RIBEIRA 360º: Uma Celebração à Diversidade

1441
0
COMPARTILHAR:

Uma verdadeira celebração à diversidade de estilos e cores. É assim que poderíamos definir o que foi a primeira edição do festival Ribeira 360º, que rolou no primeiro final de semana de 2017, em Natal, comemorando também os 20 anos de revitalização do bairro da Ribeira. Num momento em que a cidade tem vivido um efervescente debate sobre a valorização da música produzida na terra de Cascudo – sendo tema de campanha publicitária na TV e no Rádio – nada melhor do que um festival de verão com um line-up formado exclusivamente por cantores e bandas do RN.

Existia uma expectativa sobre qual seria a resposta de público, pois Natal sempre teve fama de ser uma cidade avessa a música produzida aqui, mas o resultado foi simplesmente surpreendente. Público tão bom quanto ao tradicional Festival DoSol, que inclusive, não mais será realizado no bairro da Ribeira, e esse novo festival ocupará muito bem o espaço, passando a ser uma alternativa para o mês de janeiro, onde pouca coisa acontece na cidade.


DuSouto e a banda Grafith por Amanda Costa

Além do palco principal, localizado na largo da Rua Chile, em formato 360 graus, o Ateliê, recebendo as bandas que fazem parte da REMUIN – Rede de Música Independente de Natal, e o Galpão 29 onde rolou as discotecagens, também foram espaços musicais do festival. A mais nova casa da cidade, o The Alchemist, recebeu o after do evento. Acho válido numa próxima edição, a discotecagem ser realizada no Ateliê e as bandas tocarem no Galpão 29, por motivos de espaço. Nos shows do Joseph Little Drop e Seu Ninguém, o lugar ficou pequeno, mas é apenas uma sugestão.

Outra coisa que mereceu destaque foi o preço do ingresso. 20 reais a inteira e 10 a meia. Fazia muuuuuuuuuito tempo que não via um evento tão barato e sem dúvidas, isso foi essencial para o sucesso de público do festival. Sobre as atrações especificamente, poucas vezes se viu um festival tão eclético, onde fomos do samba ao heavy metal.

Os Shows – sábado


Mad Dogs por Amanda Costa

Com quase uma hora de atraso, normal para um primeiro dia de evento onde ainda se está organizando a casa, a banda Mad Dogs abriu os trabalhos com muito rock ‘n’ roll. Já tradicional na cidade, a banda animou a galera que chegou cedo à Ribeira, enquanto o cantor Veiga apresentou suas canções no palco Remuin, muito boas por sinal. Uma grata surpresa desse festival!

Segundo show da noite no palco principal, a cantora Camila Masiso fez um show pra lá de brasileiro. Trazendo musicas de seus dois discos, o show teve seu ponto alto no belo coral que o público fez na música “O Amor”, que já se tornou um hit. No Ateliê, a banda Seu Ninguém deu mais uma prova do porquê é um dos melhores nomes da nova safra do rock potiguar. Dentre os shows da banda que eu já tive a oportunidade de ver, esse foi com certeza o melhor, com o espaço lotado e público cantando praticamente todas as letras, mostrando que aos poucos, a banda tá conquistando seu espaço no coração dos potiguares.


Seu Ninguém por Amanda Costa

Dizer que o show de Khrystal foi pressão total do início ao fim é chover no molhado. Apresentando principalmente seu mais recente trabalho Não Deixe pra Amanhã o que Pode Deixar pra Lá (melhor nome de disco de 2016), além de outras canções que já caíram no gosto do público, Khrystal deu um show de brasilidade, fazendo uma das melhores performances do festival. Sem falar da banda que a acompanha, que é um show à parte, com destaque para o baterista Darlan Marley.

