Entrevista: Romero Ferro

1580
0
COMPARTILHAR:

“Por mais datado que seja, as pessoas ainda não aprenderam sobre o amor”. É desta forma, abordando o amor nas suas mais variadas formas, que o cantor e compositor Romero Ferro apresenta o seu primeiro álbum, Arsênico. O título a principio pode causar estranheza, mas nas 10 faixas que compõe o disco, o músico pernambucano mostra que o amor pode ser venenoso e até solitário.

Produzido de forma magistral por Diogo Strauzs, o sucessor do EP Sangue e Som (2013) faz um mergulho nos anos 80, tanto em termos sonoros como visuais, atualizando o pop contemporâneo com canções cheias de personalidade e ensolaradas. O trabalho foi gravado no Fábrica Estúdios, e conta com a participação de Amaro Freitas na coprodução e teclados, Patrick Laplan (Ex-Los Hermanos) nas baterias, Guilherme Eira nas guitarras, Nego Henrique (Ex-Cordel do Fogo Encantado) nas percussões, o trio de metais composto por Nilsinho Amarantes (Trombone), Fabinho Costa (Trompete) e Liudinho Souza (Sax), e o coro das irmãs Sue e Surama Ramos.

Divulgando o seu novo trabalho, Romero Ferro faz show de lançamento no Rio de Janeiro nesta terça-feira, 29, no Solar de Botafogo. Já no dia 01 de dezembro desembarca em São Paulo para Show Secreto Vila Madalena e depois, 04, volta para Recife para participar da  Feira Livre do Poço.

Antes de seguir em turnê, o cantor conversou com o Som do Som sobre Arsênico, amor, solidão, Cazuza e muito mais. Confira!

Logo no seu primeiro EP Sangue e Som você foi apontado como um dos principais artistas responsáveis pela revitalização da música pernambucana. Esse rótulo/título foi encarado como uma responsabilidade a mais na produção do seu disco de estreia?

Um pouco, acho que fiquei um tempo preocupado em como seria o meu primeiro trabalho, mesmo já tendo lançado um EP anteriormente. Na época do EP, a gente fez tudo de uma forma muito despretensiosa, queríamos sentir, testar. Eu também estava me sentindo, me testando. Com o disco tudo foi mais elaborado, amarramos um conceito visual e sonoro, escolhemos minuciosamente tudo, dentro das nossas possibilidades e limitações. E essa elaboração me deixou mais seguro para driblar qualquer rótulo ou expectativa. O disco é exatamente o artista Romero de 2016, com todas as emoções ali misturadas.

 O universo dos anos 80 transborda em seu novo trabalho. O que te motivou seguir por esse caminho? Qual a importância do Diogo Strauzs nesse processo?

No início do processo, o Diogo me disse que a gente precisava definir um conceito para o disco, um universo. E mergulhar nele. Ele me deixou bem livre para isso, e eu fiquei maturando as minhas ideias. Até que eu percebi o quanto essa época dos anos 80, musicalmente, me inspirava, me satisfazia, me completava. Boa parte dos meus ídolos estiveram nela, ou ascenderam nela. Não podia ser diferente! Quando sugeri ao Diogo, ele amou. E daí começamos a criar em cima, construindo cada detalhe desse cenário.

O que andou escutando que serviu de inspiração?

Nossa, muita coisa. Rita Lee, Mutantes, Tim Maia, Cazuza, Odair José, Lulu Santos, Lincoln Olivetti, Steve Wonder, Michael Jackson, David Bowie, Prince, A-Ha… E por aí vai! Compilei uma imensidão de referências, de vários seguimentos.

O disco tem o amor como ponto central. Quão difícil é falar sobre o tema sem cair no brega?

Eu acho que o amor é meio bregoso né? (risos). Todo mundo já amou, ou vai amar, ou está amando. Não só afetivamente, mas de uma maneira geral. O disco traz esse amor de uma maneira plural, o amor próprio, o amor ao mundo. O amor como o sentimento principal por trás de todos os outros. Acho importante trazer isso nos dias de hoje, por mais datado que seja, as pessoas ainda não aprenderam sobre o amor.

