O Ira! e sua receita pra se fazer Rock ‘n’ Roll

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Considerada por muitos uma banda “lado B” do rock nacional, o Ira! é um dos principais representantes da cena paulistana e tem seu nome gravado com uma das principais do BRock 80. Tendo os duetos entre Nasi e Edgar Scandurra e a cozinha baixo-bateria de Gaspa e André Jung como características principais da sonoridade da banda, encontramos ótimas canções ao longo da discografia do Ira!. Como hoje eu não estou afim de conversar muito, vamos logo ao que interessa.

Primeiro registro fonográfico da banda paulista, Ira (ainda sem o ponto de exclamação), lançado em 1983, é um single com apenas duas músicas, “Gritos na Multidão” e “Pobre Paulista”, que acabaram se tornando grandes sucessos da banda, e responsáveis por uma polêmica que a banda carregaria pelo resto da vida, devido aos versos “Não quero ver mais essa gente feia/Não quero ver mais os ignorantes/Eu quero ver gente da minha terra/Eu quero ver gente do meu sangue”, da canção “Pobre Paulista”, que fez a banda ser acusada de xenofobia. Embora sempre tenham negado, hoje em dia a banda não mais a executa nos shows. Além de sua raridade (existem comentários que nem os integrantes da banda possuem esse compacto), ele também é único registro que não foi feito pela formação clássica. Além de Nasi e Edgar, o baixo foi comandado por Dino e a bateria por Charles Gavin, que sairia da banda logo em seguida para se juntar ao RPM e em seguida, aos Titãs, onde ficaria até 2010. O sucesso das duas canções seria primordial para o primeiro LP da banda, lançado dois anos depois.

Em 1985, chegava ao mercado Mudança de Comportamento, primeiro disco completo da banda e agora contando com Ricardo Gaspa no baixo e o recém saído dos Titãs André Jung. O disco é repleto de músicas que se tornaram clássicos da banda como o hino anti-alistamento obrigatório “Núcleo Base”, “Longe de Tudo”, a faixa-título e “Coração”. Como os “Ponteiros de um Relógio”, que também se tornou uma música conhecida dos fãs da banda. Aqui a banda começa a apresentar uma sonoridade com menos influência punk e mais elementos da cultura mod. Essa influência também se faria presente no disco seguinte.

Considerado por muitos o melhor disco do Ira!, Vivendo e Não Aprendendo foi lançado em 1986 e contém aquela que talvez seja a música mais conhecida da banda, “Envelheço na Cidade” (a cada ano que passa eu me vejo mais na letra dessa música), além de ser um dos discos mais bem sucedidos da banda, comercialmente falando. Além deste clássico supremo, “Dias de Luta” e “Flores em Você”, onde Nasi canta acompanhado por cordas num belíssimo arranjo, são outros destaques do disco, mas o álbum inteiro merece ser apreciado. O disco também inclui duas versões ao vivo de “Gritos na Multidão” e “Pobre Paulista”, músicas do primeiro single da banda. “Quinze Anos” e “Casa de Papel” também merecem atenção.

Dois anos depois, 1988 para ser mais preciso, o Ira! lançou aquele que para mim é o melhor disco da banda. Considerado o disco cult da banda, Psicoacústica traz sonoridades diferentes, flertando com hip-hop, tendo em vista que Nasi e Jung haviam produzido aquela que foi a primeira coletânea de hip-hop do Brasil, o LP Hip-Hop Cultura, responsável por lançar, por exemplo, Thaíde & DJ Hum. Neste disco podemos encontrar “Rubro Zorro”, inspirada no Bandido da Luz Vermelha, “Receita Para se Fazer um Herói”, uma das minhas músicas favoritas da banda e “Advogado do Diabo” que era frequente nos shows de Chico Science e Nação Zumbi. Pouco atrativo comercialmente, Psicoacústica é uma das pérolas rock nacional que precisam ser descobertas pelo público.

Dando início a uma não muito fácil década de 90, Clandestino é lançado em 1990. Embora execrado pela crítica e não tenha sido feito num bom momento criativo do grupo, o disco possui bons momentos. Nele nós podemos encontra “Tarde Vazia”, bastante conhecida principalmente após o Acústico MTV, 14 anos depois. “O Dia, A Semana” e o Mês” e “Boneca de Cera” também são boas músicas deste disco.

Procurando se recuperar de um disco não muito bom, o Ira! lança no ano segui Meninos da Rua Paulo. Embora não tenha recebido a resposta esperada, comercialmente falando, o disco é bem melhor, com músicas como “Rua Paulo”, “Imagens de Você”, “Amor Impossível”, “O Tolo dos Tolos” e “A Etiópia dos Meus Problemas”. “Prisão das Ruas também” é uma ótima canção que merece ser apreciada.

Daqueles discos feitos apenas para cumprir o contrato, Música Calma Para Pessoas Nervosas foi lançado em 1993 e teve o orçamento de uma fita demo. Entretanto, o resultado dele me agrada muito mais do que os dois anteriores. Soando bem garageiro, temos “Arrastão”, “Pai Nosso da Terra”, “Campos, Praias e Paixões” e “O Homem é Esperto, Mas a Morte é Mais” como músicas de destaque deste disco, que marcaria o início da fase independente da banda.

Ao que me parece, ficar independente foi a melhor coisa que poderia acontecer ao Ira! naquele momento. Após uma sequência de discos não muito satisfatória, a banda lança em 1996 o disco 7. “É Assim que me Querem”, “Que Fim Levou Paris” e “Você Não Serve Pra Mim” são alguns dos destaques. É neste disco que encontramos a versão original de “Eu Quero Sempre Mais”, mais uma que se tornaria um sucesso graças ao Acústico MTV, e também “O Girassol “(acho fofa). Foi um reencontro total do Ira! com o rock ‘n’ roll característico dos primeiros trabalhos da banda.