No Palco Remuin, o rapper Daniel GetUP mandou ver no seu rap cheio de poesia e conscientização, com direito a crítica social e um #ForaTemer pra não perder a tradição. Já no largo da Rua Chile, a banda potiguar mais internacional que existe, o Camarones Orquestra Guitarrística, dava seu show, com um público já fiel que só não cantou tudo, porque as músicas são instrumentais (eu sei, essa foi péssima).


Khrystal por Amanda Costa

Cada vez mais conquistando o público potiguar, a banda Skarimbó fez todo mundo suar de tanto dançar. Enquanto que do lado de fora, a banda destaque potiguar de 2016 Plutão Já Foi Planeta fazia o seu show. Em sua apresentação o quinteto deu uma amostra das músicas que virão no próximo disco, mas que já estão na boca do público. Além das novidades, as músicas do primeiro álbum também entraram no setlist. A performance foi o momento mais pop da noite.

Enquanto a discotecagem rolava solta no Galpão 29, no palco 360 foi a vez da banda General Junkie chegar metendo bronca, sem saber quem vai pagar a conta. Particularmente, era o show que eu aguardava com mais ansiedade, por se tratar de uma das bandas lendárias do rock potiguar, onde sua história se confunde com a própria revitalização da Ribeira, e por ter proporcionado o único show de Chico Science e Nação Zumbi em Natal, no ano de 1994. Pra quem viveu a época, foi como voltar no tempo e pra quem, assim como eu, não viveu, foi uma oportunidade de ouro de ver os coroas no palco.


Camila Masiso por Amanda Costa

Em seguida, foi a vez da principal banda do rock potiguar, do presente. O Talma e Gadelha fez um show repleto de participações especiais, que aparentemente não estavam programadas, transformando a apresentação praticamente em um sarau. Filipe Marcus da banda Joseph Little Drop e Luana Alves da Seu Ninguém (repetindo o feat. do festival DoSol) subiram ao palco, e como era noite de relembrar os velhos tempos da Ribeira, Khrystal se juntou a Simona Talma e Luiz Gadelha, trazendo de volta uma canção do projeto Retrovisor, que incluía além dos três, as cantoras Ângela Castro e Valéria Oliveira.

Já passava das quatro da manhã quando Luísa & os Alquimistas subiram no palco e fizeram o show mais esotérico do festival. O show contou com diversos efeitos especiais de ordem natural. O céu escureceu, choveu, estiou, o céu limpou e o sol nasceu, tudo isso durante a apresentação, que contou com as músicas do disco Cobra Coral e um cover da Banda Djavú (e DJ Juninho Portugal), encerrando o primeiro dia do Ribeira 360. Era hora de tirar um cochilo e voltar logo mais pra conferir o que o festival ainda tinha para oferecer.

Encontro entre DuSouto e Grafith é o destaque do segundo dia


Dudu Aires e Rastabrothers por Amanda Costa

O segundo dia de Ribeira 360 coube a Dudu Aire e Rastabrothers dar inicia aos trabalhos no palco principal, trazendo bastante reggae, já pra dar o clima de uma noite que prometia ser épica. Lá pra frente vocês vão entender o porquê. Enquanto isso, a cantora Joana Knobbe apresentava o seu trabalho no palco Remuin, no Ateliê Bar.

MC Priguissa deu sequência à festa. Figura já bastante conhecida, Priguissa fez todo mundo dançar com suas músicas que servem de ótimo tutorial para ensinar aos amigos de outros estados todas as gírias que nós potiguares costumamos usar, como “Essa Boe” e “Esse Homi é um Galado”. Enquanto isso, dobradinha psicodélica no Ateliê, com as bandas Igapó das Almas e Talude, que já possuem um público cativo e sempre acompanha as bandas em suas apresentações.


