Uma gang de gênios chamada Titãs

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Uma das maratonas discográficas mais legais de fazer, chegou a vez de desbravar a obra dos Titãs do Iê-Iê. Embora eles tenham deixado de usar o “iê-iê’ no nome antes mesmo de lançarem o primeiro disco, eu acho muito divertido e por isso você verão eu utilizar desse nome várias vezes. Considerada por muitos uma das maiores bandas do rock nacional, em todos os sentidos, seja pela grandiosidade e riqueza de sua música, seja pela quantidade incomum de membros em sua formação original, chegando a ter nove integrantes, os Titãs nos deram verdadeiras pérolas que transcenderam o rock e acabaram se tornando, ao longo do tempo, discos clássicos da música popular brasileira.

Feito parte de uma cena musical paulista, bastante efervescente no inicio dos anos 80, enxergamos nos Titãs a influência direta do movimento punk, com o embrião de bandas futuras de sucesso como o Ira! e Inocentes, e todo o movimento da chamada Vanguarda Paulista, que tiveram nomes como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Na Ozetti e a banda Língua de Trapo (recomendo aos amantes da música conhecerem mais sobre esse movimento), principalmente nas construções de suas letras, com frases dodecafônicas, que acabariam se tornando uma marca registrada nos Titãs, fazendo deles uma das bandas mais criativas e originais dentro de BRock. Sem mais delongas, vamos ao que interessa.

Tendo em sua formação Arnaldo Antunes, Branco Mello e Paulo Miklos nos vocais, Sérgio Brito nos teclados e vocais, Nando Reis no baixo e vocal, Tony Belloto e Marcelo Fromer nas guitarras e o André Jung na bateria (meu amigo), os Titãs nos deram seu cartão de visitas com o disco homônimo lançado em 1984. Bastante influenciado pela new wave, o disco teve o clássico “Sonífera Ilha” puxando seu sucesso, incluindo outras músicas como “Marvin”, “Go Back”, que só viria se tornar uma favorita do público anos depois, e outras menos conhecidas como “Querem Meu Sangue” e “Mulher Robot”, além de “Toda Cor”. Olhando hoje para esse disco, vemos claramente que o melhor deles ainda estava por vir e o disco seguinte já dava uma pequena mostra disso.

Apresentado ao público em 1985, Televisão já traz letras mais fortes e uma mudança na formação que é a entrada do baterista Charles Gavin, substituindo André Jung que se juntaria à banda Ira! e faria história com ela, formando assim a que ficaria conhecida como a formação clássica dos Titãs. A própria faixa-título e músicas como “Massacre”, “Pavimentação” e “Não Vou Me Adaptar” (atire a primeira pedra quem nunca viu a letra dessa música em algum livro didático nos tempos de escola) seguem essa linha, mas o lado pop também tem sua presença no disco, principalmente com “Pra Dizer Adeus”. “Autonomia” também é uma música que merece atenção de público. Televisão serviu pra preparar o público para a porrada que viria na sequência.

Indiscutivelmente, a obra prima dos Titãs. Embora tenham feitos discos muito bons nos anos seguintes, nenhum conseguiu superar a perfeição de Cabeça Dinossauro. Marcando o início da parceria da banda com o produtor Liminha, Cabeça Dinossauro é porrada do início ao fim. Recheado de clássicos como “Cabeça Dinossauro”, “AA UU”, “Polícia”, “Bichos Escrotos” e “Homem Primata”, o disco traz uma crítica às instituições como a Igreja e o Estado e é sem dúvida um dos álbuns mais importantes lançados nos primeiros anos de retomada democrática em nosso país. Um verdadeiro soco no estômago e que colocou os Titãs entre os principais nomes na música dos anos 80.

Considerado por mim o segundo melhor disco dos Titãs, Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas, lançado em 1987, tem um dos melhores nomes de disco desse país. Seguindo a linha feroz de seu antecessor, temos em “Comida” um dos clássicos que ele nos apresenta, além de “Diversão”, “Desordem”, “Nome aos Bois” e “Lugar Nenhum”, minha favorita do disco, além de “Corações e Mentes”, uma boa música desse disco.

Após quatro discos bem sucedidos, nada melhor que um ao vivo para registrar essa fase de ouro da banda e é por isso que Go Back é lançado em 1988. Gravado no Festival de Montreux (todo mundo gravou disco nesse festival), ele é um apanhado dos principais sucesso do grupo até aquele momento e tem a participação de Liminha como guitarrista, sendo praticamente um nono titã. É um bom disco, apesar da participação morna do público na gravação.

