MADA 2017: O Festival da Diversidade

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O ecleticismo do Festival MADA, também conhecido como Música Alimento da Alma, não é nenhuma novidade, mas em 2017, a diversidade atingu seus niveis mais altos, em todos os sentidos. Realizado nos últimos dias 29 e 30 de Setembro em Natal, na Arena das Dunas, o MADA realizou sua 19° edição. Considerando que o ano de 2017 tem sido bastante complicado para as ações culturais, que vem sofrendo com os cortes de patrocínio, o simples fato do festival ter conseguido ser realizado já pode ser considerada uma grande vitória.

Falando nisso, é importante dizer que a edição 2017 do MADA contou com o patrocínios da Skol, Coca-Cola, Vivo e Café Santa Clara através de renuncia fiscal da Lei Câmara Cascudo do governo do Estado. E da Arena das Dunas por meio da Lei Djalma Maranhão da Prefeitura de Natal. O festival conta com apoios da Sunline Turismo, Rede InterTV Cabugi, Jovem Pan Natal FM.

Ao todo foram 15 atrações, divididas nos dois dias de festival, que iam do rock ao funk, abarcando todas as tribos. Coube ao cantor Eliano da cidade de Pau dos Ferros, interior do RN, abrir a primeira noite. Ainda com um pequeno público presente, o cantor apresentou as canções de seu primeiro disco Ecdemomania, fazendo um show musicalmente muito bom. Uma pena para quem chegou depois.

Em seguida, vieram os paulistas do Deb And The Mentals, banda vencedora da seletiva do festival, onde o público escolhe entre as concorrentes, quem eles querem ver no palco do festival. O DATM chegou apresentando seu punk rock com uma performance vigorosa, mas que não me pareceu ter envolvido o público presente. Talvez se eles tivessem sido incluídos no segundo dia, onde tiveram mais atrações ligadas ao rock, talvez a resposta fosse melhor.

Já com um público maior presente, a banda Seu Ninguém, que tem tido um 2017 bastante produtivo, tendo se apresentado no Rio de Janeiro em Julho e é uma das atrações confirmadas para o DoSol em novembro, apresentou músicas do seu EP Arrojo, o novo single “Dois Quarteirões” e também mostrou canções do primeiro disco que está sendo gravado. Apesar da pequena estatura, a vocalista Luana Alves se torna uma gigante no palco e comandou o show com maestria. Destaque também para o guitarrista Matheus Ribeiro e seu virtuosismo.

Uma das atrações mais aguardadas pela turma daquilo que podemos chamar de linguagens urbanas, o rapper baiano Baco Exú do Blues não precisou nem de 30 segundos para causar uma explosão no público. A energia foi tão grande que o rapper não se conteve e desceu do palco duas vezes, indo cantar no meio do público. Em termos técnicos usados pelos potiguares, podemos dizer que o show foi simplesmente FUDEROSO. Primeiro ponto alto do festival.

Dando uma acalmada nos ânimos da galera, a carioca Mahmundi chegou trazendo a sua música com influências de black music e pop oitentista. Com momentos mais dançantes e outros mais apreciativos, Mahmundi foi conduzindo um dos melhores shows do MADA no quesito qualidade musical. Em alguns momentos, sua música soa até um pouco vintage, transformando a pista e o rockstage num verdadeiro baile anos 80.

Figurinha carimbada do festival, os potiguares da Plutão Já Foi Planeta se apresentaram pela primeira vez no MADA após o lançamento do disco A Última Palavra Feche a Porta. Dizer que o público cantou todas as letras do início ao fim é chover no molhado, mas o ponto alto da noite foi o final, quando um grupo de fãs foram chamados ao palco, utilizando máscaras com o rosto de Michel Temer e Jair Bolsonaro, para realizarem um beijaço, em protesto à decisão do juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, que liberou a ridícula terapia de reversão sexual, conhecida como “cura gay”. Mais do que necessário e importante ver artistas se posicionando publicamente de forma incisiva contra todos os retrocessos sociais e morais dos últimos tempos.

Aguardada com bastante ansiedade, a Banda UÓ subiu ao palco o que fez o que ela melhor sabe fazer: lacrou! Com seu já conhecido bom humor, o trio de Goiânia fez todo mundo dançar, pular, gritar e cantar todas os sucessos, como “Cremosa” e “Arregaçada” (inclusive, amo) em quase 1 hora e meia de show. Está de entre as 5 melhores apresentações desta edição do MADA.

