Eu digo Charlie e vocês dizem Brown

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Sendo de uma época em que as bandas de rock seguiram uma linha “mais do mesmo”, a santista Charlie Brown Jr foi uma das poucas realmente originas a surgir na virada do milênio e permanecendo assim até o seu fim, em março de 2013, devido a morte de seu fundador, o vocalista Chorão. Numa mistura entre rock, reggae e hip-hop, o CBJR conseguiu ultrapassar barreiras e conquistar um público ainda distante do rock e se consolidar como uma das principais bandas do Brasil. Hoje a #MaratonaDiscografica é com eles. Vamos dar uma volta pelas obras do grupo?

“Meu, tu não sabe o quê que aconteceu! Os caras do Charlie Brown invadiram a cidade!” Foi assim que o Charlie Brown Jr deu o seu cartão de visitas, avisando que a partir daquele momento, o coro ia comer. Com sucessos como “Tudo o que Ela Gosta de Escutar” e “Proibida pra Mim”, além da já citada “O Côro vai Comer”, Transpiração Contínua Prolongada foi lançado em 1997 e foi sucesso de venda e crítica, já colocando a banda como uma das principais revelações do rock nacional, até aquele momento. Em sua formação além de Chorão nos vocais, e Champignon no baixo, faziam parte a dupla Marcão e Tiago Castanho nas guitarras e o baterista Renato Pelado.

Dois anos depois, em 1999, era lançado no mercado Preço Curto, Prazo Longo, segundo disco do Charlie Brown Jr. O álbum acompanhou o sucesso de seu antecessor, tendo sido também um sucesso de venda e crítica. Ele traz alguns dos maiores sucessos da banda como “Zóio de Lula” e “O Preço”, mas o destaque definitivo desse disco é a música que se tornou o hino de toda uma geração que cresceu assistindo a novela Malhação. Basta os primeiros acordes de “Te Levar” chegarem aos ouvidos, para disparar todas as lembranças nostálgicas na mente de quem tem vinte e poucos anos.

O fato de “Te Levar” ter permanecido como trilha de abertura da novela Malhação de 1999 à 2006 contribuiu e muito para a popularização da banda nas mais diversas camadas sociais e o disco seguinte aproximaria ainda mais a das periferias. Em Nadando com os Tubarões, lançado em 2000, a banda passou a explorar um pouco mais o seu lado hip-hop e contou com as participações de grandes nomes do estilo, como Sabotagem, Negra Li e o grupo RZO, e teve como músicas de desta “Rubão Dono do Mundo”, “Não é Sério”, “A Banca” e “Tudo Mudar”.

Após a saída do guitarrista Tiago Castanho, o CBJR lança em 2001 o disco 100% Charlie Brown Jr (Abalando a sua Fábrica). Com uma sonoridade mais crua, a banda se focou no hardcore, deixando o hip-hop um pouco de lado nesse disco. Particularmente, ele é o meu favorito, contendo sucessos como “Lugar ao Sol” e “Quebra-Mar”, além de “Hoje eu Acordei Feliz” e “Descubra o que há de Errado com Você”. Mas vale destacar também a canção “Eu Protesto”, que é bem atual para a atual conjuntura política do Brasil.

Durante uma ida da banda à Portugal, um jornal publicou a notícia de que uma banda viria uma banda brasileira se apresentar por lá, na qual os integrantes possuíam “bocas ordinárias”, devido a quantidade de palavrões nas músicas. Foi dessa matéria inusitada que veio o nome do quinto disco do Charlie Brown Jr, Bocas Ordinárias, lanado em 2002. Dando sequência a uma sucessão de discos bem recebidos pelo público, os grandes destaques do álbum são “Papo Reto (Prazer é sexo, o resto é negócio)” e “Só Por uma Noite”, que contou com a participação do ex-titã Paulo Miklos no clip, além de uma versão para “Baader-Meinhof Blues”, da banda Legião Urbana.

Contrariando a tradição de resgatar bandas e artistas em ostracismo, o Charlie Brown Jr gravou seu Acústico MTV em pleno auge da carreira. Lançado em 2003, o desplugado do CBJR foi um dos mais descontraídos da série, com o público participando ativamente da apresentação. O disco trouxe vários sucessos, além de duas canções inéditas, “Não Uso Sapato” e “Vícios e Virtudes”, e participações especiais de Negra Li, RZO, Marcelo Nova, vocalista da banda baiana Camisa de Vênus e Marcelo D2. Desnecessário falar que o disco foi sucesso absoluto.

Embora também tenha sido um grande sucesso comercial como seus antecessores, considero o disco Tamo Aí na Atividade, lançado em 2004, o “menos inspirado” do CBJR, embora ainda seja muito bom. Sexto álbum de estúdio e sétimo de toda a carreira, o disco teve como principais destaques a faixa-título e a música “Champanhe e Água Benta”. Este foi o último disco antes da saída de Champignon, Marcão e Renato Pelado, que seriam posteriormente substituídos por Pinguim da bateria, Heitor Gomes no baixo e a volta do Tiago Castanho na guitarra do Charlie Brown.