Voltando aos discos de inéditas, Õ Blesq Blom (1989) encerra a excelente década de ouro dos Titãs, além também de ser o último da parceria com Liminha. O álbum traz músicas como “Miséria”, “Flores”, “O Pulso” e “32 Dentes”, além de ótimas músicas menos conhecidas do grande público como “O Camelo e o Dromedário”, “Faculdade” e “Deus e o Diabo”. Particularmente, Õ Blesque Blom marca o fim de uma trilogia de discos antológicos, formada também pelo Cabeça e Jesus. Embora tenha tido bons discos na sequência de sua carreira, levaria bastante tempo para que eles lançassem novamente um trabalho que pelo menos lembrasse desses anos dourados dos Titãs.

Produzido pela própria banda, Tudo os Mesmo Tempo Agora foi lançado em 1991 e é o último trabalho com a presença de Arnaldo Antunes, que sairia para seguir uma carreira solo muito bem sucedida, diga-se de passagem. Apresentando um som um pouco mais pesado, o disco traz músicas como “Clitóris”, “Filantrópico”, “Eu Vezes Eu”, “Isso pra Mim é Perfume” (antes de virar um cantor romântico, Nando Reis cantava umas coisas assim) e “Eu Não Sei Fazer Música”. Basicamente, é o disco que vai dar o direcionamento musical da banda na primeira metade dos anos 90.

Titanomaquia, de 1993, é o disco mais pesado da banda em termos de sonoridade. Bem mais heavy que os trabalhos anteriores, o disco marca uma parceria da banda com o produtor norte-americano Jack Endino, que voltaria a se repetir em mais outros quatro discos do grupo. Primeiro trabalho dos Titãs sem Arnaldo Antunes, agora com “apenas” sete membros, o disco tem “Disneylândia”, “Fazer o Quê?”, “Será que é isso que Eu Necessito” e o clássico “Nem Sempre se Pode Ser Deus”. Embora tenha uma sonoridade bem diferente da apresentada em seus discos clássicos, é um ótimo trabalho dos Titãs e merece atenção.

Quando se coloca Domingo, de 1995, para tocar, a sensação é de que iremos ouvir o Secos e Molhados, devido a presença dos acordes iniciais de “Sangue Latino”, mas é só pra abrir o disco antes de Sérgio Britto rasgar tudo com “Eu Não Aguento”, uma das músicas de destaque do disco. Embora seja um disco igualmente pesado, Domingo já apresenta uma sonoridade mais leve que seu antecessor, mais próximo da sonoridade rock n roll dos Titãs. Músicas como “Rock Americano”, “Domingo”, “Eu Não Vou Dizer Nada (Além do que Estou Dizendo)” e “Pela Paz”, que está inclusa apenas na versão em CD, lançada um ano depois, são ótimas músicas desse disco, encerrando este segundo ciclo na carreira dos Titãs.

Em 1997, chega ao mercado o Acústico MTV dos Titãs, um dos melhores acústicos produzidos no Brasil (vocês vão me ver dizendo isso várias vezes de diversos artistas, mas eu juro, esse é realmente muito bom!). Tendo a participação especial de um monte de gente, entre eles, o ex-titã Arnaldo Antunes, o disco é um apanhando dos grandes clássicos da banda em versões desplugadas, além de quatro canções inéditas que dentre elas, eu destaco “Os Cegos do Castelo”, interpretada por Nando Reis. Após dois discos bastante pesados, o acústico mostra que nem só de barulho vive os Titãs, mas de toda a sofisticação que a música permitir ter, apresentando os clássicos da banda, acompanhados por orquestra, conquistando assim um novo público para a banda. Este foi um dos discos mais vendidos de sua discografia.

Com o sucesso do Acústico MTV, veio em 1998 o Volume Dois, mas diferente do anterior, foi gravado em estúdio, apresentando músicas que ficaram de fora do ao vivo e incluindo seis músicas inéditas, da quais eu destaco “Era Uma Vez”, interpretada por Branco Mello. Outra música de sucesso do disco é a regravação de “É Preciso Saber Viver”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Esse disco também foi um retorno da parceria entre os Titãs e o produtor Liminha. Classifico este disco como razoável, mas vale a pena dedicar um tempo para ouvi-lo.