10 anos após lançarem o experimental e maravilhoso Psicoacústico, o Ira! estava disposto a fazer um disco tão experimental quanto. Se no disco de 88 a banda flertou com o Hip-hop, dessa vez foi a vez de brincar com as batidas eletrônicas, assim como fez o Barão Vermelho em Puro Êxtase. E é isso que nós vemos em Você Não Sabe Quem Eu Sou, lançado em 1998. Minha favorita desse disco é “Miss Lexotan 6 mg”, de autoria do já saudoso Júpiter Maça, falecido no início desse ano. “Tantas Nuvens”, “Vou Me Encontrar” e “A Natureza Sobre Nós” são outras músicas que eu recomendo.

Embora eu não seja um fã de discos de covers, diferente do As Dez Mais dos Titãs, eu admito que Isso é Amor ficou muito bom. Lançado em 1999, o disco reúne músicas de nomes como Tim Maia, Chico Buarque, Ronnie Von, Lô Borges e Wander Wildner, que por sinal, foi a música de maior sucesso do disco, “Bebendo Vinho”. Este foi o disco que ajudou a trazer o Ira! de volta à mídia, sendo bastante aclamado pelo público.

Após nove discos de estúdio e um single, nada melhor do que um ao vivo para registrar o bom momento da banda, até porque, já estava na hora. Lançado em 2000, MTV Ao Vivo é um apanhado geral da carreira da banda, incluindo duas músicas inéditas, “Superficial”, que inclui os ótimos versos “era a oposição que nos atraia, eu tão socialista e você tão neoliberal” e “Vida Passageira”, uma emocionante homenagem aos nomes da música que partiram dessa pra melhor ao longo da década de 90, embora eu nunca tenha entendido muito bem o que ele quis dizer com “vou dar então um passeio pelas praias da Bahia, onde a lua se parece com a bandeira da Turquia”. Se alguém da Bahia estiver lendo esse texto, deixa aí nos comentários dizendo se a lua da orla baiana realmente parece com o desenho do símbolo pátrio turco. Brincadeiras à parte, um ótimo e merecido registro ao vivo. É aquele disco que eu indicaria para alguém que está conhecendo o Ira! agora.

Com toda certeza, um dos melhores discos de rock dos, não muito interessantes, anos 2000, Entre Seus Rins foi lançado em 2003. Resumidamente, é um disco de rock. “Entre Seus Rins”, “Milhas e Milhas”, “Naftalina” e “Homem de Neanderthal” são ótimas músicas deste disco, além de “O Tempo”, mas esse é daqueles disco que merecem ser ouvidos do início ao fim.

Como era de se esperar, o Acústico MTV foi e é até hoje o álbum mais vendido da carreira da banda e como também já é esperado, estou eu aqui pra dizer que este é um dos melhores acústicos do Brasil (mas é sério, gente). Com participações especiais de Pitty, Samuel Rosa e Os Paralamas do Sucesso, esse é com certeza o trabalho mais refinado em termos de arranjo e produção e inclui quatro músicas inéditas, “Pra Ficar Comigo”, “Poço de Sensibilidade”, “Por Amor” e “Ciganos”. Este disco foi responsável por apresentar a banda a um novo e diferente público, dando um gás novo ao trabalho do grupo.

Após o sucesso do Acústico MTV, a banda lança em 2007 aquele que é, até o momento, o último trabalho do Ira!. Invisível DJ é, assim como Entre Seus Rins, um disco de rock. “Eu Vou Tentar” e “Mariana Foi Pro Mar” foram os principais singles do disco, mas eu também destacaria “Culto de Amor”, “O Candidato” e a faixa-título “Invisível DJ”. Um disco com todas as características conhecidas do som que fez do Ira! uma das principais bandas do rock nacional.

Após anunciar seu fim em 2008 e um hiato de seis anos, o Ira” voltou aos palcos em 2013, contendo apenas Nasi e Edgar da formação original, e desde então, vem fazendo shows por todo o Brasil, com a promessa de um disco novo no ano que vem, para a alegria dos fãs de rock ‘n’ roll.

Embora tenha um guitarhero em sua composição, técnica nunca foi o forte do Ira!. Com um som pautado no tradicional guitarra-baixo-bateria, o Ira! nunca foi um campeão de vendas e talvez isso tenha feito com que a banda nunca se preocupasse com quais as regras e modismos estava sendo ditados pelo mercado no universo pop. O resultado disso foram discos que, embora alguns não tenham sido tão bem recebidos pelo público, foram bem sinceros. Era de fato o que a banda tinha a apresentar naquele momento. Se fossemos definir exatamente o que é o Ira!, poderíamos resumir dizendo que eles são, autenticamente, uma banda de rock ‘n’ roll.

TOP 5

1 – Psicoacústica (1988)

2 – Vivendo e Não Aprendendo (1986)

3 – Mudança de Comportamento (1985)

4 – 7 (1996)

5 – Entre Seus Rins (2003)

Discografia

Ira (1983)

Mudança de Comportamento (1985)

Vivendo e Não Aprendendo (1986)

Psicoacústica (1988)

Clandestino (1990)

Meninos da Rua Paulo (1991)

Música Calma Para Pessoas Nervosas (1993)

7 (1996)

Você Não Sabe Quem Eu Sou (1998)

Isso é Amor (1999)

MTV Ao Vivo (2000)

Entre Seus Rins (2003)

Acústico MTV (2004)

Invisível DJ (2007)

TagsIra!
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