Hell in Rio – O Rio precisava de um festival assim

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O ano de 2016 tem sido bem complicado para os fãs de metal.  Nossos ídolos morrendo, as “turnês de despedida” como a do Black Sabbath, as mudanças constantes no AC/DC (como a entrada polêmica do Axl Rose e a saída repentina de Cliff Willians), as casas de show mais icônicas fechando as portas… Mas, calma! Nem tudo está perdido!

Neste último fim de semana, o Rio de Janeiro recebeu um festival de dois dias de muito, mas MUITO METAL. E o mais bacana: Composto somente com BANDAS NACIONAIS!

Para muitos a escolha do local foi curiosa. Habituado a receber eventos de samba, o Terreirão do Samba foi uma escolha acertada, de fácil acesso, com boa diversidade de comidas e bebidas, tudo com preço bem justo. Coisa cada vez mais rara no Rio, aliás. Tecnicamente o festival também surpreendeu positivamente. Som bom, poucos shows atrasaram, nenhum imprevisto técnico, mesmo com a chuva que abriu o evento.

Aliás, falando em chuva, os primeiros shows de sábado foram debaixo d’água MESMO! Mas nada que impedisse que a clássica roda de pogo pegasse fogo durante as apresentações de Reckoning Hour e Perc3ption.

A grande surpresa do sábado foi o show eletrizante de O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos. Liderados por Mao, líder da histórica banda punk Garotos Podres, os caras tiraram todo mundo debaixo das pouquíssimas marquises do Terreirão para curtir de perto um show recheado de clássicos da banda de origem do Mao, como “Papai Noel Velho Batuta” e algumas canções novas. Todas com um tom político anárquico, com letras que evocavam os direitos da classe operária, incluindo o hino comunista “A Internacional”, o show do Dr Mao terminou em gritos de protesto contra facistas e políticos da mesma linha, como Bolsonaro. Polêmico e direto, foi um dos melhores shows dos sois dias de evento.

Em seguida, a banda de hardcore Oitão, do “Masterchef” Henrique Fogaça, chegou com o pé na porta, apresentando músicas como “Podridão Engravatada” e “Não Me Entrego Não”, do seu disco Pobre Povo. O show foi intenso, também de cunho político, com muitos fãs vestindo camisas da banda cantando todas as músicas à plenos pulmões… deu pra ver que esses paulistas precisam vir para terras cariocas mais vezes!

A noite chegou e casa encheu de vez pra assistir o show do Claustrofobia. E que show, amigos! Com solos de guitarra cheios de personalidade de Douglas Prado, a banda mostrou porque está há 22 anos na estrada e é um dos grandes nomes do metal do Brasil. Ainda fecharam fazendo um cover de “Children of The Dead”, do Black Sabbath. Se você ainda não os conhece, corre atrás!

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Oitão por Tuco

Bem mais melódico, a banda de heavy metal Hibria prezou pelo virtuosismo e pela técnica. Um show desses que dá até uma certa dorzinha no coração de não ter um telão para ficar prestando atenção nos dedos do guitarrista durante o solo, sabe? E acredite, os caras ainda esbanjaram misturando reagge, jazz e até samba em trechos instrumentais!

Então chegou o Dead Fish e a plateia inteira virou uma enorme roda com todo mundo cantando todas as letras dos clássicos da banda. Um show coeso, cheio de hits, que só sustentou a importância da banda, como um dos maiores nomes do hardcore brasileiro.

Na sequência, a banda Almah, de Edu Falaschi  (ex-vocalista do Angra) tocou para um público vidrado nos solos de guitarra de Marcelo Barbosa, cantando junto (sem conseguir acompanhar as notas altíssimas de Falaschi, claro) e em enorme sintonia público-banda. Um dos momentos mais bacanas da apresentação foi a participação do atual vocalista do Angra, , dividindo os vocais de “Nova Era”. Quem é fã chorou que eu sei!

Fechando a primeira noite… SEPULTURA. Em nova fase, sem Igor Cavaleira nas baquetas (agora ocupadas por Eloy Casagrande), a banda fez um show incrível! De fato se mostrou renovada. Evidente que não abandonou seus maiores sucessos, tocando “Roots Bloddy Roots”, “War For Territory” e “Ratamahatta”, mas foi demais ver o Sepultura tocando sua música nova “I am The Enemy”, do seu novo disco Machine Messiah que tem lançamento marcado só pra janeiro! RESPECT!

