Um poeta exagerado meio bossa nova e rock n roll

COMPARTILHAR:

Poucas pessoas conseguiram se tornar relevantes dentro cenário musical, tendo uma obra pequena. Agenor de Miranda Araújo Neto, eternizado como Cazuza foi uma delas. Tendo lançado apenas 5 discos em vida, mas 3 ao lado do grupo Barão Vermelho e mais um póstumo, Alcançou o status de poeta do rock nacional, embora sua musicalidade tenha extrapolado o gênero, tendo alcançado o respeito e reconhecimento dos grandes nomes da música brasileira, até como reflexo por Cazuza ter bebido muito mais da fonte da música popular do que do próprio rock. Hoje na Maratona Discográfica, iremos conhecer um pouco da obra desse nome que quase 30 anos após a sua partida, continua sendo cultuado por tudo o que nos deixou.

Acompanhado de Roberto Frejat, na guitarra, Maurício Barros nos teclados, Dé Palmeira no baixo e Guto Goffi na bateria, Cazuza lançou em 1982 o disco de estréia do Barão Vermelho, que trouxe o nome do grupo como título do disco. Com um rock n roll sujo, o disco traz músicas que com o tempo se tornariam clássicos como “Down em Mim” e “Bilhetinho Azul”. “Posando de Star” que abre o disco é a minha favorita e “Todo Amor que Houver Nesta Vida “acabaria sendo o passaporte pro sucesso ao ser cantada por Caetano Veloso em um show. Embora o disco tenha sido um fiasco de vendas, o reconhecimento do ex-tropicalista asseguraria ao grupo a gravação do segundo disco.

 

Barão Vermelho 2 chegou ao mercado em 1983, tendo sido mais bem produzido e trazendo ótimas músicas como “Menina Mimada”, “Largado no Mundo” e “Carne de Pescoço”. Mas foi com a regravação quase que a queima roupa da música Pro Dia Nascer Feliz por Ney Matogrosso que o Barão Vermelho passou a ser reconhecido nacionalmente e parceria Cazuza e Frejat se consolidou de vez, sendo uma das mais festejadas do rock nacional.

 

Já conhecida do grande público, Cazuza e o Barão Vermelho lançaram em 1984 o terceiro disco, Maior Abandonado, recheado de clássicos, a começar pela faixa-título, seguido de “Por que a Gente é Assim” e “Bete Balanço”, que havia feito parte da trilha sonora do filme de mesmo nome. O sucesso do disco credenciou a banda a se apresentar na primeira edição do Rock in Rio, em janeiro de 1985. No show do dia 15 de Janeiro, mesmo dia em que Tancredo Neves foi eleito de forma indireta para a Presidência da República, ponto um fim aos 20 anos de governos militares, Cazuza encerra o show com a célebre fala durante os acordes final de “Pro Dia Nascer Feliz:  Que o dia nasça lindo pra todo mundo amanhã. Um Brasil novo, com essa rapaziada esperta”.

 

Durante as gravações do quarto disco do Barão Vermelho, Cazuza se desliga do grupo, por querer uma liberdade maior para cantar outras coisas e é ainda em 1985 que ele lança o seu primeiro disco solo, intitulado Exagerado, música que abria o disco e que ele fez se referindo ao produtor e amigo Ezequiel Neves, mas que acabaria por se tornar um adjetivo dele próprio, que carregou consigo até o fim de sua vida. Além da faixa-título, o disco traz a singela “Codinome Beija-Flor”, onde Cazuza canta acompanhado de piano e cordas, “Mal Nenhum”, uma parceria dele com Lobão e “Só as Mães São Felizes”, que acabou tendo sua execução nas rádios proibida pela censura, mas meu destaque vai para Medieval 2.

 

Considerado o disco mais romântico de Cazuza, Só se for a Dois é o disco menos lembrado pelo público, mas é justamente o meu favorito. A música título do disco traz uma das melhores letras de Cazuza. No disco também temos o clássico “O Nosso Amor a Gente Inventa” que provavelmente tenha sido a música que me fez fã do Cazuza, além de “Solidão que Nada”. Outras duas canções desse disco que valem muito a pena serem ouvidas é “Completamente Blue” e “Vai a Luta”, que possuí um dos melhores versos para se encerrar uma canção: os fãs de hoje são os linchadores de amanhã.

