O 14 Bis e sua velha canção Rock ‘n’ Roll

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Creio que eu não estarei sendo leviano em dizer que quase todo mundo já ouviu uma música do 14 Bis. Herdeiros diretos do Clube da Esquina, o 14 Bis pode ser considerada como a principal banda do rock progressivo brasileiro. Formada por Claudio Venturini na guitarra e vocal, Sérgio Magrão no baixo, Vermelho nos teclados e Hely Rodrigues na bateria, além da presença do grande Flávio Venturini nos primeiros anos da banda e aqui acolá, quando a agenda permite, o 14 Bis tem características muito próprias, com um som sideral, músicos virtuosos e uma união de letra e música deliciosa de se ouvir e cantar, que só os mineiros sabem fazer. Essa semana, faremos um passeio pela obra da maior banda de rock de Minas Gerais.

Antes de mais nada, é importante dizer que o 14 Bis já nasceu como uma grande banda. Todos os seus integrantes já tinham experiência. Flávio e Magrão tocavam na banda O Terço (banda muito boa de rock progressivo ainda em atividade), Hely e Vermelho faziam parte do grupo Bendegó e o Cláudio era integrante da banda que acompanhava o cantor Lô Borges. Pegando carona na grande leva de lançamentos mineiros do final da década de 70 como Beto Guedes, Toninho Horta e o próprio Lô Borges, Flávio Venturini foi convidado a lançar um disco, mas preferiu não fazer isso sozinho. Reuniu esse time e assim nasceu o 14 Bis.

Com a produção de ninguém menos que Milton Nascimento, 14 Bis, foi lançando em 1979. Com uma forte e nítida influência de Beatles não só no 14 Bis, mas em toda a turma do Clube da Esquina, não teria música melhor para abrir o disco do que “Perdido em Abbey Road” e seguida por uma que acabaria se tornando um clássico e anos mais tarde, emocionaria o Brasil na despedida de Ayrton Senna, “Canção da América”, até então inédita, cedida por Milton e Fernando Brant para ser gravada neste disco. Além dessas duas canções, “Natural” também foi outro grande sucesso desse primeiro disco do 14 Bis.

Um ano depois, os mineiros lançavam 14 Bis II, que assim como o disco anterior, é repleto de músicas que se tornaram clássicos da música popular brasileira. A aura infantil de “Bola de Meia, Bola de Gude” abre o disco, seguida de outra música marcante, “Caçador de Mim” e logo em seguida, a abertura triunfante de “Planeta Sonho”, simplesmente a minha música favorita do 14 Bis, sem falar dos maravilhosos agudos de Flávio Venturini. É uma coisa meio futurística, meio esotérica que eu acho maravilhoso. “Nova Manhã” e “Carrossel” são outros dois grandes sucessos deste que, para mim, é o melhor lançamento da carreira da banda. É sempre válido destacar os belíssimos números instrumentais da banda, numa mostra de todo o virtuosismo de seus integrantes, com destaque para Cláudio Venturini, um dos melhores guitarristas do país.

Em 1981 foi lançado Espelhos das Águas, terceiro discos do 14 Bis. Neste disco, mais uma música de Milton Nascimento que se tornaria um clássico, “Nos Bailes da Vida”, praticamente um hino para todos aqueles que escolhem a música como o meio de ganhar a vida. Outra música de sucesso deste disco foi “Mesmo de Brincadeira”, um country bem divertido. Uma característica forte do 14 Bis é um universo de fantasia que permeia as letras do grupo. “Ciranda” e “Lua de Algodão” são ótimos exemplos disso que podemos encontrar neste disco.

No ano seguinte, foi a vez de Além Paraíso ser apresentado ao público. Este disco contém uma das músicas mais conhecidas do 14 Bis, “Linda Juventude”, uma verdadeira celebração aos anos dourados de nossas vidas. Outra ótima música que faz parte desse disco e eu gosto muito é “Uma Velha Canção Rock ‘N’ Roll”. Menos conhecida do público, “Romance de Amor” também é uma bela pérola do 14 Bis.

Concluindo uma incrível marca de cinco discos em cinco anos (os anos deviam ser mais longos antigamente), o 14 Bis lançou em 1983 A Idade da Luz. Nele iremos achar a música mais conhecida de toda a carreira da banda, a belíssima balada “Todo Azul do Mar” (eu choro ouvindo ela). Outro sucesso desse disco foi “Nave de Prata”, interpretada pela tecladista Vermelho, muito boa por sinal. Mas o meu destaque vai para “As Quatro Estações de Veja”, um instrumental de quase oito minutos de duração. Se alguém ainda tinha dúvidas, nessa música o 14 Bis mostra porque é a maior banda de rock progressivo do Brasil.

Lançado em 1985, A Nave Vai apresenta um 14 Bis experimentando novas sonoridades, como blues e new age. “Nuvens”, “Figura Rara” e “Outras Dimensões” são alguns exemplos dessa diversidade sonora apresentada neste disco, mas minha favorita é a ótima “Falso Blasé”, com os agudos de Flávio Venturini sempre maravilhosos.

