Resenha: Mamelungos – ‘Esse é o Nosso Mundo’

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Mamelungos. Mamulengos. Memelucos. Mil e Uma Noites ao sol do meio-dia, mesmo quando a manhã mandou medir o passo, melodicamente a música mamelunga muda, evita o meio-termo entre o maracatu e Manu Chao. Pois entre tudo isso está o mundo rodando e a letra, pano para muita manga.

Para um residente comprimido do Sudeste feito eu — morar no Sudeste mais que oprime, comprime — o disco dos Mamelungos carrega uma aura pernambucana misturada e pura. Recife, é bom que se diga, é a cidade musicalmente mais cosmopolita do Brasil, porque lá não é todo mundo que bebe enlatado, come embutido e ouve embustes.

Eu nunca fui a Recife, e quando escutei esse álbum tive aquela sensação de estar em outro país. Bom, também nunca estive em outro país, talvez por isso essas duas coisas pareçam a mesma. Mas, na minha cabeça de mineiro aterrado e ensimesmado em montanhas intransponíveis, o Recife é um país maluco e distante, que sonho conhecer.

Muito por causa do Lula Queiroga — que está na música “Varandas” — de Lenine, Nação Zumbi, Maracatus de Baques Virados, de um sermão de Padre Antônio Vieira a Deus e aos holandeses e até da Dora de Dorival Caymmi, que andava “no Recife dos rios cortados de pontes do bairro das fontes coloniais”.

De toda forma, O Mamelungos cumpriu essa lacuna em mim, de materializar em sons minhas Mil e Uma Noites Nagôs.

Luccas Maia, WeréLima, Thiago Hoover e Peu Lima se misturaram a tantos nomes conhecidos na cena brasileira e pernambucana como o próprio Lula Queiroga, Marcelo Jeneci, Vanessa Oliveira, Flaira Ferro e Sofia Freire no seu álbum Esse é o Nosso Mundo e nos entregaram uma obra de realismo fantástico Caetano (eu ia escrever com letra minúscula, porque aqui é adjetivo).

Aperte o play aqui em baixo. Se você é do tipo teimoso-metódico-transcendente, vá no disco todo de uma vezada só. Se não, pule para a “Apneia”, veja a vista da “Varanda”, desça até “Buenos Aires” e, de lá, ganhe o mundo. Esse é o nosso mundo.

Depois de muito andar, ainda será Recife. Um pouco abaixo do Equador e acima de onde minha (sua?) vida começou.

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