Opinião: A arte que pacifica

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“As crianças brincam com a violência, nesse cinema sem tela que passa na cidade.” (“Milagres” – Barão Vermelho)

Hoje quando acordei, enquanto tomava uma xícara de café, liguei a TV e acompanhei algumas notícias sobre a chacina no presídio em Manaus. Alexandre Garcia vociferava raivoso, exigindo que o estado tome as devidas providências para resolver o problema da violência, que vem crescendo cada vez mais com o passar dos anos. Mas uma coisa que me chamou a atenção é que as medidas ali defendidas pediam aumento da segurança dos presídios, policiamento, coisas do tipo e aí, rapidamente me veio na cabeça o ditado que diz que é melhor prevenir do que remediar.

Não faz muito tempo que alguém, ao chegar no poder, quis extinguir o Ministério da Cultura. Por pressão da classe, acabou recuando, mas não é sobre o MinC que eu quero falar, mas sim, sobre como esse ato tem um significado simbólico para a importância que se dá (ou não se dá) aos movimentos artísticos e culturais, e o quando o seu poder de transformação é ignorado e subestimado.

Posso falar disso com uma certa propriedade, pois nasci, cresci e resido até hoje no bairro de Felipe Camarão, zona oeste de Natal, um bairro que costuma liderar os índices de violência da capital potiguar. Mesmo tendo uma família minimamente estruturada, com pai e mãe presentes, aos 10 anos alguém me apresentou uma flauta doce e aquilo foi determinante para os rumos que minha vida iria tomar dali pra frente.

Assim como eu, conheço vários exemplos de garotos e garotas que tiveram contato com a arte e, mesmo não seguindo um caminho artístico profissional (a grande maioria), aquele contato serviu para que pudessem não ser engolidos pelo monstro da criminalidade que assola a vida de quem vive no subúrbio. Entretanto, a maioria desses casos são feitos de ações realizadas por ONG’s, que só existem devido à ausência de assistência do poder público.

Até hoje, o ensino musical nas escola públicas não passou de um sonho e a falta de estrutura das mesmas prejudica em muito qualquer ação que um professor mais ousado queira fazer, fugindo do currículo tradicional do português e da matemática. Com muita sorte, a escola terá uma quadra, bastante deteriorada, para garantir que se tenha as aulas de educação física e só. Já cansamos de ouvir que a educação é a solução, mas é difícil salvar o mundo nessas condições.

Infelizmente, não dá pra esperar muito de quem considera dinheiro para educação um “gasto”, um gasto que poderia dar opções de caminhos a seguir, além da cadeia e do cemitério. O dinheiro investido na compra de um instrumento, traz um retorno social incalculável, mas a preocupação no momento é salvar o mercado financeiro. O jovem que morre todos os dias nos becos das favelas ou nos corredores dos presídios espalhados pelo Brasil não tem importância, afinal de contas, para boa parte da elite que comanda o país, são todos bandidos, e bandido bom…

Agora, estão todos quebrando a cabeça querendo achar uma solução para esse problema, e provavelmente irão querer resolver ele com mais violência. Acreditam eles que um homem fardado portando uma arma é mais poderoso que um professor segurando um giz ou um artista com seu instrumento. Estamos olhando na direção errada, indo no efeito ao invés da causa. Não é apenas o sistema carcerário que produz monstros, a vida do lado de fora sem acesso aos direitos básicos também, e o não acesso à arte é um direito negado todos os dias. Enquanto não se olhar com atenção para essa questão, continuaremos a assistir mais cenas desse tipo.

Uma vez, vi alguém postar no Facebook uma frase que resume bem isso tudo: onde faltam atividades culturais, a violência vira espetáculo.

*Foto retirada da internet

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