Sete, lançado em 1987 tem como seu maior destaque, a participação ilustre de Renato Russo, apresentando uma histórica parceria entre o vocalista da Legião Urbana e o Flávio Venturini. Dessa parceria, nasceu a música mais motivacional que eu já ouvi, “Mais Uma Vez” (pra quê ler Augusto Cury quando se tem essa música, nenon?). Além desse encontro, “Canção Sem Fim” e “Chapéu de Sol”, “Sombra e Sol” também são ótimas músicas deste disco.

Após uma sequência incrível de discos de estúdio, era hora de um ao vivo e ele veio ainda em 1987. Trazendo os grandes sucessos da carreira do 14 Bis, Ao Vivo também traz o primeiro registro da banda interpretando o clássico Espanhola, que passaria a fazer parte definitivamente do repertório dos shows. Um dica: mesmo não tendo sido lançado, existe um registro audiovisual desse show, disponível no youtube, contendo ainda mais músicas do que no disco. Vale a pena dar uma sacada. Esse disco também marcou a saída de seu principal mentor, Flávio Venturini, para se dedicar à sua carreira solo.

Após alguns sem gravar novos trabalhos, Quatro por Quatro foi lançado em 1993. Já sem o mesmo espaço midiático dos anos 80, este disco acabou se tornando o álbum cult do grupo. Mesmo sendo o primeiro disco do 14 Bis sem a presença do Flávio Venturini, ele tem boas passagens como “O Fogo do Teu Olhar”, “Dona de Mim” e o instrumental “Filme B”, que abre o disco. Três anos depois, foi lançado Siga o Sol. Assim como o anterior, o disco acabou não tendo uma grande repercussão, mesmo sendo um ótimo álbum. “Vida Nova”, “Siga o Sol” e “Bandeiras” são algumas das boas músicas que tem neste disco, que vale a pena ser ouvido e descoberto pelo público.

Num período onde a moda era lançar acústicos, o 14 Bis não ficou de fora e apresentou ao público em 1999, Bis Acústico. Apresentando uma coletânea dos grandes sucessos do banda em versões desplugadas e algumas inéditas, este disco, assim como os demais acústicos, serviu para apresentar a obra da banda aos mais novos. Entre as canções inéditas, meu destaque vai para “Sonhando o Futuro”, uma parceria de Cláudio com o cantor Lô Borges. De longe, o melhor trabalho do 14 Bis nos anos 90.

Sempre foi nítido o flerte do 14 Bis com a música popular brasileira, até pela parceria com Milton Nascimento e Cia, mas essa relação ficou ainda mais evidente com o disco Boca Livre e 14 Bis Ao Vivo. Lançado em 2000, o disco reúne os dois grupos, conhecido pelo trabalho refinado, tanto instrumental como vocal, além da excelência do repertório. Com clássicos das duas bandas, este álbum com certeza faz parte da discografia básica da música popular brasileira e merece ser disco de cabeceira de qualquer amante da boa música.

Após 8 anos sem lançar um disco totalmente inédito, o 14 Bis lançou em 2004, Outros Planos. Este disco traz uma sonoridade mais próxima dos primeiros discos da banda, mas ao mesmo também, também faz um pequeno flerte com batidas eletrônicas. “Canções de Guerra” (minha favorita do disco), “Até o Dia Clarear”, “Sinais de Amor” e a faixa título, “Outros Planos” são algumas das músicas que eu posso destacar desse disco.

Último lançamento da banda até o momento, 14 Bis Ao Vivo foi lançado em 2007, 20 anos após o primeiro registro ao vivo da banda e reúne diversos clássicos da banda e músicas mais recentes, além de diversas participações especiais como o cantor Beto Gudes e Rogério Flausino, vocalista do Jota Quest, além do membro fundador Flávio Venturini, que obviamente não poderia ficar de fora. Este é um ótimo disco para indicar à alguém que vocês quer que conheça o 14 Bis.

Atualmente, o 14 Bis excursiona o país com o show comemorativo dos 35 anos de carreira (37 segundo os meus cálculos) e também com o espetáculo especial onde reúne a formação clássica e a dupla Sá & Guarabira. De repente, seria interessante um novo disco de inéditas, já que isso não acontece à 12 anos, mas de qualquer forma, a discografia que o 14 Bis ao longo dos anos, apesar de pequena levando em conta o tempo de carreira da banda, ela é composta de discos que se tornaram pérolas da música brasileira. O Brasil nunca foi o país do rock, e do rock progressivo muito menos, mas a junção com Beatles e Clube da Esquina foi a receita com os ingredientes certo para o 14 Bis levantar voo e conquistar admiradores em todo o país, que seguem a banda até os dias de hoje. Que a eterna linda juventude do 14 Bis siga tocando essa velha canção rock ‘n’ roll.

TOP 5

14 Bis II (1980)

Além Paraíso (1982)

14 Bis (1979)

A Idade da Luz (1983)

A Nave Vai (1985)

Discografia

14 Bis – 1979

14 Bis II – 1980

Espelhos das Águas – 1981

Além Paraíso – 1982

A Idade da Luz – 1983

A Nave Vai – 1985

Sete – 1987

Ao Vivo – 1987

Quatro Por Quatro – 1993

Siga o Sol – 1996

Bis Acústico – 1999

Boca Livre & 14 Bis Ao Vivo – 2000

Outros Planos – 2004

14 Bis Ao Vivo – 2007

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