Resenha: The Baggios -‘BRUTOWN’

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Fazer rock em português sempre desafia. Nossa língua tem uma musicalidade própria e é preciso fazer certas concessões para acomodá-la às melodias pragmáticas dos gêneros americanos.

Boa parte dos compositores que se deram a esse trabalho era do tipo que escreve a letra antes da música, creio eu. Fazendo assim foi que muitas bandas avultaram o rock e a poesia brasileira do dia a dia.

Ouvindo o novo disco do The Baggios, duo de Sergipe — isso mesmo, amigo, um duo. Se você já ouviu, se assustou agora, ao saber disso — me perguntei várias vezes se eles compõem a letra ou a música primeiro.

Eu tenho essa espécie de obsessão, desde as tardes em que me sentava com meu violão ainda adolescente procurando uma resposta sobre qual método seria o melhor.

Júlio Andrade e Gabriel Carvalho me deixaram sem uma decisão cabal. Em parte, creio que isso se deva ao fato de que, embora as letras sejam feitas com carinho e decência, são os arranjos do disco Brutown que ficam na memória afetiva da gente.

Timbres de guitarra sensivelmente influenciados por Tony Iommi, mas num Sabbath que descansa o corpo e bota a cabeça pra funcionar, trilhando um caminho semi-conhecido.

Ou semi-desconhecido, conforme você seja dos que preferem a metade cheia ou vazia do copo.

Noutros momentos, a gente tem a impressão de que Sá, Rodrix e Guarabira resolveram abraçar alguma influência de poesia de cordel e dar um molho valvulado e triste para o som deles.

Brutown tem também sua incursão súbita pelo funk e eu arrisco eleger “Vivo Pra Mim” como uma faixa-símbolo desse trabalho (do qual a melhor é a “Soledad”).

Isso não tanto pela representatividade que a música tem dentro do todo multifacetado do álbum, mas sim porque eu acho que, se os ventos do funk cruzassem mais vezes os mangues nordestinos, teríamos um pouco mais de frescor aqui no Centro-Sul.

Onde, por sinal, as cidades continuam brutas, líricas e poluídas.

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