Após dois acústicos que traziam basicamente regravações, todos imaginavam que viria um novo disco com canções inéditas e volta das guitarras, certo? Bem, as guitarras até voltaram, mas quanto as canções inéditas, não foi dessa vez. Não sei bem o que leva uma banda a entrar em um estúdio para gravar um disco só com covers, logo após lançar dois discos do melhor estilo Greatst Hits. É o caso de As Dez Mais, de 1999. Embora seja divertido juntar num mesmo disco, músicas dos Mamonas Assassinas, da banda punk paulista Inocentes, Tim Maia e Legião Urbana, sinto que os Titãs podiam ter feito algo melhor, mas está aí e o disco vendeu pra caramba, além de ter sido o último registro com o saudoso guitarrista Marcelo Fromer.

A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana (esses nomes gigantescos de discos são sempre os melhores), lançado em 2001, além de ser o primeiro disco de inéditas desde Domingo (1995), é o primeiro sem o guitarrista Marcelo Fromer, falecido poucas semanas antes do início das gravações (algumas músicas do disco possuem contribuições dele na composição). O registro é também o último disco com o baixista Nando Reis, que sairia no ano seguinte para dar seguimento a uma muito bem sucedida carreira solo. E é na voz do próprio Nando que temos em uma das melhores músicas do disco, “O Mundo é Bão, Sebatião!”. O disco também tem a famigerada “Epitáfio”, a belíssima “Daqui pra Lá”, inspirada num texto de Torquato Neto e Alma Lavada, além da faixa título do disco, uma crítica as listas de final de ano que a imprensa costuma apresentar com os melhores, baseada em superficialidades. Um ótimo disco, abrindo aquela seria uma década bem fraca para o rock nacional.

Como Estão Vocês?, foi lançado em 2003, apresentando um Titãs agora “apenas” como quinteto, tendo ainda várias cabeças com ideias para transforma-las em música. Logo de cara, destaco “Gina Superstar” e “KGB”. “Provas de Amor” é aquele roquinho gostoso de ouvir e temos a clássica “Enquanto Houver Sol”. Destaco ainda a última música do disco, “As Aventuras do Guitarrista Gourmet Atrás da Refeição Ideal”, uma homenagem ao ex-titã Marcelo Fromer, que além de guitarrista e apaixonado por futebol, era um profundo especialista em gastronomia, tendo inclusive assinado colunas sobre assunto em jornais. Homenagem mais que merecida a uma pessoa que muito contribuiu para que os Titãs se tornassem em uma das principais bandas do rock nacional.

Considerado por mim o melhor registro elétrico ao vivo dos Titãs, MTV Ao Vivo, lançado em 2005, faz o velho apanhado dos grandes sucessos do grupo e reúne três músicas inéditas, “O Inferno São Os Outros”, “Anjo Exterminador” e a melhor de todas, “Vossa Excelência” (pesquisa feita pela Abner Moabe Scientific Corporation aponta que cantar essa música em momentos de fúria tem benefícios terapêuticos. Ouça e descubra o porquê!). Sempre costumo dar a dica de um disco para ser indicado para alguém que está sendo iniciado ao conhecimento sobre a banda e considero o MTV Ao Vivo dos Titãs uma ótima opção. Traz uma ótima seleção de músicas, mostrando as diversas facetas da banda.

Com toda certeza o disco mais pop dos Titãs, Sacos Plásticos, de 2009, é talvez o disco de inéditas menos ousado do grupo. Também pudera, o disco foi produzido por Rick Bonadio, especialista em produzir roquinhos radiofônicos. Mas isso não quer dizer que o disco seja ruim. A segunda metade do disco me soou bem mais interessante com canções como “Deixa Eu Sangrar”, “Problema”, “Não Espere Perfeição” e “Quem Vai Salvar o Mundo”. “Agora Eu Vou Sonhar” também é uma boa música e vamos admitir, “Porque Eu Sei que é Amor” é gostosinha de se ouvir. Um bom disco pop, mas que em pouco lembra os Titãs que ficaram conhecidos do público. Um ano após o lançamento, o baterista Charles Gavin deixa os Titãs, que passa a contar apenas com metade de sua formação clássica, com Paulo Miklos no vocais e na guitarra (desde a morte do Marcelo ele já vinha exercendo essa função), Sérgio Brito nos vocais, teclados e se alternando no baixo com Branco Mello que também dividi os vocais e Tony Belloto na guitarra solo, tendo na bateria a partir daquele momento o baterista Mario Fabre.

