Entrevista: Nobat

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Apontado pela crítica como a revelação mineira na música e um dos promissores artistas, o cantor e compositor Nobat dá mais um aperitivo do álbum que prepara para outubro. O músico liberou para audição o single “Novato”, que também da nome ao seu segundo disco.

A faixa-título do álbum propõe em sua letra – composta em parceria com Marcelo Diniz– e em seu arranjo, a solidão, a angústia e desespero de um soldado num ambiente de guerra. Esta é a terceira música lançada pelo cantor, antes foram divulgadas as faixas “LSD” e “Não Deu”.

Produzido em parceria com Daniel Nunes (Constantina / Lise), o sucessor de Disco Arranhado traz a participação de vários conterrâneos e de músicos da cena nacional como Tatá Aeroplano, Helio Flanders e Julia Branco.

Batemos um papo com Nobat sobre o novo trabalho, o single e as colaborações presentes em Novato. Leia e ouça o nova música!

Novato surge depois de três anos do lançamento de Disco Arranhado. Qual a diferença entre eles?

Acredito que seja outro universo, completamente distinto. O Disco Arranhado foi o álbum que me debutou, portanto ele vem cheio de impossibilidades, limitações, falta de intimidade com processos, falta de definições, mas eu gosto dessa crueza dele sim. É um disco de rock, tem letras fortes, mas é também um trabalho que me afastou da zona onde eu sempre estive instalado que é da canção e da música brasileira. Antes do Disco Arranhado, as composições todas eram outras e eram várias nesse território. O Novato é um disco que vem com um conceito forte e com um, digamos, controle maior das possibilidades. Desenhei os arranjos, convidei os músicos que eu queria pra cada faixa e assumi melhor meu lugar como artista solo. As diferenças são várias e acho que são notáveis.

Como está sendo a produção desse segundo trabalho? Todas as composições são suas?

A produção está sendo uma experiência de rara sorte. Estou trabalhando em parceria com o Daniel Nunes, um artista de quem sou fã há muito tempo, conhecido por seus trabalhos a frente da Constantina e do projeto Lise. Amadureci muito, troquei muitas coisas e sinto que cresci como pessoa e como compositor graças ao convívio sereno e arrebatador com o Daniel. Trabalhar no pequeno quarto, ateliê onde fazemos as gravações, é também um privilégio. Chegamos lá com horários marcados, mas não temos aquele clima de estúdio onde o tempo corre junto com seu orçamento e todo mundo grava sob pressão, sem a leveza que permite o errar, que permite refazer, que possibilita adiar alguma coisa que num tá legal naquele dia. As coisas tem saído de um jeito super artesanal, o Dani desenha a sala de acordo com as intenções que temos e usamos colchões e sofás pra dar uma secada quando queremos, usamos uma variedade incrível de microfones pra criar estratos sonoros e cores distintas nas músicas, enfim, tá muito lindo. As músicas são todas de minha autoria com exceção desta faixa-título, ‘O Novato’, que é fruto de uma parceria com o poeta Marcelo Diniz.

As três canções já divulgadas apresentam sonoridades e um clima diferentes. Esse é o tom do disco? 

O disco tem um relevo estético muito amplo, mas ele tem uma unidade bem clara também. “LSD” e “O Novato” foram lançadas em seus arranjos finais, já “Não Deu” foi publicada numa versão com viola e violão, com participação do Helio. O arranjo dela que vai pro disco é um tanto diferente e se aproxima mais das outras duas. Inclusive, aproxima melhor as outras duas mesmo.

Qual o conceito desse novo single?

‘O Novato’ é um single que representa o disco num todo por trazer em sua poética e em suas paisagens sonoras, o lugar onde todo o imaginário por de trás dessa obra se hospeda. A letra narra um ambiente de guerra no qual um soldado desesperado pelo que vê clama a presença de deus e é interrompido por um colega que diz: “Não há deus no campo, novato! / Não há deus!”. Há nessa letra uma possibilidade de leitura que revela uma metáfora do grande dilema existencial de-onde-viemos-?-pra-onde-vamos que permitiu e impulsionou a construção da mítica divina na humanidade. O disco também é uma obra que registra um caminho meu, como pessoa e artista, rumo ao novo, ao desconhecido por mim e por aqueles ao meu redor. Passei por um forte processo de reconstrução de imaginário nos últimos anos, uma espécie de crise de identidade, que passa por vários lugares da minha existência e o disco é o início do novo lugar onde estou.

O disco conta com as participações de músicos conterrâneos e de Tatá Aeroplano, Helio Flanders e Julia Branco. Poderia falar dessas colaborações?

São colaborações incríveis que surgiram de reivindicações das próprias canções. Quando terminei de compor “Não Deu”, por exemplo, de repente me vi cantando com aquela intensidade interpretativa que o Helio tem – pra mim é um dos maiores intérpretes da nova geração do Brasil – e imaginei imediatamente como seria perfeita a tradução dele naqueles versos. É uma música sobre São Paulo sob a visão de um “forasteiro” – ambos somos e apesar de ele morar lá, ser já um pouco de lá, estou sempre em Sampa, preservo uma intimidade com a atmosfera daquele lugar que me faz sentir como se eu pertencesse à cidade desde sempre. O Tatá foi uma descoberta pra mim em tudo que fez e é. Como artista influenciou e influencia várias escolhas e como pessoa serve de referência de serenidade e iluminação. Mostrei uma música pra ele na minha casa uma vez e sua reação foi cantar, achei aquilo lindo e pedi o privilégio da sua colaboração no disco. Julia é uma pessoa que se tornou uma amiga e que participou na música “LSD”. Eu buscava uma voz feminina pra contribuir na atmosfera de cena conjugal que o tema revela, eu queria um duo tanto pelas vozes como pela questão de começar em português e terminar em inglês. Aquela voz linda dela também surgiu quando eu procurava por alguém pra assumir esse lugar na canção. Todos os músicos que estão participando imprimem suas digitais no disco e enriquecem ainda mais este trabalho que tá sendo feito com muito carinho, acredito que por isso e por todo resto a gente vai terminar com uma grande obra, de verdade.

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