Fechando a primeira noite, Nando Reis trouxe seu repertório de baladas românticas açucaradas, apresentando músicas do seu novo disco Jardim Pomar, sucessos de sua carreira solo e do Titãs, além das conhecidas parcerias dele com outros artistas. Por ser detentor de vários clássicos, o público cantou do início ao fim, mas eu tenho uma leve sensação de mais do mesmo na fórmula musica de Nando Reis, que pouco lembra a ousadia e criatividade dos tempos do Titãs. De qualquer forma, foi um ótimo show, principalmente para quem estava de casal (que não foi o meu caso).

Segundo Dia trouxe o melhor show do festival

Com o público chegando mais cedo do que no dia anterior, a banda Kung Fu Jhonny abriu a segunda noite do MADA. Já conhecida do público, a banda apresentou seu som e teve uma ótima receptividade, principalmente pela galera do rockstage, onde as camisetas pretas dominavam.

Vinda de Goiânia, a banda Carne Doce foi a segunda atração da noite, trazendo sua mistura de psicodelia e experimentalismo. Já conhecida de parte do público presente, o Carne Doce apresentou suas canções, principalmente as do segundo disco Princesa, lançado ano passado e considerado um dos melhores do ano.

Lançando seu quinto disco, Conecta, a banda DuSouto subiu ao palco pra fazer todo mundo dançar. Durante 1 hora de apresentação, a banda apresentou não apenas os clássicos, mas também reservou uma parte do show para mostrar ao público as canções do novo disco, que respondeu muito bem e ao que tudo indica, não demorará muito para as novas músicas estarem na boca do povo.

Repetindo a dose de 2016, a rapper curitibana Karol Conka foi a responsável por incendiar o público na segunda noite, não é a toa que o rap tem tomado cada vez mais o lugar da preferência da nova geração. Apresentando seus sucessos como “Tombei” e e “Lalá”, lançada em junho. Karol ainda presenteou os fãs com um cover da cantora britânica Amy Whinehouse. Esse também entra na lista nos melhores shows do festival.

Praticamente um patrimônio tombado do MADA, a baiana Pitty era uma das mais aguardadas pelo público. Com mais de uma hora de show, a cantora apresentou uma sucessão de clássicos da sua carreira, fazendo todo o público cantar, principalmente nas baladinhas românticas como “Na Sua Estante” e comprovando a tese de que os Indies de hoje são os emos do passado. Mas o ponto alto do show foram as surpresas, primeiramente com a participação da Karol Conka e em seguida do BaianaSystem que também iria se apresentar na mesma noite. Não é sempre que se tem a oportunidade de testemunhar esses encontros musicais.

Em seguida, foi a vez da drag queen mais bombada de Natal, Kaya Conky se apresentar no MADA pela primeira vez. Dona do sucesso “E aí bebê”, Kaya fez uma apresentação que animou o público, mas em se tratando de um festival de música, e preciso dizer que Kaya precisa lapidar melhor sua performance ao vivo no que diz respeito a cantar e dançar ao mesmo, principalmente com a respiração e o cuidado com a afinação. No mais, mérito por ser a primeira drag a se apresentar no palco do MADA.

Encerrando a noite e o festival, a banda sensação do momento BaianaSystem confirmou o que todos já sabem: é o melhor show do Brasil atualmente. Comandada pelo vocalista Russo Passapusso, o Baiana não deixou ninguém parado com o seu caldeirão de ritmos. A própria Pitty fez questão de ficar para curtir o show. Com direito a Fora Temer, salve à Darcy Ribeiro, além das críticas sociais presentes nas músicas, o BaianaSystem parece ter encontrado a receita de como unir animação com consciência social num único show. Dizer que foi o melhor show dos melhores do MADA 2017 é chover no molhado.

Se no início, o MADA vinha sofrendo críticas por parte do público por apresentar um lineup sem grandes novidades, considerando que Pitty e Nando Reis estiveram no festival em 2015 e Karol Conka em 2016, no fim das contas, o MADA parece ter acertado na aposta de trazer nomes que já se tinha uma certeza da resposta positiva do público. Como falei no início, em um ano complicado para tirar as ações culturais do papel, não se pode abrir muito a margem de erro e nesse ponto a produção do festival acertou. 2017 foi vencido e que venha 2018!

Fotos: Thaiany Alencar

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