 

Ciente de que estava doente, Cazuza produz o seu testamente definitivo. Ideologia foi lançado em 1988 e traz uma verdadeira radiografia musical de sua geração. Talvez esse disco seja o que resume bem o universo musical de Cazuza. Inicia o disco com um rock em parceria com o velho companheiro Frejat, afirmando que seus heróis morreram de overdose, segue o disco deixando claro que tinha visto a cara da morte e que ela estava bem viva, em forma de samba-rock pede para que o Brasil mostre a sua cara, pega um trem para as estrelas em parceria com Gilberto Gil, pede piedade para as pessoas caretas e covardes em forma de blues e encerra o disco num pierrot retrocesso meio bossa nova e rock n roll. Uma obra prima atemporal.

 

Durante a turnê do álbum Ideologia, nasce o disco ao vivo O Tempo Não Para, considerado por muitos o melhor disco ao vivo dos anos 80. Nele se encontram sucessos da carreira solo de Cazuza, uma versão intimista para “Todo Amor que Houver Nesta Vida”, a regravação de “Vida Louca Vida”, de Bernardo Vilhena e Lobão, além da música que dá nome ao título, a mais forte de sua carreira, musicada por Arnaldo Brandão. A música já havia sido gravada antes pela banda do Arnaldo, o Hanoi Hanoi, mas é com Cazuza que ela ganha vida e torna o hino de sua geração, que mesmo tanto tempo depois, continua assustadoramente atual, onde vemos ganhar forma o museu de grandes novidades que Cazuza cantou.

 

Já de cadeira de rodas, Cazuza dá a sua cartada final com o disco Burguesia, lançado em 1989. Como quem sabe que não lhe restava muito tempo de vida, Cazuza grava um disco duplo, tendo a participação de praticamente todos os seus parceiros musicais ao longo da vida, como Frejat Leoni, Ezqueiel Neves, além de gravar músicas de Herbert Vianna, Caetano Veloso, Rita Lee e Paulo Coelho. A faixa-título foi o grande sucesso do disco, mas meu destaque vai para “Como Já Dizia Djavan”, mais uma parceria de Cazuza com Frejat.

 

Foi escrachando seu repúdio pela classe média brasileira, que classe que ele próprio pertencia que Cazuza saiu de cena no dia 7 de julho de 1990. Um ano antes, num ato de muita coragem para a época, assumiu publicamente que era portador do vírus HIV. Já em 1991, um disco póstumo intitulado Por Aí… foi lançado, trazendo sobras de estúdio, entre elas, uma parceria inédita com o ex-titã Arnaldo Antunes, chamada “Não Há Perdão Para o Chato”, além de versões para músicas de Raul Seixas, da banda gaúcha Nenhum de Nós e da cantora Janis Joplin, de quem Cazuza nunca negou a admiração

 

Cazuza dedicou os seus 32 anos de existência à subverter o que aparentava ser a ordem natural de sua vida. O filho único de uma família da Zona Sul carioca que resolveu frustrar as expectativas de quem o cercava, por assim achar por bem. Quando olho para a pequena, porém rica obra de Cazuza, lembro-me da matéria de capa da Revista Veja, de 1989, onde o reduziram a uma vítima da Aids que estaria agonizando em praça pública, e que questionou se a música de Cazuza permaneceria relevante pelo menos nos 5 anos seguintes. 27 anos, é completamente dispensável responder tais questionamentos. Cazuza falou pouco, mas disse tudo. O poeta está vivo.

VIVA CAZUZA!!!

 

Top 5

1 – Só se for a Dois (1987)

2 – Ideologia (1988)

3 – Exagerado (1985)

4 – Barão Vermelho (1982)

5 – Maior Abandonado (1984)

 

Discografia

Com o Barão Vermelho

(1982) Barão Vermelho

(1983) Barão Vermelho 2

(1984) Maior Abandonado

 

Carreira solo

(1985) Exagerado

(1987) Só se for a Dois

(1988) Ideologia

(1989) O Tempo Não Para Ao Vivo

(1989) Burguesia

(1991) Por aí…

TagsCazuza
COMPARTILHAR:

Comentários no Facebook