Entrevista: Thiago Pethit

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“Rock’n’roll é uma arma estética, uma atitude, algo comportamental que pode servir para bagunçar as lógicas comuns e os costumes”. Pensando desta forma o cantor e compositor Thiago Pethit resolveu despertar o seu lado rockstar e ir contra a maré da caretice da sociedade atual ao lançar o seu mais recente disco Rock’n’Roll Sugar Darling.

Em seu novo trabalho, Pethit evoca o rock’n’roll clássico, mas entende o rock como provocação. Sem nostalgia ou devoção, apropria-se de sua origem marginal, afetada, sexy e debochada para chegar a canções em que guitarras rockabilly e tambores à la Bo Diddley convivem com batidas eletrônicas, elementos digitais e samples.

Depois de passar por várias cidades, o músico traz a sua nova turnê ao Rio para um show único, neste sábado (dia 29) no Teatro Solar de Botafogo. Aproveitamos para conversar com Thiago, que falou sobre rock, sexo e a turnê. Confira!

A filosofia “sexo, drogas e rock’n’roll” por muito tempo foi usada para definir o comportamento de uma geração. No seu novo trabalho você traz um pouco dessa combinação/ espírito. Poderia falar sobre isso?

O que eu tento dizer neste trabalho é que rock’n’roll não é apenas um estilo musical. Rock’n’roll é uma arma estética, um som, uma atitude, algo comportamental que pode servir para bagunçar as lógicas comuns e os costumes. A ideia de ‘sexo, drogas e rock’ funcionou como arma nos anos 50, 60 e 70 para revolucionar o mundo e combater especialmente uma moral ‘careta’ daquelas épocas. O que tem se visto no mundo contemporâneo, e no Brasil, é uma ascensão muito grande de defensores dessa moralidade antiga, de religiões com crenças ultrapassadas, e que oprimem minorias, mulheres, gays, trans e negros. Minha lógica é: se esses símbolos do rock funcionaram lá atrás, talvez eles possam funcionar hoje em dia, dentro de uma ideia atual do que seja essa atitude.

O Rock sempre esteve presente na sua carreira, mesmo que de uma forma leve, seja por alguns elementos, até pela sua energia nos palcos. Tudo isso já era uma preparação do terreno para lançar o Rock’n’Roll Sugar Darling?

Se era, não era consciente. Eu sempre gostei de rock e sempre me senti influenciado por figuras como Mick Jagger ou Bowie, embora meus primeiros trabalhos não mostrassem isso de forma tão obvia. Mas já tinha algo na energia, como você disse. O que me levou ao Rock’n’Roll Sugar foi algo bem mais sutil, ou mais difícil de explicar. Tem a ver com a trajetória que eu fui assumindo ao longo das turnês e desses cinco anos de carreira. E de certa forma, tem a ver com o mundo também. Com as transformações do Brasil nestes cinco anos. Se em 2010 eu surgia com um disco super delicado era porque estávamos na melhor fase do governo Lula. Se em 2012 eu fiquei agressivo e afetado, não era a toa que pintavam nomes como Feliciano e Bolsonaro dentro da política nacional. E se agora eu brinco com essa imagem ainda mais agressiva, é porque já passamos por junho de 2013, pelos black blocs e tudo isso. Meu trabalho não é político, no sentido estreito do termo ou do discurso. Mas a política reflete em tudo que é estético.

O disco faz referências a ícones do Rock internacional. Quanto a cena nacional, tem algum que serviu de inspiração?

Rita Lee, Rita Lee e Tutti Frutti, Rita Lee e Mutantes, Rita Lee e qualquer coisa que ela já tenha feito (risos).

Li na internet comentários de que você tinha chegado para salvar o rock. Já se imaginou sendo uma referência do gênero?

(Risos) Eu acho esse termo muito engraçado. ‘A salvação do rock’. É uma coisa clichê e engraçada. Sei lá. Eu não vim salvar nada, eu vim destruir. No bom sentido pra quem quiser, no mal pra quem preferir me ver assim. Acho muito difícil qualquer pessoa se tornar referencia de algo hoje em dia. Mas, nunca se sabe.

Depois da repercussão positiva, pensa em “estacionar” no Rock ou pensa em continuar as experimentações sonoras?

