Entrevista: Raphael Costa

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Depois de um longo período de preparação e lapidação de suas composições, finalmente chegará ao mundo o disco de estreia de Raphael Costa, Diamante Hortelã. Previsto para ser lançado em janeiro de 2017, o álbum pretende seguir por diversos caminhos, mas carregando elementos culturais pernambucanos, estado de origem do músico. A produção é assinada pelo amigo Marcelo Jeneci, que é só elogios ao novo nome da cena contemporânea.

“Ele é um interlocutor meu, da minha criação, de diversos passos meus, e eu também dele. A gente não teve nenhuma hesitação na hora de trabalhar junto neste álbum. Acho que vem ai mesmo um “Diamante Hortelã” porque a joia preciosa é ele e as cancões que ele faz são cristalinas”, disse Jeneci

Uma prévia do que está por vir já foi apresentada pelo músico, trata-se do single “Mão na Mão”. A faixa retrata o colorido e a memória do carnaval de Olinda. No próximo mês será lançada “Dia Desses”, que já tem registro ao vivo.

Gravado no Totem Estúdio, em fortaleza, Rapahel Costa teve a companhia dos músicos Yuri Kalil na bateria, Thiago Hoover na guitarra, Rogerio Samico no baixo, Gilú Amaral na percussão e Jeneci nos teclados.

O primeiro single, Pernambuco e o disco foram pautas da conversa que tivemos com o músico, uma das grandes apostas para 2017. Confira!

Por que a escolha de “Mão na Mão” para apresentar o seu trabalho?

“Mão na Mão” encapsula de forma astuta algumas das sensações cíclicas presentes no disco. Gosto daquela melodia desde quando ela era só assobio com ecos de frevo. A chegada de sua letra e a exposição da música ao arranjo acrescentaram a ela ainda mais elementos de um universo do qual sou cria. Fui menino no subúrbio de Olinda e nunca não fui ao seu carnaval. Convivo desde sempre com as suas ruas, com os seus loucos, com os seus animais soltos, com sua praia, suas festas e apreendi cedo o gosto pelo colorido, pelo quente e pelo diverso. Atribuo a isto parte considerável do que sou e a escolha desta canção para a chegada foi naturalíssima.

O single faz referencia ao carnaval de Olinda, sua cidade natal. O disco segue uma linha regionalista?

Pernambuco é berço de uma porção de vibrantes e lindíssimas manifestações de cultura popular: cavalo-marinho, maracatus, ciranda, côco, forró e o próprio frevo, para citar algumas delas. Se você já viu um papangu ou um caboclo de lança de perto (e se não viu sugiro uma busca rápida de imagens pela internet) há de entender que não existe forma de não assimilar tamanha energia. Viver neste lugar do mundo me trouxe as experiências naturais deste lugar do mundo, com as suas belezas e impurezas. Não acredito que o fato de ser afetado por estes elementos tornem a música que faço ou o disco Diamante Hortelã em regionalista, antes acredito que todas as referências que assimilei aqui se conectam com muita facilidade a símbolos de outras partes do planeta Terra. Admiro na mesma intensidade os universos propostos por Monet, VanGogh, Bjork, Bob Marley, Gilberto Gil, Ali Farka Touré ou Kazuo Ohno. Estou ao lado dos que torcem pela quebra das cercas.

Seguindo nessa frente, o disco aborda também questões políticas/culturais recentes como Cais José Estelita, no Recife, ou o foco foi em temas mais amenos? 

Apesar de perceber claramente unidade em sua formação o disco Diamante Hortelã versa sobre assuntos diversos. Tenho enxergado este trabalho como enxergo a divisão entre coisas solares e coisas eclipsadas. No seu repertório há por exemplo três canções que escrevi no feminino, outras que dizem de questões de sermos humanos e de algumas implicações que isso nos traz, uma eu fiz com saudade de casa e para a minha mãe, outra fiz pensando em e para Dominguinhos e Elba Ramalho, outras flertam com o mundo das relações de amor, e nenhuma trata de tema mais ameno. Uma delas em especial (“La Loi”), que acabei escrevendo em francês, trata do assunto angustiante e revoltante da situação dos imigrantes e dos que tentam migrar neste instante para a Europa fugidos de suas casas em seus lugares de nascimento e de como são recebidos no que dizem ser o nosso continente mais evoluído. O incômodo com os que jogam as cartas é percebido por um grupo maior de pessoas a cada dia que passa. É ridícula a postura daqueles países neste assunto, bem como é vergonhosa a proposta do consórcio Novo Recife para a construção de mais de dez torres de quarenta e poucos andares no Cais José Estelita.

Algumas músicas foram compostas em 2005, mas só no começo de 2017 o disco será lançado. Por que levou todo esse tempo? Por isso o nome do disco?

Diamante Hortelã está nascendo de parto natural e humanizado. Sem perceber fui gestando estas canções e elas agora estão prontas para irem por aí, mesmo sem mim. O seu nome vem do gosto que tenho de ver essas duas palavras juntas gerando incansavelmente uma terceira imagem. Cada pessoa, com as experiências que tem, vê a imagem que constrói e completa o giro de seu significado por si só.

A presença do Marcelo Jeneci foi essencial para dar o ponta pé? 

Jeneci é essencial na minha existência. Somos bons velhos amigos desde o primeiro encontro. Nele eu posso e sou sincero com a vida. Ele já sabe de coisas da música que ainda não fiz.

O que mais pode adiantar do álbum? 

Em dezembro lançaremos o segundo single, “Dia Desses”. Canção em parceria com um desses contemporâneos que nos enchem de beleza, Zé Manoel. Estou feliz de estar nas ruas com essas canções debaixo do braço mostrando-as a quem queira mundo afora e trocando sempre mais sobre mais. Agora é cantar, cantar, cantar!

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