São João: cultura para além do evento

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Cultura. Do latim colere que tem por significado cultivar, criar e cuidar. De início, o termo se referia as questões ligadas a agricultura e com o tempo, passou a significar o modo de vida de um povo, com suas crenças, tradições, costumes e expressões artísticas, sendo esse último o mais lembrado quando se menciona a palavra cultura. Nunca tendo sido levada muito a sério, seja por gestores públicos, seja pelo próprio povo, como reflexo de uma formação social baseada na mídia de massa, presenciamos neste mês de junho um embate que tratou de jogar lenha na fogueira de um antigo debate que sempre reacende durante o período junino, mas que esse ano tomou proporções nunca antes vistas.

Tudo começou quando os músicos Joquinha Gonzaga e Chambinho do Acordeom deram início a campanha #DevolvamOMeuSãoJoão. A cantora Elba Ramalho fez coro e questionou durante um show, a programação do principais festejos juninos, composta majoritariamente por cantores de sertanejo, diminuindo o espaço para os representantes do forró. A cantora Marília Mendonça resolveu defender sua classe afirmando que estava ali por uma questão de qualidade e que na festa, toca quem o povo quer. Alcymar Monteiro resolveu dar o tom mais bélico ao partir pra cima da sertaneja e chamou sua música de “breganejo horroroso”, “porcaria” e “música para cachaceiro”. Estava armado o fuá na casa de Cabral.

Antes de mais nada, é preciso pontuar duas coisas nessa troca de farpas. A primeira é que Elba Ramalho em nenhum momento disse que o São João deveria ter exclusivamente forró, mas que era preciso ter mais equilíbrio na programação, o que eu particularmente concordo. O segundo ponto é que, Marília Mendonça dizer que na festa toca “o que o povo quer” é uma inverdade. É notório o grande lobby que existe por trás desse mercado que envolve o sertanejo, onde o jaba reina e faz com que uma mesma música toque exaustivamente nas programações de rádios populares, onde quem não costuma ouvir outros sons, logicamente só irá “querer” ouvir aquilo que se ouviu na rádio. Obviamente, isso é reflexo de uma não regulação dos meios de comunicação, que no Brasil são dominados por algo em torno de 10 famílias, o que mostra o quão não-democrática a mídia de massa é nesse país. Dizer que o que toca é o que o povo quer ouvir é no mínimo leviano.

Deixando agora a troca de farpas de lado, é preciso entender que o São João é muito mais do que uma festa de prefeitura. Diferente da Festa de Peão de Barretos, uma festa privada existente a cerca de 60 anos, mas que só a partir dos anos 80 se tornou conhecido nacionalmente, o São João é uma tradição de séculos, herança portuguesa e patrimônio cultural brasileiro. Uma festa de raiz cristã que festeja os santos Santo Antonio, São João e São Pedro e que possui o seu lado profano, com as danças, fogueiras e comidas típicas. No início, ninguém “ia pro São João”, a brincadeira era perto de casa, organizada pelos próprios vizinhos, dando o caráter genuinamente popular a festa.

A partir dos anos 90, as boates Palladium, de Caruaru e Spazio, de Campina Grande começaram a organizar grandes festas privadas durante o período junino, atraindo visitantes de outras localidades. Dava-se início a rivalidade entre Caruaru e Campina Grande pelo título de “maior São João do Mundo”. Mas a briga não era entre as cidades, e sim, entre as empresas. Com o movimento turístico cada vez maior, as gestões municipais resolveram assumir de vez a organização da festa e passaram a financiar mega shows no meio da praça com o dinheiro público, trazendo atrações que não necessariamente tinham a ver com a festa, mas que estavam em evidência na grande mídia, transformando o São João numa festa pra inglês ver, com o argumento de estar “promovendo cultura”, quando o único objetivo são os números de pessoas que vieram a cidade, apenas interessadas nas atrações, nem aí para o que seja São João.

Agora vamos voltar ao significado da palavra cultura: do latim colere que tem por significado cultivar, criar e cuidar. O que percebo nessa história toda é uma falta de entendimento por parte dos próprios artistas. Toda essa discussão girou entorno da programação de festa de prefeitura, talvez pelo fato de que os artistas estejam muito mais preocupados em fazer show e do que com formação, já que com o tempo se convencionou que promover cultura é fazer show, enquanto que outras questões que vão desde a educação ao direito a cidade são completamente ignoradas e que estão ligadas diretamente a promoção e a tão debatida preservação cultural do nosso povo.

Quando uma festividade é cultivada, criada e cuidada por um povo, como nos primórdios onde os vizinhos e amigos se juntavam, num momento de confraternização e alegria, mesmo que para alguns o caráter religioso não tivesse importância, existia um significado para aquele grupo e é isso que faz uma festa ser considerada cultura. Uma festa de prefeitura onde a cidade entope de pessoas que vieram porque tal cantor da TV estará presente, não passa de só mais um evento do calendário.

Talvez isso tudo seja um reflexo da fragilidade educacional, onde não se aprende o que seria aquilo que chamamos de identidade cultural, renegada por nós mesmos muitas vezes pela simples falta de conhecimento e reconhecimento de quem somos, e entender que temos algo valioso para criar (a cultura não é imutável), cultivar e cuidar. Se devolver o São João é apenas colocar forrozeiros em cima de um palco no meio da praça, estaremos reduzindo não só uma tradição milenar como toda a riqueza cultural de nosso povo a um evento, que como o vento, vem e vai e nada fica. Se quiserem de fato debater os rumos de nossa cultura, não podemos enxerga-la como uma mera atração turística, afinal de contas, o turista também vai e vem e quem fica é quem de fato precisa reconhecer o que lhe pertence, pois é a cultura que tem poder para fazer um povo forte.

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