Não faço ideia ainda. Essas coisas nunca são planejadas assim, por mim. Eu me permito sentir as necessidades que se impõem no meu caminho, coisas que acontecem durante as turnês, como elas se transformam… as turnês e o contato direto com o público é que guiam essas experimentações e as minhas vontades. Eu não seria feliz em criar pensando que algo deu certo. Eu prefiro errar e fazer algo que me mova do que acreditar no sucesso. Sempre digo, meu único compromisso é com o fracasso. Ele é garantido.

As suas performances no palco passam a impressão de que estar ali é mais do que um trabalho, é uma diversão, um prazer. Como está sendo a nova turnê?

De fato, eu tenho muito prazer no palco. É uma espécie de anfetamina. Esse show especificamente é muito divertido pra mim. Eu posso brincar de realizar inúmeras fantasias, eu posso me travestir do que eu quiser e fazer as pessoas acreditarem neste rockstar e se entregarem nos braços dele… é catártico, e é algo especial. Mas como eu falei, é uma espécie de anfetamina mesmo, uma droga que vicia. Eu saio muito cansado. Perco aproximadamente três kgs a cada apresentação, e quando volto pra casa das turnês, eu tenho tido uma leve sensação de depressão, como se eu tivesse gastado mais serotonina do que podia. Estou tentando descobrir ainda como dosar essas sensações.

Vamos falar de sexo? Esse tema para você é algo bem natural, está presente nas suas músicas e clipes.  Por que as pessoas ainda tem receio em falar sobre?

Filosoficamente? Talvez porque o sexo seja o desejo mais revolucionário dos desejos carnais. Mais que a fome ou que a sede. O sexo é uma escolha, não é uma necessidade física. Ninguém morre se não fizer, mas também não conseguem viver sem. É a escolha pelo prazer e o prazer é uma forma de revolução. O gozo é uma revolução. É a pequena morte. Vivemos há séculos em sociedades que tentam reprimir o gozo e fomos educados assim. Talvez por isso ainda seja um assunto envolto em tanto tabu.

Aliás, um dos seus clipes, “Romeo”, por conta das cenas foi denunciado por usuários como impróprio, sendo taxado para maior de 18. Já tinha passado por isso? Como você vê esse patrulhamento na internet?

Tinha passado por essa experiência em “Moon”, meu videoclipe de 2013, sobre dois garotos de programa que acabam se envolvendo. Acho até que a censura foi mais forte e até mais rápida em “Moon” – principalmente por se tratar de sexo entre dois meninos e ter bastante nudez masculina no vídeo. Em “Romeo”, era um casal hetero, e somos mais educados a lidar com o corpo feminino exposto do que o masculino. Isso muda um pouco o ‘tom’ da censura, sabe?

Há patrulhamento por todos os lados, né? Nada que interesse passa despercebido atualmente. Acho que existe um lado positivo nisso, que é a abertura de novas discussões, ou de pontos de vistas novos, sobre velhas discussões. Os avanços que as minorias estão podendo fazer em torno das discussões de internet, tem sido maravilhosos. Feministas, lgbts, movimentos negros. Mas eu ainda acho que existe uma ótica muito ingênua, de todos os lados na patrulha. Que é a ideia de que existe ‘bom’ e ‘mau’. Uma lógica binária que impera nessas discussões e sempre cai numa espécie de marxismo-cristão. Essa lógica acaba empobrecendo os discursos.

Sem nenhum pudor, você fez dois ensaios fotográficos artísticos e sensuais. Como foi a experiência de revelar a sua intimidade?

Eu nem diria que são ensaios sensuais. Na verdade, são ensaios com nudez. Não que o sensual me incomode, pelo contrário, mas não eram ensaios que tinham essa intenção, eu acho. Pelo menos, não escancarada. Eu fui ator durante muitos anos, e tive uma educação privilegiada na minha casa, em termos de liberdade com o corpo e com a nudez. Eu fico pelado muito facilmente, sem nenhum constrangimento. Acho o nu uma das coisas mais lindas. Seja um nu com propósitos sexuais ou não.

As suas composições também têm um toque da sua vida pessoal?

Tem, bastante!

Você segue divulgando o “Rock’n’Roll Sugar Darling” e lançou um EP acústico. O que vem mais por aí? Mais clipes?

Gostaria de realizar mais alguns clipes ainda, deste álbum. Sinto que tem muitas músicas que poderiam render boas historias ou mesmo boas imagens. Eu adoro brincar com dados visuais que complementem as canções. Tenho planos pra filmar coisa em breve. Aguardem!

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