Marcando uma nova fase na banda, o Charlie Brown Jr lançou em 2005 o disco Imunidade Musical, um dos melhores trabalhos do grupo santista. Dissipando a desconfiança do público, que não sabia se a banda conseguiria manter a qualidade após a saída de três dos quatro integrantes, o disco trouxe os sucessos “Lutar Pelo que é Meu”, “Ela Vai Voltar (Todos os Defeitos de uma Mulher Perfeita)”, “Senhor do Tempo” e “Dias e Luta, Dias de Glória”, além de um cover da música de Geraldo Vandré, “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores”.

Considerado por mim a obra prima do Charlie Brown Jr, Ritmo, Ritual e Responsa foi lançado em 2007 e é a trilha sonora do filme O Magnata, roteirizado por Chorão, vocalista do grupo. Com diversas participações especiais ilustres, como MV Bill e a banda punk Ratos de Porão, entre outros, o disco tem destaques dos mais variados estilos, como “Pontes Indestrutíveis”, “Não Viva em Vão” e “Uma Criança com seu Olha”, além “Be Myself” e a pérola “O Que Ela Gosta é de Barriga” (recomendo vocês verem a versão da banda com a cantora Vanessa da Mata). Com toda certeza, o trabalho mais arrojado da banda e que merece figurar entre os melhores do rock nacional como um todo.

Após o fim do contrato entre o baterista Pinguim e a banda, sem interesse de renovação das duas partes, o músico é substituído por Bruno Graveto e é com essa formação que o Charlie Brown Jr lança em 2009 o disco Camisa 10 – Joga Bola Até na Chuva (os nomes dos discos do CBJR são os melhores), em referência a este ser o décimo disco da banda. O disco traz a música “O Dom”, a “Inteligência e a Voz”, feita para Cássia Eller, mas que acabou não sendo gravada pela cantora e permaneceu engavetada desde então. Mas os grandes destaques do disco foram, sem dúvidas, “Me Encontra” e a baladinha voz e violão “Só os Loucos Sabem”. Este disco rendeu o Grammy Latino de 2010, na categoria de Melhor Álbum de Rock Brasileiro.

Marcando o retorno improvável dos músicos Marcão e Champignon ao Charlie Brown Jr, remontando quase toda a formação clássica da banda (o baterista Renato Pelado foi o único que não voltou), a banda lançou em 2012 o disco Música Popular Caiçara, um ao vivo gravado em Curitiba e Santos, terra natal da banda, trazendo os grandes sucessos do grupo, além da canção inédita “Céu Azul”, contando com as participações especiais de Marcelo Falcão, (O Rappa), Marcelo Nova (Camisa de Vênus) o cantor Zeca Baleiro, apresentando uma versão balada para o clássico “Proibida pra Mim”.

Olhando hoje pra esse disco, podemos considerar ele como um acerto de contas com o passado, tendo em vista que o fim da banda estava mais próximo do que se esperava. Na manhã do dia 6 de março de 2013, o vocalista Chorão foi encontrado morto em seu apartamento, colocando um ponto final na brilhante carreira do Charlie Brown Jr. Alguns meses depois, após a também surpreendente morte do baixista Champignon, foi lançado o disco póstumo La Família 013, uma referência ao prefixo da cidade de Santos. É interessante observar que o refrão da música que abre o disco diz “então vamos viver, um dia a gente se encontra”. Um singelo adeus, no melhor estilo Charlie Brown Jr de ser.

Pouquíssimas bandas dentro do rock nacional conseguiram se manter produtivas e relevantes durante toda a sua carreira. O Charlie Brown Jr é uma dessas poucas. Mantendo-se original, sem deixar a linguagem pop de lado, o Charlie Brown Jr conseguiu unir nichos que até então estavam bem distantes. Sua fusão de rock com hip-hop tornou a banda popular nas camadas periféricas, falaram de amor sem ser piegas e fizeram crítica social numa linguagem que todos puderam entender. A banda se foi, mas os discos são eternos e merecem ser consultados sempre que possível. De fato, os caras do Charlie Brown invadiram não só a cidade, como todas as quebradas do país, colocando de vez seu nome entre as maiores bandas do Brasil.

Skateboard na veia. Rock n Roll até a alma. Quem tá com a gente faz barulho e bate palma! (Chorão)

 

Top 5

1 – Ritmo, Ritual e Responsa (2007)

2 – Imunidade Musical (2005)

3 – Transpiração Contínua Prolongada (1997)

4 – 100% Charlie Brown Jr. (Abalando a sua Fábrica) (1999)

5 – Nadando com os Tubarões (2000)

 

Discografia

Tranpiração Continua Prolongada (1997)

Preço Curto, Prazo Longo (1999)

Nadando Com os Tubarões (2000)

100% Charlie Brown Jr. (Abalando a sua Fábrica) (2001)

Bocas Ordinárias (2002)

Acústico MTV (2003)

Tâmo aí na Atividade (2004)

Imunidade Musical (2005)

Ritmo, Ritual e Responsa (2007)

Camisa 10 – Joga Bola até na Chuva (2009)

Música Popular Caiçara (2012)

La Família 013 (2013)

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