Os 50 anos daquela noite em 67

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Quando Solano Ribeiro se organizava para realizar o 3° festival da Música Popular Brasileira, no longínquo ano de 1967, é pouco provável que ele imaginasse estar, na verdade, organizando o cenário para um dos capítulos mais importantes da música brasileira e que iria reverberar até os dias de hoje, afinal de contas, numa época em que a música assumia um papel na programação televisiva que na década seguinte seria ocupado pelas novelas, o festival não passava de mais um programa.

Lançado em 2010, o documentário Uma Noite em 67, com direção de Renato Terra e Ricardo Calil, mostra com riqueza de detalhes dos os momentos marcantes da final do festival, desde a apoteótica virada dos até então futuros tropicalistas, até os momentos de maior tensão, tendo como principal deles, protagonizado pelo cantor e compositor Sérgio Ricardo que irritado com as vaias do público, quebrou o violão e o atirou na platéia.

Mas o que faz ou fez desse festival, algo tão importante para a música brasileira? Talvez, por colocar frente a frente toda a rivalidade, bastante alimentada pela TV diga-se de passagem, entre os nichos musicais existentes até o momento, principalmente entre a Jovem Guarda e a ala radical da MPB, composta principalmente de bossanovistas, que viam no uso da guitarra elétrica o primeiro sinal de influência norte-americana na cultura brasileira. Em meio a uma ditadura militar, a tensão política atingiu o meio musical de tal forma, ao ponto de se organizar uma passeata contra a guitarra elétrica.

No meio desse fogo cruzado, os ainda desconhecidos do grande público Caetano Veloso e Gilberto Gil, viam aquilo perplexos tentando entender se não seria possível que a música brasileira pudesse incorporar elementos que, na visão deles, apenas iriam enriquecer e trazer mais diversidade a música feita no Brasil. Por decisão política, ambos resolvem se apresentar no festival acompanhados de bandas de rock.

Cosmopolita ao extremo, Gilberto Gil interpreta Domingo no Parque acompanhando d’Os Mutantes, já dando a deixa do que no ano seguinte viria a se tornar o Movimento Tropicalista, enquanto que Caetano Veloso entrou acompanhado do banda argentina Beat Boys para cantar Alegria Alegria. Ambos conseguiram reverter a reprovação inicial da platéia e saíram ovacionados, tendo Caetano conquistado o quarto lugar, enquanto que Gil se sagrou Vice-campeão daquele festival.

Cantando uma de suas mais belas canções, Chico Buarque interpretou Roda Viva, junto com o grupo vocal MPB-4, mas a grande vitoriosa do festival foi Ponteio, parceria de Capinam e Edu Lobo, interpretado pelo próprio e por Marília Medalha. É curioso observar que, num festival onde Sérgio Ricardo num acesso de fúria quebrou seu violão, a música vencedora trazia os versos “Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar”.

No fim das contas, o festivais de música acabaram por determinar o que nós entendemos por Música Popular Brasileira, embora a amplitude de interpretação para esse termo, mas foram através deles que os principais pilares de nossa música foram consolidados. Talvez o grande trunfo desse festival de 1967 em especial, tenha sido mostrar que a música brasileira não precisaria ficar presa a uma estética, onde teria que se abrir mão de uma qualidade em nome de um discurso, mas que era possível abrir os horizontes, afinal de contas, nossa música é tão rica que seria um desperdício nos auto resumirmos à violão e pandeiro. Somos violão, pandeiro, piano e guitarra. Por isso que para os amantes de nossa música, é tão importante relembrar daquela longínqua e saudosa noite de uma primavera em 67.

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