Festival DoSol 2016: A maior vitrine musical do Brasil

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Já consolidado como um dos principais eventos de música do Brasil, o Festival DoSol tem expandido cada vez mais seus horizontes. Em 2016, 14 cidades em cinco estados diferentes receberam ou receberão ainda ao longo do mês de novembro o festival, com a participação de algo em torno de 100 bandas, totalizando cerca de 160 shows, o que nos leva a crer que o DoSol já é o maior festival de música do Brasil e se brincar, do mundo.

A edição na capital potiguar, berço do festival, foi realizado nos dias 11, 12 e 13 de novembro, no histórico bairro da Ribeira, em Natal. Com mais de 60 bandas, seis palcos e muita música, o festival movimentou a Rua Chile em sua décima quarta edição e como já é de praxe, um dos dias do festival foi inteiramente gratuito, fazendo a alegria do público. Eu estive por lá nos três dias de festival conferindo tudo, vendo bandas que eu já gosto e conhecendo outras tantas. Sem mais delongas, conto pra vocês agora tudo o que eu vi por lá.

Já no primeiro dia de festival, um notícia bombástica: a partir de 2017, o festival não mais será realizado no bairro da Ribeira. O motivo? Algo um tanto quanto lógico. As casas na Ribeira não conseguem mais comportar a estrutura do festival, que devido a sua qualidade, cresceu demais. Agora, o festival segue rumo à praia, uma mudança bastante apropriada pra um evento que se denomina DoSol. Embora o aperto no coração fosse grande, o jeito era aproveitar os últimos momentos do festival no Centro Histórico da capital potiguar.

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Fetuttine

Com entrada free, o primeiro dia contou com dois palcos e oito bandas. Coube a banda potiguar Joseph Little Drop (Zé Gotinha no idioma tupiniquim) a honra de abrir o Festival DoSol 2016, no palco Spotify, localizado dentro do próprio Centro Cultural DoSol, apresentando suas músicas com letras bem humoradas, agitando a galera que chegou cedo (leia-se 21 horas). Enquanto isso, no palco Container, que ficou na própria Rua Chile, a banda brasiliense Lista de Lily iniciava seus trabalhos, com seu som cheio de experimentalismo e psicodelia. Aliais, psicodelia foi o que não faltou neste festival.

Voltando para dentro do DoSol, o Fetuttine, projeto dos músicos Luiz Gadelha e Anderson Foca (o homem das mil bandas) iniciava seu show, apresentando as canções do disco Impossível Só, lançado recentemente. Podemos dizer que foi o momento mais romântico da noite. Daí pra frente foi só porrada no palco Spotfy. Já do lado de fora, os pernambucanos do Kalouv, já bastante conhecidos dos potiguares, tendo um público cativo aqui pelas terras de Cascudo e uma detenção por motivos de som alto demais (isso é sério, mas deixa essa história pra outro momento), presenteavam a todos com seu rock instrumental meio progressivo, meio psicodélico.

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Luneta Mágica

Correndo de volta pro DoSol, foi a vez de uma das bandas potiguares de maior circulação pelo país e mundo, o Camarones Orquestra Guitarrística, com sua baixista de cabelos esvoaçantes Ana Morena. Dizer que o show foi um sucesso e agitou o público geral é chover no molhado e Ana como sempre foi um show à parte. Já pela meia-noite lá no Container, diretamente do Amazonas, a Luneta Mágica deu uma mostra de seu rock experimental, fazendo um dos melhores shows da noite.

Hora de voltar pro DoSol para conferir “o último show do Kung Fu Johnny” (só quem é fã da banda vai entender a piada). Brincadeiras à parte, a banda fez o que sabe de melhor. Um show enérgico, público vibrante, cantando as músicas e batendo cabeça encerrando os trabalhos do palco Spotify na sexta-feira. Mas o primeiro dia não acabou por aí, ainda teve o show do My Magical Glowing Lens, projeto da vocalista Gabriela Deptulski. A banda estava programada para abrir a noite, mas por um atraso na viagem, acabaram relocados para o encerramento e fizeram um showzasso, tendo como ponto alto o momento em que a Gabriela passou a guitarra por cima das cabeças do público, como quem evocava aos deuses do rock para que abençoasse aqueles dias de festival. E assim foi o primeiro dia de Festival DoSol.