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Angra por Christian Rodrigues

Segundo dia

Domingo foi dia de muito sol, calor e metal no Terreirão! Os cariocas do Hatefulmurder, abriram com o único vocal feminino do festival! Quem não conhece Angélica Burns se impressiona com seu vocal gutural e sua presença potente no palco. Outa banda que vale a dica!! PROCURE SABER!!

Teve também o show da banda EROS, de um dos produtores do evento, Themis Barros, que voltou a a tia depois de 22 anos parada.

O show da banda de hardcore John Wayne trouxe de volta o cunho político dos discursos, mas dessa vez voltado justamente para o fortalecimento da cena. O vocalista Fabio Figueiredo explicou a importância tanto de eventos como o Hell in Rio, como da participação do público. Tanto do comparecimento aos shows, quanto do consumo dos discos. Project 46 também fez uma super apresentação autoral com apenas um trechinho de uma versão pesadona de “A Cidade” de Chico Science e Nação Zumbi. Além disso, a banda levou uma base de fãs de respeito, que cantou junto o tempo todo. Um daqueles momentos que a gente queria esfregar na cara de quem diz que o rock morreu!

Foi então que o Velhas Virgens subiu no palco e eu aproveitei pra ir descansar, comer alguma coisa… porque estamos em pelo 2016, num festival cheio de bandas levantando causas políticas e sociais construtivas e não dá mais pra ficar dando ouvidos para música machista, não é? O curioso foi reparar o movimento maciço de mulheres que fizeram o mesmo que eu. Se retiraram. Vale inclusive a lembrança de que, para permanecer vivo, o rock precisa agregar as mulheres, que representam uma grande fatia de seu público e musicistas.

Falando em polêmica, o show do Korzus teve também seu breve momento onde o vocalista Marcello Pompeu aproveitou para explicitar que não faz “white metal” e que sofre muitas críticas no meio. Fora isso, foi um show digno do título de espetáculo! Com sua carreira extensa, o repertório do Korzus é desses que o pessoal não consegue parar de cantar. Além de diversos momentos pra coro que agitaram todo o Terreiro do Samba. Por mim, eu estava lá até agora!

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Matanza por Christian Rodrigues

Chegamos ao único ponto polêmico da produção do festival: A alteração do headliner do domingo. À princípio após o show do Korzus, viria o Angra e quem fecharia a noite seria o Matanza. No próprio dia do evento, a organização alterou a ordem dos shows, fazendo com que o Angra fosse o headliner de fato. O Matanza tem uma fórmula de show que funciona muito bem em festivais. Pouca falação e muita música , já que o tempo em eventos como esse costuma ser reduzido, só música famosa uma atrás a outra como “Eu não gosto de ninguém”, “Mulher Diabo” e “Ressaca sem fim”… e Jimmy London lá com seu dedo indicador “conduzindo” a roda de pogo. Foi lindo! Não sei se foi porque era domingo, ou se pelo fato do Matanza ter um público muito fiel no Rio, mas foi perceptível a diminuição de público para o show do Angra.

De toda forma, o Angra tocou para uma plateia ainda muito cheia de fãs apaixonados. Era inegável o mar de camisas do Angra, de tatuagens com símbolos da banda… era um show muito esperado e, no fim das contas, foi um ótimo jeito de fechar este evento. Houve uma pequena confusão com o BIS, que acabou confundindo muitas pessoas que foram embora sem assistir a banda cantando “Carry On” com Bruno Sutter, que também era o apresentador do evento.

No geral a sensação era a mesma! Frases como “por mim tinha um evento assim por mês”, “podiam fazer mais festivais só de bandas brasileiras como esse…” e “O Rio estava precisando de um evento assim!”. Parabéns a toda a organização, aos envolvidos e a você, que mesmo no fim de semana do Enem, debaixo de chuva, colocou sua camiseta de banda, seu colete de patch e foi até o Terreirão do Samba prestigiar este super evento!

De fato, o Rio estava precisando de um evento assim!

Foto de destaque/ Matanza por Christian Rodrigues

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