Medulla — poesia e átomos em movimento

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De tudo quanto ficou dito no disco Deus e o Átomo da banda Medulla, a beleza poética de alguns desabafos foi o que mais me chamou a atenção.

Pelo seu caráter generalista e desiludido, esse sentimento simboliza o rumo geral das coisas no álbum: uma espécie de resignação cansada que podemos ouvir nas composições.

É como se não adiantasse muito cada esforço cotidiano, já que, como está na letra de Abraço “tudo que pode vai acontecer três segundos antes do seu olho ver”.

O Deus que dá nome ao disco não representa lá grande sinal de esperança, ficando mais para apego sentimental desanimado.

Deus e o Átomo foi produzido por Pedro Ramos Toledo que, muito inteligentemente, encontrou uma certa vértebra saliente e, de dentro dela, puxou do quarteto carioca uma veia aberta pela melhor fase de bandas brasileiras como O Rappa.

Os grooves funkeados — influenciados por um quê de hardcore, ao menos nos timbres de guitarra, são uma tônica do acompanhamento instrumental da obra.

O que faz com que os atómos desse álbum estejam todos em movimento, como nas melhores teorias científicas.

Uma grande qualidade desse quarteto carioca (que agora residente em São Paulo) parece ser a capacidade de não pecar pelo excesso, emoldurando a reflexão de suas letras com arranjos bem dosados e discretos, que não chamam demasiada atenção para si.

Parece até que houve um consenso entre Keops, Raony, Alex Vinícius e Tuti AC de que “o que foi seu sempre será mais do que qualquer um pode te dar”.  Ao criar os arranjos do disco, essa frase deve ter ecoado em suas cabeças.

Ou, ao menos, soou como tal.

Numa análise de conjunto, é um álbum consciente da poesia que tem, lançado num mundo indigno dessa poesia.

Mas isso é a dura luta entre o pensamento abstrato e um mundo de concreto, assunto para outra ocasião.

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