MELHOR DO QUE PARECE É TÃO BOM QUANTO PARECE

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Eu sempre achei que psicodelia, coisa inventada por americano, combina bem com a marotagem da música brasileira. Séria demais, fica parecendo onda pra tiozão careca do cabelo comprido. Nada contra tiozão careca do cabelo comprido, claro.

Ao contrário dos Estados Unidos, o Brasil não tinha culpa direta dos vietcongues mortos e pôde fazer um rock psicodélico menos ressentido e mais carnavalesco, nos anos 60 ou 70. Sei lá, também, que eu não era nem vivo nessa época.

Quer um exemplo de como dá pra fazer graça com esse tipo de música? “Culpa”, d’O Terno, joga um pouco de paranoia na cabeça de muito marmanjo acadêmico que não tem senso de humor. Na minha, jogou uma lufada de ideias. Eu também não taco tudo para o alto e, vira e mexe, me sinto culpado.

(Um esclarecimento: você que me lê pela primeira vez, não estranhe. Eu avalio música é assim mesmo. Porque crítica acadêmica não faz meu tipo. Nem as que leio, nem aquelas resenhas verbais que um pianista — amigo da gente — faz no bar, sem pagar nem mesmo uma bebida.

Deixa pra lá, bate na madeira. Toda vez que eu falo mal de acadêmico sonho que voltei pra faculdade).

Dito isto, voltemos às vacas frias: Melhor Do Que Parece é um disco que veste muito bem. Produzido pelo Gui Jesus Toledo junto com os músicos da banda — por sinal Tim Bernardes na guitarra e voz, Guilherme D’Almeida no baixo e Victor Chavez na bateria — o resultado é um tipo de alta costura e serviu como uma luva nas minhas emoções.

Convenhamos: poucas bandas criam metáforas sonoras tão lindas a partir de letras engraçadas e profundas.

Os arranjos acompanham muito bem esse humor irônico e autocomplacente das letras. Destaque para a faixa “Melhor Do Que Parece”, que é engraçada de um jeito só dela e da “Minas Gerais”. Dá até uma tristeza de ficar pensando nesse tédio que toma conta da gente, mineiro ou não, nessas horas.

Tem também um pouco de amor pra dar: a “Não Espero Mais” é uma canção apaixonada que mostra legal o conhecimento de causa do time todo por trás do disco. O Terno tem calça, sapato e paletó: composições, arranjo e produção.

Dar um pouco de amor no seu disco é importante. O tiozão careca, o acadêmico triste, o Tim, o Guilherme, o Victor e o Jarda aqui, todo mundo ama. Mas lembre-se: amor numa faixa ou outra, como fez O Terno, é bom. No disco inteiro, fica suspeito.

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