Eu poderia muito bem ter descartado desse texto o disco Cabeça Dinossauro Ao Vivo, lançado em 2012, tendo em vista que se trata apenas de uma reprodução na íntegra do épico disco de 1986, entretanto, esse passeio que banda fez à convite do Sesc Belezinho  para o projeto Álbum, em que as bandas e artistas resgatam discos importantes de suas discografias, parece ter mexido com os neurônios dos Titãs e feito eles prepararem um disco que eu considero o melhor do rock nacional nos anos 2000. Sem falar que é uma oportunidade da nova geração (da qual eu faço parte) em reviver esse momento, e tendo o registro de Sérgio Britto interpretando “Porrada”, originalmente na voz de Arnaldo Antunes e “Família”, registrada por Nando Reis, além “Igreja” com Branco Mello, substituindo Reis e “O Que” com Paulo Miklos, música está cantada no Cabeça por Antunes. Um daqueles trabalhos extra carreira que merece uma atenção do público.

Eis o melhor disco do rock nacional desde a virada do milênio. Nheengatu, lançado em 2014, é o disco que salvou o rock. Se Sacos Plásticos foi hiper pop, Nheegatu é porrada do início ao fim. Sem baladinhas, ele é praticamente um Cabeça Dinossauro 2. Alias, me atrevo a dizer que, desde Õ Blesq Blom, a banda não lançava um disco tão perfeito do início ao fim. Inclusive, ele merece ser ouvido por completo. “Fardado”, “Mensageiro da Desgraça”, “República dos Bananas”, “Fala Renata” (com direito a polêmica com Lobão), “Cadáver Sobre Cadáver”, enfim, o disco inteiro é perfeito! Mesmo não sendo a Legião Urbana, ouça no volume máximo. É claro que um disco maravilhoso como esse merecia um registro ao vivo de sua turnê, e ele veio com Nheegatu Ao Vivo, lançado em 2015 e até o momento o último disco dos Titãs, que traz quase todas as músicas do disco, além outros clássicos que dialogam perfeitamente Nheegatu. Também merece ser ouvido no volume máximo.

Em julho deste ano, o vocalista e guitarrista Paulo Miklos anunciou sua saída da banda para se dedicar a trabalhos solo. Para mim que sou de uma geração que já conheceu os Titãs como um quinteto, ele era meu titã favorito. Não sei se é viável para a banda continuar apenas como um trio. Para outras bandas até seria, mas para quem já teve 8 integrantes em sua formação, fica no mínimo estranho, mas vindo dos Titãs, não podemos duvidar de nada.

De qualquer forma, quando olhamos para a obra que os Titãs construíram ao longo desses mais de 30 anos, vemos que a banda conseguiu se perpetuar principalmente pela seu poder criativo, sabendo se adaptar ao longo do tempo e mesmo com alguns deslizes ao longo da carreira, nunca perderam a essência. Tendo reunido tanta gente genial, com habilidades que vão além da música, como cineastas, escritores, poetas, e até mesmo especialistas em gastronomia, pela sua formação incomum de 8 integrantes, posso afirmar que os Titãs do Iê-Iê são o que são, não apenas por serem uma banda de rock, mas sim, por serem uma verdadeira gang de gênios.

Top 5

1 – Cabeça Dinossauro (1986)

2 – Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1987)

3 – Nheegatu (2014)

4 – Õ Blesq Blom (1989)

5 – Televisão (1985)

Discografia

Titãs (1984)

Televisão (1985)

Cabeça Dinossauro (1986)

Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1987)

Go Back (1988)

Õ Blesq Blom (1989)

Tudo ao Mesmo Tempo Agora (1991)

Titanomaquia (1993)

Domingo (1995)

Acústico MTV (1997)

Volume Dois (1998)

As Dez Mais (1999)

A Melhor Banda de Todos os Tempos da última Semana (2001)

Como Estão Vocês? (2003)

MTV Ao Vivo (2005)

Sacos Plásticos (2009)

Cabeça Dinossauro Ao Vivo (2012)

Nheegatu (2014)

Nheegatu Ao Vivo (2015)

TagsTitãs
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