Nara Leão: De Musa da Bossa Nova à Tropicalista

822
0
COMPARTILHAR:

Tendo participado ativamente de pelo menos três movimentos importantes da música brasileira, Nara Leão faria 75 anos hoje (19) se estivesse viva. Sua morte prematura aos 47 anos pôs fim a uma carreira cheia de idas e vindas, mas que deixou um precioso legado para cultura e toda a sociedade brasileira.

Filha da classe média carioca, o apartamento de seus pais hospedou o nascimento da Bossa Nova, estilo musical a quem lhe foi creditado o título de musa, tendo como parceiros seus futuros ex-namorados Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, Chico Feitosa e Carlos Lyra, que iria ter total influência na segunda fase de sua carreira.

Se aproximando do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes, que tinha como objetivo realizar produções artísticas de cunho político com uma linguagem popular, Nara Leão passa a cantar canções de protesto, sendo protagonista do espetáculo Opinião, juntamente com Zé Kéti e João do Vale. Mais tarde, ao precisar de uma substituta para o espetáculo por motivos de saúde, sugere uma moça que viu cantar em passagem pela Bahia. Os pais da moça só deixaram ela ir acompanhada do irmão. A moça em questão era Maria Bethânia e o irmão todos já sabem quem era.

Mesmo após o fim dos CPC com o Golpe Militar, Nara não deixou de se posicionar de forma incisiva contra a Ditadura. Quando provou a ira dos militares após uma entrevista em que declarou com todas as letras ser contra os militares no poder, chegando a ser amaçada de prisão, o poeta Carlos Drummond de Andrade apelou em sua defesa com o poema “Meu honrado Marechal, dirigente da nação, venho fazer-lhe um apelo: Não prenda Nara Leão!”

Venceu o festival de 66 interpretando “A Banda”, juntamente com Chico Buarque, autor da canção. É com Chico também que ambos iriam dividir a apresentação de um programa de TV, mas a timidez da dupla fez com que o novelista Manoel Carlos os apelidassem de “Desanimadores de Auditório”.

Foi convidada pela dupla Gil e Caetano a fazer parte do time responsável por gravar aquele que, para muito, é o disco mais importante da música brasileira: Tropicália ou Panis Et Circense, registrando sua presença e contribuição também no movimento tropicalista, mostrando toda a sua diversidade, não se prendendo a apenas um estilo musical.

Entre ameaças de censura e prisão por parte do regime, são muitas as idas e vindas de Nara entre o Brasil e o exterior, mas mesmo com o ritmo de trabalho desacelerado, nunca deixou a música, se mantendo ativa até o fim de sua vida, em 1989, vítima de um tumor no cérebro.

Quando olho para a carreira de Nara Leão, uma coisa me chama bastante atenção. Entre todas as grandes intérpretes da música popular brasileira, que surgiram nos anos 60 como Elis Regina e Maria Bethânia, Nara era a que tinha a maior limitação vocal. Sua voz sempre foi frágil, sem grande intensidade. Cantando como quem sussurra ao pé do ouvido, Nara eão fez mais barulho do que todas as outras vozes juntas.

COMPARTILHAR:

Comentários no Facebook