Milton Nascimento: uma travessia discográfica 1967 – 1979

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Desde a infância, Milton Nascimento está no meu imaginário. Achava divertida a melodia de “Bola de Meia Bola de Gude” e chorava com a história do amigo que se despedia do outro com a promessa do reencontro em “Canção da América”, além da celebração da amizade com “Coração de Estudante”. Só anos mais tarde o amor por Milton Nascimento se consolidou ao descobrir toda a obra e história do Clube da Esquina, quando passei a cultivar uma paixão pela música mineira como um todo. Desbravar a obra de Milton Nascimento era um desejo antigo que agora se torna realidade.

A voz dos hinos extra-oficiais do Brasil, Milton Nascimento é um dos pilares da música brasileira, ao lado de nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque. Principal expoente do Clube da Esquina, movimento que colocou Minas Gerais de vez no mapa musical do país, Bituca, como é chamado pelos amigos, possui uma obra que é matéria básica para todo e qualquer amante da música brasileira. Com mais de cinco décadas de carreira e uma extensa discografia, achei que seria interessante dividi-la para tornar a leitura menos cansativa. Sendo assim, neste primeiro momento delimitei o período de 1967 à 1979, fase onde Milton produziu discos históricos e por onde nós agora iremos passear. Sigamos juntos nessa travessia!

 

Segundo lugar no Festival Internacional da Canção, Travessia deu o nome ao primeiro disco de Milton Nascimento, lançado em 1967. Essa música também foi o marco inicial da parceria entre Milton e o poeta Fernando Brant, falecido em 2015, que compôs grande parte das letras eternizadas na voz de Milton. O disco também traz “Canção do Sal”, primeira música sua gravada por Elis Regina, “Morro Velho”, música favorita de ninguém menos que Belchior e que, assim como “Canção do Sal”, é uma das poucas letras escritas por Milton. Em 1968, Milton lança o disco Courage, praticamente uma versão do disco Travessia, lançado no exterior, já mostrando um reconhecimento vindo de fora do país para com Milton Nascimento.

 

Lançado em 1969, Milton Nascimento (também conhecido como Sentinela por ser a primeira faixa do disco) foi seu terceiro disco. Meu destaque maior vai para o lado B do disco que traz “Aqui, ó!”, música do Toninho Horta com Fernando Brant (essa parceria ainda renderia o clássico “Manuel, o Audaz”) e um das minhas favoritas, “Beco do Mota”, que conta a história do puteiro que ficava de frente a Arquidiocese de Diamantina. Milton conta ter apresentado essa música a Juscelino Kubitschek, num encontro casual entre ele e os amigos de clube com o ex-presidente.

 

E falando em Clube, podemos considerar que o disco Milton, de 1970, é uma espécie de embrião daquilo que viria a ficar conhecido como Clube da Esquina. Neste disco podemos encontrar o registro das primeiras composições de Lô Borges: Alunar, junto com seu irmão Márcio Borges, e o clássico “Para Lennon e McCartney”, onde Márcio divide as letras com Brant. Mas o destaque definitivo é a canção “Clube da Esquina”, que mais tarde ganharia o “1” no nome para diferenciar de sua irmã mais famosa. A música composta pelos Borges e Milton que começou a ser composta na esquina das ruas Divinópolis com a Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza em Belo Horizonte, seria o ponto de partida para o nascimento de um dos discos mais importantes da música mundial.

 

Falando nele, Clube da Esquina foi lançado em 1972 e assinado por Milton Nascimento e pelo até então desconhecido Lô Borges. Esse disco merecia um texto inteiro só para ele, devido a importância que ele tem para a música mundial. Uma mistura de Minas com Beatles, trazendo clássicos como “Tudo o que Você Podia Ser”, “Nada Será como Antes”, “O Trem Azul”, “Paisagem da Janela”, “Um Girassol da Cor de seu Cabelo”, “Nuvem Cigana”, “Cravo e Canela”, “San Vicente”, e a versão original (e instrumental) de “Clube da Esquina 2” (a versão com letra só seria gravada em 1979 por Lô Borges, em seu disco Via Láctea) entre outras tantas canções maravilhosas, sem falar de que este foi o segundo disco duplo lançado no Brasil (o primeiro foi o Fa-Tal, da Gal Costa) e traz uma capa simplesmente icônica. Disco de cabeceira dos maiores músicos do mundo e que, ao lado do Tropicália ou Panis et Circense, são os mais significativos da nossa música.

