Entrevista: Sylvio Fraga

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Há mais ou menos um ano, o compositor e poeta Sylvio Fraga lançava o seu primeiro álbum, Rosto. Com uma voz suave, criatividade e arranjo bem construídos, o disco conquistou admiradores e elogios da crítica especializada. Agora, o músico está se preparando para entrar em estúdio para gravar o seu segundo trabalho, previsto para abril de 2015.

Enquanto isso, o carioca realiza uma série de apresentações no Audio Rebel, em Botafogo, para experimentar as 15 canções inéditas que vêm criando desde dezembro do ano passado com a nova banda. Nos dias 24 de outubro e 21 de novembro, às 20h, o músico vai tocar violão e cantar acompanhado por José Arimatéia no trompete, Mac Willian Caetano na bateria e Bruno Aguilar, o novo integrante, no baixo acústico. A entrada é grátis.

Economista por formação e músico por ofício e paixão, Fraga também escreve poemas. Mestre em poesia pela New York University, lançou o livro Entre árvores e no ano que vem irá publicar o seu segundo.

As suas composições trazem um certo lirismo que refletem a sua relação com a poesia. As faixas de Rosto foram poemas musicados ou foram letras escritas propriamente para o álbum?

Eu acabo tratado o universo da poesia e da música separadamente. Pra mim o impulso criativo acontece ou na criação de uma música sem letra, “música pura” ou ele tem o impulso da palavra, que vai diretamente para um poema. É muito raro a letra sair junto da música. Nenhuma dessas músicas foi poema antes. A maneira pela qual vou construindo os poemas certamente aquilo induz a minha maneira de fazer as letras, mas eu não acho que as minhas letras se sustentam sozinhas no branco do papel.

O primeiro disco foi gravado em trio e hoje é um quarteto. Apesar de ser um trabalho solo ele funciona com uma dinâmica de banda?

Em muitos sentidos funciona como uma banda mesmo. O processo criativo é em conjunto. Levo as composições para os ensaios – que acontecem três vezes por semana, o ano inteiro – e ai a gente começa a trabalhar. De vez em quando chego com uma ideia pré-estabelecida de um caminho, às vezes funciona, outras não. A banda mesmo vai e leva para outro lugar. Cada um de nós tem um papel de liderança particular. Cada um tem sua bagagem, sua história e sua experiência.

Como é o processo criativo? É feito em conjunto?

O processo criativo da composição sou eu sozinho com violão em casa, depois levo para banda. Ai sim, o processo criativo de fazer o arranjo, de construir a roupagem da música e que, de certo modo, acaba mexendo na estrutura da composição, isso é coletivo. Dois processos criativos distintos. Mas agora que eu estou tocando com esses músicos, eu acabo compondo muitas vezes pensando neles, pensando na forma como a banda toca, na nossa maneira de fazer arranjo, no que a gente vem construindo e mudando. É uma busca constante por algo estético que a gente não sabe bem dizer o que é, mas a gente vai atrás.

Rosto foi lançado há um ano. O segundo disco já está em processo de produção?

Sim, totalmente. A gente grava em dezembro. As músicas estão todas feitas, faltam algumas letras e os arranjos estão praticamente prontos. A gente segue ensaiando, criando. Em abril do ano que vem a gente lança.

Ele segue a mesma linha do seu primeiro trabalho?

Acho que mudou bastante. Em primeiro lugar mudou o baixista, agora entrou o Bruno Aguilar que toca o baixo acústico. O primeiro foi todo feito com baixo elétrico. Isso já mudou muito a sonoridade da base. Além da entrada do trompete como membro oficial. No primeiro disco ele participa de três faixas, mas a concepção foi toda entorno do trio. Agora a concepção abriu para a inclusão do trompete como membro oficial.

A gente aprofundou o que a gente vinha fazendo no primeiro. O Rosto tinha alguns momentos mais de Rock, esse disco já tem uma influencia mais forte do jazz, apesar de não ser jazz, de maneira alguma. Tem muitos arranjos que são super construídos mesmo, pensados. Mesmo também as músicas sendo quase todas canções. Tem uma ou outra instrumental, que também já é uma grande diferença em relação ao Rosto, que não tem nenhuma. Esse vai ter pelo menos uma, vai depender das quais a gente vai escolher para colocar no disco. Nós temos de 15 músicas, mas pretendemos gravar não mais que 12.

Nesse disco tem alguma parceria ou são todas composições suas?

Todas as composições ou são minhas ou são com parceiros, não tem nenhuma puramente de outra pessoa. Na verdade as parcerias são mais com letras. Eu tenho uma certa dificuldade com letra e não é sempre um impulso criativo puro, acaba sendo feita depois. Vira mais uma questão de encaixe do que uma inspiração. De vez em quando acontece. Na verdade as letras que eu fiz para esse disco foram mais assim, a letra como se fosse surgir junto com a melodia. Mas eu voltei com a minha parceria com Pedro Dias Carneiro, que fez quatro músicas no Rosto. E agora também tenho algumas parcerias com José Arimatéia, que é o trompetista.

Essas novas músicas estão sendo tocadas nos shows que você está fazendo no Audio Rebel?

Sim, a gente fez um show no dia 3 de outubro e tocamos só músicas novas e no bis a gente fez uma do ultimo disco a pedidos, que a gente não ensaiava a meses (risos).

O show mistura música e poesia. Teve algumas participações, como a do Zé Nogueira…

O Zé Nogueira participou do primeiro e deve participar do próximo também. Nesse segundo vai ter o Mariano Marovatto e a Laura Liuzzi , que são meus colegas poetas. No meio do show eles vão subir e vão ler alguns poemas inéditos dos próximos livros deles.

Falando em poesia. Você lançou também livros de poesias…

Eu lancei um livro com poemas meus e um de traduções de três jovens poetas americanos. Eu estou com o próximo livro quase pronto também, tá meio que no mesmo pé que o disco, devo lançar os dois bem próximos.

Você é formado em economia e rumou para artes. Essa aproximação com a música veio durante o curso ou você já tinha isso em você?

Eu comecei a fazer música desde pequeno, aprendi violão aos seis anos de idade, mas foi só durante a faculdade que eu percebi que eu queria fazer isso da vida, mas ai eu já estava no meio do curso. Resolvi então terminar para ter um diploma e fazer um mestrado em poesia. Se eu parasse para fazer letras ia demorar mais tempo para começar o mestrado. Sou um falso economista (risos).

 

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