Resenha: ‘TransmutAção’, BNegão e Seletores de Frequência

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Três anos depois do elogiado e premiado Sintoniza LáBNegão e Seletores de Frequência apresenta o seu terceiro trabalho, TransmutAção. Disponível para audição e download gratuito no Natura Musical, o álbum traz onze faixas com a produção de BNegão e Mario Caldato.

“Àgò”, música que abre o disco, dá o tom do que vem a seguir. Com a batida dos tambores de Alexandre Garnizé, os músicos com a sonora introdução pedem licença para entrar na cabeça do ouvinte. Para quem não sabe, Àgò é um termo comumente utilizado na Umbanda e significa pedir licença ou permissão, e também traduz perdão e proteção pelo que se está fazendo.

Dando continuidade o disco apresenta a faixa ‘Dias de Serpente’, um dub com forte representação dos tambores de terreiro. Com letras faladas em versos misturados a entonações que lembram os cantos de entidades guerreiras, como Oxumaré, Orixá da Umbanda que rege a renovação. A ela está associada a imagem do Oroboro, a serpente que morde a própria cauda formando uma circunferência, símbolo da continuidade, da eternidade. O que pode ser percebido no verso: “o que achamos que somos, células, ossos, carne, sangue, cromossomos, espíritos, que se movem, agora e sempre, realidade, dimensões, agora e sempre”.

A mistura de funk com rap já conhecida dos trabalhos de BNegão está presente na música “No Momento (100%)”, hit dançante que em sua letra chama a atenção para a novos ritmos que surgem cada vez mais na nova música brasileira. Em versos como ‘os tambores anunciam, pedem passagem (…) trazendo uma energia diferente, um batidão para começar uma nova aurora, recomeçar, trago informação sonora, pois a hora é agora, diz nova e velha escola, chegam junto para somar” fica claro a busca por novos ritmos e arranjos musicais..

A faixa instrumental “Surfin’ Astatke” de autoria do trompetista Pedro Selector, revela a combinação inédita do surf rock com referências ao gênio etíope Mulatu Astatke. A música agrada aos ouvidos de quem gosta do instrumento e dá uma quebra sonora-musical para as faixas seguintes: ‘No Amanhecer’ – uma gafieira animada, com arranjo bem trabalhado e letra que aborda a rotina diária das pessoas passeando por versos ora agitados, ora tranquilos – e a releitura de ‘Fita Amarela’, de Noel Rosa.

TransmutAção é um disco com hits dançantes, em que a mistura de funk, rap e tambores da Umbanda, dão total destaque a música negra universal. Com arranjos fortes e bem elaborados, e com letras que questionam a postura da sociedade atual e provocam o pensar das atitudes sociais, o trabalho tem tudo para agradar.

Os fãs de BNegão podem, em um primeiro momento, estranhar as novas composições, mas depois de ouvir todo o disco, acredito que entenderão e se renderão a nova mistura sonora proposta pelo artista e pelo grupo Seletores de Frequência.

Em um momento de fortalecimento da cultura e história dos negros no Brasil, o novo disco de BNegão e Seletores de Frequência, nasce em um tempo de questionamentos e mudanças e consegue dar ainda mais força ao cenário musical atual.

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