MC Priguissa por Amanda Costa

Voltando ao palco principal, a banda Rosa de Pedra trouxe a sua tradicional mistura de rock com coco, maracatu e candomblé, fazendo todo mundo dançar, bater cabeça, baixar o santo, cantar junto e fazer uma ciranda de 360 graus em torno do palco. Show perfeito pra ninguém botar defeito, mostrando mais uma vez o porquê do Rosa de Pedra ser uma das bandas mais ovacionadas e queridas do público potiguar. Após o Rosa de Pedra, foi a vez da banda DuSouto, mas eu vou deixar pra falar desse show no final, beleza?

Na parte final do festival, as guitarras distorcidas ditaram o ritmo. Enquanto a banda Expose Your Hate quebrava tudo num trash metal pesadíssimo no palco principal, o Joseph Little Drop mandava ver no punk rock, no palco Remuin, com suas letras escrachadas e já com um público cativo, que canta todas as músicas. Já era segunda-feira quando a banda de power metal Deadly Fate subiu ao palco principal para “encerrar” o festival (ainda tinha o after do after, mas eu não tive estrutura pra aguentar), fazendo um show digno de uma grande banda.


DuSouto  por Amanda Costa

Uma das coisas mais legais de um festival tão eclético assim é que a gente vê metaleiro rebolando a raba descendo até o chão, e indie alternativo batendo cabeça e entrando nas rodas de polga. Simplesmente maravilhoso. E por falar em rebolar a raba, desculpa o transtorno, mas agora assim iremos (precisamos) falar sobre o show da banda DuSouto.

Verdade seja dita, apenas a banda DuSouto no palco já garantiríamos a realização de uma grande show, porém, durante a semana que antecedeu o evento, foi anunciado que haveria uma participação especial, que simplesmente deixou todos (todos mesmo) extremamente ansiosos. Já no sábado, não se falava em outra coisa. Todos queriam ver o encontro das bandas DuSouto e Grafith no palco.


DuSouto e a banda Grafith por Amanda Costa

Se você não é do Rio Grande do Norte, talvez não tenha noção da dimensão disso. Em atividade a quase 30 anos, a banda Grafith é o grupo de maior sucesso, principalmente nas camadas populares, em todo o Rio Grande do Norte, e também nos estados vizinhos. Sendo uma banda baile, o grupo é conhecido tanto pela swingueira quanto pelos tradicionais flash backs.

O DuSouto faz uma mistura de batidas eletrônicas e letras de apelo bastante popular, sendo uma das mais queridas do estado e já tendo se apresentado no, agora extinto, Programa do Jô. Tendo em vista o estilo da banda, posso dizer sem medo de errar que, se as rádios da cidade tocassem a música produzida na cidade, o mesmo público da banda Grafith seria também do DuSouto. Logo, essa jam prometia ser, no mínimo, épica.

E foi mesmo. Logo após as duas primeiras músicas, já era hora de chamar os irmãos Júnior e Joãozinho ao palco, e mandarem um set de três músicas, sendo elas “Go Pato (Pato Banton)”, “Jungle People (Soulful Dynamics)” e o tradicional cover de “Another Brick in the Wall”, da banda Pink Floyd. Da mesma forma que não existe metaleiro quando toca Raça Negra, também não existe cult/alternativo quando toca Grafith. Creio que esse momento de união de todas as tribos foi o que melhor representou esse festival, que já deixou saudades pra quem esteve presente.

2017 mal começou e já tivemos o melhor rolê do ano, aqui em Natal. Embora ainda tenhamos um DoSol e um Mada pela frente, o Ribeira 360 provou que existe público pra música potiguar e que tem espaço pra todo mundo e todos os estilos. Houve alguns problemas de organização, principalmente no primeiro dia, mas nada que colocasse em risco o sucesso da festa, e creio que esses problemas serão corrigidos nas próximas edições.

No mais, muito bom ver a música potiguar conquistando seu espaço, mesmo sem terem seu trabalho divulgado nas programações da grande mídia, e aos poucos desfazendo a maldição de que Natal não consagra nem desconsagra. Que venham mais e mais festivais e vida longa ao Ribeira 360.

COMPARTILHAR:

Comentários no Facebook