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Kung Fu Johnny

Segundo Dia

Para o segundo dia de festival, um ressalva precisa ser feita. Com 40 shows programados pra noite (isso mesmo, QUARENTA), é humanamente impossível acompanhar todos, então o jeito foi fazer um roteirozinho e sair por aí vendo o máximo de shows possíveis. Começando pontualmente às 17 horas, a banda potiguar Hotel Dolores deu início a sua apresentação no palco localizado no Centro Cultural DoSol, ainda com pouco público no local. Inclusive, fica a dica ao público: na próxima cheguem cedo para ver as primeiras bandas. Geralmente são grupos menos conhecidos, mas que são tão bons ou até melhores que os nomes principais e você pode se surpreender. É o caso do da banda potiguar. Apresentando um repertório autoral, o Hotel Dolores fez um ótimo show que quem chegou cedo pra conferir não se arrependeu.

Abrindo os trabalhos do palco Petrobras, localizado no Armazém Hall, o trio goiano Overfuzz quebrou tudo, com um rock pesadão, nitidamente influenciado por bandas como Motorhead. Uma das melhores do estilo no festival. Voltando pro DoSol, já com um público bem maior, foi a vez de ver os potiguares da Talude, com seu rock experimental. Enquanto isso o Joseph Little Drop fazia seu segundo show no festival no Container.

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DuSouto

Nesse intervalo de tempo, resolvi voltar ao Armazém e me deparei com a banda gaúcha Identidade dando início ao seu show. Sabe quando você não espera muito de uma banda e acaba se surpreendendo muito? Pois então, das bandas que eu ainda não conhecia, Identidade foi a que eu mais me apaixonei. Mas também pudera, vinda de uma escola do rock com nomes como Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós e Os Replicantes, a Identidade fez um show de rock, sem falar da performance do vocalista Evandro Bitt. Muita atenção nessa banda.

Após o showzasso da banda Identidade, uma pausa rápida para o lanche e fomos até o palco Blackout, ver a banda potiguar Seu Ninguém, uma das revelações de 2016, indicada ao prêmio Hangar, principal premiação musical do RN. Sob o comando da pequena notável Luana Alves, a banda fez um show que podemos considerar como o lançamento oficial do seu EP Arrojo (que você pode baixar aqui). Já com um público cativo que não se resume mais aos amigos, as letras já estavam na boca dos presentes. Essa também é uma banda que merece muita atenção do público.

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Felipe Cordeiro

Voltando ao Armazém, hora de ver uma das bandas mais festejadas pela galera alterna de Natal, Luísa e os Alquimistas. O grupo apresentou as canções do disco Cobra Coral, talvez o principal lançamento fonográfico potiguar de 2016. O show foi um dos mais concorridos pelo público que lotou a casa e cantou do início ao fim. Logo em seguida no mesmo palco, foi a vez do paraense Felipe Cordeiro (o show mais aguardado por mim) colocar todo o público pra dançar com sua guitarrada. Com músicas que já viraram hits como “Problema Seu”, “Tarja Preta” e “Lambada com Farinha”, o Armazém ficou pequeno pro baile. Ao final, um recado bem apropriado para o momento: “Enquanto a gente puder cantar, haverá Brasil”. Aliais, o que mais se viu no Festival DoSol foi #ForaTemer e camisetas do Iron Maiden, com todos os modelos que você possa imaginar e os que você não conseguir imaginar também, o que prova que Steve e Cia são realmente os reis do merchandising.

Eu sei que alguns vão querer me crucificar por não ter ficado no Armazém para ver os shows d’O Terno e da Tulipa Ruiz, que pelos depoimentos dos presentes, foram shows maravilhosos, mas eu precisava matar a saudade de uma banda potiguar que não os via a quase dois anos, a Talma & Gadelha. Com músicas de seus três discos, o público que foi até o palco Cabo Telecom, localizado no Galpão 29 cantou do início ao fim, inclusive este que vos escreve. Em seguida, foi hora de bancar o cult e ver o show dos paulistas do Bike, com um som altamente psicodélico. Quem esteve presente nesse show, disse que viu gnomos voando pelo recinto. Eu prefiro não comentar sobre assunto.

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Bike

Enquanto isso, do lado de fora no palco Container, rolava o show surpresa dos brasilienses da banda Trampa. Confesso que fazia algum tempo que não via uma banda que unisse o som pesado com letras reflexivas e críticas. Como a banda se apresentaria novamente no domingo, deixa para acompanhar melhor a performance da banda no dia seguinte. Voltei ao Galpão 29 onde a banda potiguar DuSouto agitava a galera. Já bastante conhecida, o público lotou o Galpão e cantou os principais sucesso do grupo como “Fazendo a Kbça”, “Cretino” e “Aonde Está Meu Outro Par da Sandália Havaiana”.

Passando das duas da manhã, a banda pernambucana Mombojó subiu ao palco no mesmo Galpão 29 e fez o público cantar do início ao fim do show. Felipe S e Cia fizeram um show passeando por músicas de seus cinco discos, sendo uma das melhores apresentações dia/noite. Pra quem ainda tinha forças, o Bando das Brenhas encerrou a maratona de 12 horas corridas de shows do segundo dia de Festival DoSol. Era hora de tirar um cochilo e se preparar para voltar em algumas horas e acompanhar tudo o que o DoSol ainda tinha para oferecer.