 

Lançado em 1973, Milagre dos Peixes é o disco mais experimental de Milton Nascimento. Quase todas as músicas do disco tiveram suas letras censuradas, sendo lançado mesmo assim e eleito pela revista Rolling Stone como o 63° melhor disco da música brasileira. Seu impacto foi tanto que no ano seguinte, Milton lançou Milagre dos Peixes Ao Vivo, ao lado da banda Som Imaginário, tendo meu destaque a canção “Pablo”. Ainda em 74, Milton é convidado pelo saxofonista Wayne Shorter para gravarem um disco juntos e assim, nasce Native Dancer, contendo músicas Milton como “Lilia” e “Milagre dos Peixes”.

 

Em 1975, Milton Nascimento lança o disco Minas. O nome vem da junção dos sílabas iniciais do seu nome. Minas é uma coleção de clássicos, começando por “Fé Cega Faca Amolada”, tendo a participação de Beto Guedes, “Saudade dos Aviões da Panair” (só a história por trás dessa música dá um texto), “Paula e Bebeto”, parceria de Milton com Caetano Veloso e aquela que eu considero como a mais bela melodia feita por Milton Nascimento, “Ponta de Areia”. Mais um que compõe a discografia básica da música brasileira.

 

Depois de um disco chamado Minas, nada mais justo que um chamado Gerais. Lançado em 1976, Gerais possui um ar mais interior, enquanto que Minas soa mais urbano. O disco abre com “Fazenda”, música do Nelson Ângelo, seguida de Calix Bento, musica da tradição oral recolhida por Tavinho Moura. O disco conta com as participações especiais de Mercedes Sosa (“Volver a los 17”), Chico Buarque (“O Que Será (a Flor da Pele)”) e Clementina de Jesus (“Circo Marimbondo”). Destaco ainda a canção “A Lua Girou”, mais uma da tradição oral que ganhou notoriedade na voz de Milton Nascimento. Embora os discos Minas e Gerais não sejam um a continuação do outro, ouvir os dois em sequência é uma experiência que eu muito recomendo.

 

Na década de 70, Milton Nascimento ainda lançaria mais dois discos voltados ao mercado internacional: Milton (1976) e Journey To Dawn (1979). Ambos trazem um time de músicas de muito respeito e várias versões de músicas de Milton em inglês. O disco de 76, traz duas inédias, “Raça” e a instrumental “Francisco”, já no disco de 79, o destaque vai para a versão em inglês de “Cio da Terra”, uma parceria de Milton com Chico Buarque, lançada originalmente no compacto Chico & Milton, em 1977, e  ainda “Unencounter”, que alguns meses depois, seria gravada no disco de estréia da banda 14 Bis com o nome de “Canção da América”. Ambos os discos trazem um Milton mais jazzístico, com uma atenção maior voltada para o lado instrumental e ambos valem a pena serem descobertos e ouvidos pelo grande público.

 

Último lançamento de fato de Milton Nascimento na década de 70, Clube da Esquina 2 é de 1978. Dessa vez assinado exclusivamente por Milton Nascimento, o disco traz uma seleção de músicas e convidados que fazem este álbum ser uma obra prima da nossa música. Pra começo de conversa, o disco traz “Nascente”, com a participação de seu compositor Flávio Venturini. Outro ponto alto do disco é em “O que foi foi Feito Deverá/O que foi feito de Vera”, onde reúne Milton Nascimento, Lô Borges, Elis Regina e Gonzaguinha. Outros destaques dos disco são “Canción por la Unidad de Latino America”, com a participação de Chico Buarque, Reis e Rainhas do Maracatu e o clássico “Maria Maria”.

No próximo texto, iremos dar sequência a obra de Milton Nascimento, indo de 1980 à 1995, época também de grandes discos. Até breve!

 

Top 5

1 – Clube da Esquina (1972)

2 – Minas (1975)

3 – Gerais (1976)

4 – Milton (1970)

5 – Clube da Esquina 2 (1978)

 

Discografia (1967-1979)

1967 – Travessia

1968 – Courage

1969 – Milton Nascimento

1970 – Milton

1972 – Clube da Esquina

1973 – Milagre dos Peixes

1974 – Milagre dos Peixes Ao Vivo

1974 – Native Dancer

1975 – Minas

1976 – Gerais

1976 – Milton (Raça)

1978 – Clube da Esquina 2

1979 – Journey To Dawn

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