens que arte pode abranger. Temos dois anos nesse projeto, mas nossa caminhada na música vem de muito tempo… O que entendemos é que potencializamos, por meio da banda, o nosso melhor. E, por isso, seguimos.

Nem o fato de ter um repertório autoral enxuto acabou atrapalhando. Ou isso em algum momento chegou a ser um empecilho? 

Se fosse pela vontade das integrantes, todos os dias estaríamos fazendo/criando algo novo. Mas o que entendemos é que ter uma canção bem trabalhada exige tempo e dedicação e é isso que fazemos hoje com a direção de musical de Érica Silva. Não nos agonizamos pela falta de tempo em compor e criar, o que não para de acontecer em menor ou maior escala. O repertório curto, nesse momento, nos permite cantar canções de amigxs e compositorxs que consideramos importantes, que nos comunicam tanto a ponto de nos fazer querer levar a mensagem pra além da escuta pessoal. Compartilhar o que nos desconstrói é um foco da banda!

Aliás, no concurso para o Vento Festival vocês ganharam o direito de gravar um EP. Tem previsão de lançamento ou vai vir um disco cheio? Rola certo medo pela expectativa das pessoas entorno deste trabalho? 

 O Vento Festival foi nosso primeiro grande divisor de águas, acho que começamos a ver o projeto pra além da nossa cidade nesse evento. As gravações estão previstas pra começar em março de 2018, o formato ainda não está completamente fechado, já que tudo é uma variável constante. O que podemos garantir é que será um primeiro trabalho de muitos e que temos orgulho das conquistas e sabemos o peso e a seriedade dos caminhos que nos aguardam. E seja o que tiver de ser.

Falando no Vento. Um dos momentos mais bonitos do festival foi a participação de vocês no show da Francisco. Na nossa resenha do evento chegamos a apontar a Juliana Strassacapa como madrinha da banda. Como surgiu essa aproximação com a francisco, el hombre?

O encontro foi proporcionado por Leticia Martins, nossa produtora. Tocávamos “Triste, louca ou má” nos shows antes desse contato. Com intermédio e a ajuda de Lê, nos encontramos pela primeira vez no Festival Coolritiba, que aconteceu na Pedreira Paulo Leminski. Depois desse dia, ídolos viraram amigos reais pra antes e depois dos shows. Nos encontramos na mana Ju e nos meninos. Todos eles nos têm o mesmo carinho e nós por eles. Evoé ter Juliana Strassacapa como dinda, evoé a esse projeto lindo que é a Francisco e a toda troca.

Em 2017 vocês também gravaram o clipe da faixa que leva o nome da banda. Um vídeo forte e carregado de emoção, assim como a canção. Acredito que tenha sido mais um momento especial do ano para vocês. Poderia falar sobre ele? Já pensam no próximo? 

A gravação desse vídeo foi um dos primeiros entendimentos que tivemos pra perceber a potência musical da junção de seis mulheres e como o sagrado feminino nos abraçou nesse trabalho. Uma junção de almas lindas, mulheres com histórias únicas e fortes se abraçaram e se viram nesse momento, quase todas se viram pela primeira vez nas gravações e foi uma catarse coletiva inominável, propiciada pela diretora Virginia de Ferrante, que, juntamente com uma equipe maravilhosa, fez tudo de forma independente. O fato de sermos uma banda independente não nos dá a certeza de saber quando será a nossa próxima produção nesse formato, mas vontade e ideias não nos faltam.

Algum outro momento que vocês destacariam e que deixamos passar?

Acho que temos dois pontos pra expor: o primeiro que essas seis mulheres não estariam realizando essa façanha de ser e viver de música, ainda que minimamente, sem o abraço de cada alma que nos dedicou ouvidos e olhares. E também ressaltar que só conseguimos cumprir as agendas fora da cidade, na maioria das vezes, por sermos recebidas por manas e manos em suas casas. Reduzindo nossos gastos a transporte, alimentação e uma ajuda mínima nesses lares quando possível. Por isso, deixamos claro que nossa gratidão é eterna a cada alma bonita que nos recebe nesse transitar todo que é a música. Outro ponto é que não praticamos, em nenhuma instância, misandria ou qualquer tipo de ódio ao sagrado masculino, só cansamos de misoginia e exigimos respeito ao sagrado feminino e todos os seres especiais que levantam essa bandeira de respeito e igualdade.

O ano foi marcado por retrocessos em vários campos da política, mas também foi um ano em que as mulheres se uniram e denunciaram vários casos de abuso tanto aqui como fora do país. Por serem mulheres e tocarem nesses assuntos em suas canções, como viram tudo isso?

Vemos como necessária toda e qualquer ação que denuncie qualquer forma de abuso, seja contra quem for. Num país como o nosso, não é só um corpo que morre com impunidades. Quando se mata uma pessoa por estar à margem da expectativa social patriarca, se mata suas ideias, seus sonhos e suas potencialidades pra além de sua geração.  Quando se maltrata uma mulher, quando  se extirpa da existência uma pessoa trans, gay, lésbica ou quando grandes empresas roubam em licitações de merenda das escolas públicas, se anula um pouco mais a esperança de um país esclarecido, forte e sem miséria, seja ela física ou de alma.

Também tiveram alguns, pequenos, avanços no universo musical feminino, teve a oficialização do projeto SÊLA, a afirmação de selos como o PWR, o surgimento do prêmio WMEA. Como vocês veem essas inciativas?

Em um país que desvalida o poder feminino, ações como essas são necessárias e bem vindas. Se o campo de trabalho não se abre para as manas as manas, temos que criar um campo onde trabalhar. É a hora de as mulheres assumirem iluminação, produção musical, produção técnica e afins. Nada mais certo do que fazermos nós o que outros nos julgam incapazes. Acreditamos que todos, sem exceção, somos capazes de ser e criar nossas próprias realidades. Somos protagonistas de nossas próprias histórias, por mais que a sociedade não queira contar essas histórias.

Agora falando em 2018. O que esperam? Como vocês projetam o ano de vocês? O que já tem engatilhado que podem adiantar?

Temos muitas ideias engatilhadas, é o que podemos adiantar. Projetamos um ano com música e estrada. Acreditamos no poder das mensagens que passamos.  É bem difícil dizer o que esperamos, já que Mulamba se fez sem se esperar. Só aconteceu. Logicamente que, se já nos víamos focadas, agora podemos dizer que somos o próprio foco de nossas ideias. Viver de arte no Brasil é um assunto delicado, não pela falta de qualidade, mas sim pelo fato de as grandes mídias serem seletivas e se manterem numa mesmice. Pra 2018, temos certeza de aprendizados e crescimentos internos desde já e esperamos que se emancipe pelo nosso trabalho. Música é o nosso trabalho e sempre será, com reconhecimento ou sem.

Foto: Luciano Meirelles

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