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Talma & Gadelha

Terceiro Dia

Na lua maravilhosa das quatro da tarde em Natal, deu-se início aquele que seria o último dia do Festival DoSol no território criativo da Ribeira e coube a banda potiguar Bear Fight abrir os trabalhos na tarde de domingo. O recado continua valendo: cheguem cedo nos festivais, conheçam e apoiem as bandas. Vocês não se arrependerão. Definitivamente, um dia mais rock n roll que o sábado, pude ver dessa vez na íntegra, o show da banda Trampa, de Brasília. Todas as percepções que eu tive no dia anterior se confirmarão no domingo. Som consistente, letras muito boas e uma prova de que se no resto do mundo dizem que o rock morreu, em Brasília ele continua vivo.

Dando uma passadinha no Galpão para ver os caicoenses do Sertão Sangrento, apresentando seu punk terror. Essa entrou pra minha lista de bandas para ouvir com mais calma depois, mas gostei bastante do que eu vi no palco, fruto de longa caminhada que banda já possuí. Voltando ao Armazém, foi a vez de ver os cearenses do Selvagens a Procura de Lei. Primeiro eu tenho que dizer que tenho gostado cada vez mais do nome das bandas que tem surgido nos últimos tempos. Em segundo lugar, uma banda que consegue arrastar uma público considerável às 17h30 de um domingo merece muito respeito. Apresentando as músicas do seu novo disco, Praieiro, os Selvagens fizeram um show que agitou a galera e fez todo mundo cantar.

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Selvagens a Procura de Lei

Uma pausa pro lanche, que ninguém é de ferro, e já era hora de voltar rápido ao Armazém pra ver os baianos do Maglore. Depois de ouvir quatro bandas seguidas com um som mais pesado, o Maglore foi o momento de suavizar os ânimos. Já com um público cativo, a banda apresentou músicas do mais recente disco, mas também cantou canções dos trabalhos anteriores. Mesmo já conhecendo de nome, posso dizer que foi nesse show que eles me conquistaram.

Voltando pra som porrada, foi a vez de ver os potiguares do Five Minutes To Go, formada por integrantes do Camarones Orquestra Guitarrística, sendo que neste caso, todo mundo canta. Punk rock pra lá de objetivo (o disco do grupo tem nove músicas e 12 minutos de duração), essa é mais um lançamento com o selo DoSol de qualidade.

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Maglore

Retornando ao Armazém, hora de ver a dobradinha  Super Star, com Scalene e a banda sensação do Rio Grande do Norte, Plutão Já Foi Planeta. Acho desnecessário dizer que estes foram os shows mais concorridos da noite. Casa lotada, público ensandecido, cantando do início ao fim e o mais legal ainda foi ver a banda potiguar tocando depois da visitante (momento bairrista, me deixem!).

Após o show da banda intergaláctica, ainda deu tempo de ver os paulistas do Leptospirose quebrando tudo no Galpão 29, onde rolaram as melhores rodas punk do Festival DoSol que você respeita, com presença marcantes daquelas figuras caricatas que enriquecem o universo do hardcore nacional. Coube ao cantor capixaba SILVA dar o adeus desta edição do festival, com um show onde o público foi um espetáculo à parte. Sua voz serena deu o tom de saudade do DoSol que os presentes já estavam sentindo.

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SILVA

Se eu fosse apontar um problema do Festival DoSol, seria o fato de ficar na dúvida de qual show assistir, devido ao recheado cardápio de atrações. Este problema, eu espero que continue existindo. Creio que a mudança de local irá resolver as problemáticas quanto a estrutura e conforto, tanto para os artistas quanto para o público. Talvez o motivo maior do lamento seja pela própria Ribeira. Assim, como muitos centros históricos do país, as ruas e becos, onde Natal surgiu, carecem de atenção e não é exagero dizer que toda a equipe que faz o DoSol fez mais pela Ribeira nos últimos 15 anos do que o poder público nos 400 anos de Natal.

Vamos esperar pra ver o que vai acontecer. O que se sabe é que já existe uma grande expectativa para 2017. Festival DoSol na praia promete ser uma das melhores novidades do próximo ano. Nós aqui torcemos pelo sucesso e que ele continue sendo essa grande vitrine para a música alternativa e independente do Brasil. Até o ano que vem!

VIDA LONGA AO FESTIVAL DOSOL!!!

* Todas as fotos são de Abner Moabe. Na nossa página no Facebook você poderá ver muito mais.

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