Ao mesmo tempo em que você traz o amor, você da o nome do disco de “Arsênico”. O amor e o veneno caminham juntos?

Total, e o disco pontua isso o tempo inteiro. O momento em que o amor vira um veneno, um tormento. Ou o inverso, quando o veneno em dose específica cura, é necessário. A gente vive se equilibrando entre os dois, e eu quis mostrar isso.

Todas as composições são suas. São frutos de experiências próprias?

São sim, mas em algumas eu fantasio muito, troco gêneros, troco personagens. Tem canções que são frutos de observações minhas, de experiências que aconteceram com pessoas próximas. O compositor tem um pouco disso, de investigar, de ir fundo. Eu acho maravilhoso poder escrever sobre qualquer coisa, e brincar com isso.

Você fala de amor, mas em uma música em questão você aborda a solidão e diz que “solidão atrai negatividade”. Você não acha que as vezes é bom e também pode ter o seu lado positivo? 

Tem duas musicas no disco que falam de solidão, e eu só percebi isso depois. A primeira, que inclusive chama-se “Só”, fala da solidão pós um relacionamento. Eu acho que partindo para o campo afetivo, é importante que tenhamos nossos momentos sozinhos, faz bem. A gente consegue se perceber de uma forma diferente, é sadio. Mas na outra música, que é essa em questão, e chama-se “Solidão é Nada”, ela trata a solidão de uma forma mais social, diante da humanidade. Nós somos seres sociais, e não chegamos a lugar nenhum sozinhos, precisamos uns dos outros, em coisas simples ou complexas. Por isso digo “Solidão atrai negatividade, desatividade…”. São dois tipos de solidão diferentes.

Já No clipe de “O Medo em Movimento” você busca discutir questões políticas do País e traz também a nudez, mesmo que rápida, mas que para muitos ainda é um tabu. Você acha que o medo é o responsável, ou um dos, da sociedade está do jeito que está? 

Sim, muito. Por isso o motivo do vídeo, da música, e dela ser lançada nesse momento específico. O medo é um sentimento que nasce dentro de você, e se você não tolhe-lo, ele te toma. O medo é um veneno, nos impede de ser quem somos, nos aprisiona. Todos nós sofremos com isso. A sociedade te impõe medos, é isso que a gente vê acontecendo o tempo todo. No vídeo, a nudez vem para quebrar o tabu da própria nudez, e para simbolizar a libertação.

“DropSatã” tem um quê de Cazuza, pela melodia, temática e até um pouco do timbre. Foi inspirada nos trabalhos dele ou foi algo involuntário?

Foi algo involuntário, mas eu amei que ela lembra ele. Muitas pessoas vem me dizer isso, e eu acho muito feliz. Cazuza nos deixou um legado de canções incríveis, é um artista atemporal e único. Eu sou fã dele, sou ariano, e intenso também. Tudo isso foi involuntariamente colocado em “DropSatã”. Aquele universo blues-rock dele.

Falando em Cazuza. Você fez um projeto em homenagem ao cantor com arranjos diferentes e convidados. Nos seus shows estão inseridas músicas dele também?

Nessa tour não. Nós passamos um pouco mais de dois anos fazendo um projeto paralelo em tributo a ele, que foi muito lindo e enriquecedor. Mas agora com o lançamento do disco, deixamos esse projeto descansando. E eu optei em fazer algumas releituras diferentes nesse show novo, com o intuito de visitar outros artistas também.

Você agora está excursionando divulgando o disco, mas pretende lançar outro clipe? Já tem em mente qual será a próxima faixa?

Sim, quero muito fazer vários clipes para esse trabalho, espero muito que a gente consiga. Mas estamos na pré-produção de um segundo, será “Até Onde Se Vai”. Quero poder levantar uma bandeira em cada clipe, fizemos isso no primeiro e faremos nos próximos também.


Foto: Lana Pinho

COMPARTILHAR:

Comentários no Facebook